Alice Cooper revela três álbuns em produção e lança livro de memórias
Em entrevista à Billboard, ícone fala sobre 'Devil on My Shoulder'

Alice Cooper (Divulgação)
Alice Cooper escreveu um terceiro livro de memórias para esclarecer as coisas, ou pelo menos esclarecê-las o máximo possível.
“Houve uma época em que jamais teríamos feito este livro, porque nunca teríamos quebrado a aura de mistério em torno de Alice Cooper”, disse à Billboard o ícone do shock rock, de 78 anos, membro do Rock & Roll Hall of Fame. Ele falava de “Devil on My Shoulder” (editora Da Capo), que chega às livrarias nesta terça-feira (6). “Raramente deixei que fatos atrapalhassem uma boa história.”
No prefácio, ele chega a admitir: “Eu diria até que fui o entrevistado mais escandalosamente pouco confiável de todos os tempos, tecendo uma teia complexa de floreios e exageros ao longo do caminho, até que nem eu mesmo conseguia separar fato de ficção”.
Desta vez, porém, a proposta é outra. “Agora não estamos mais tentando construir uma carreira. Quero que as pessoas vejam que, sim, esta banda realmente passou por muita coisa até chegar ao sucesso. Não me importo de dar uma incrementada na história, mas 90% desses relatos são verdadeiros”, disse.
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Com 445 páginas, o livro sucede “Me, Alice: The Autobiography of Alice Cooper” (1976), que o próprio cantor descarta como um “delírio de bêbado”, e “Alice Cooper, Golf Monster” (2007), que mistura biografia com sua paixão pelo golfe e traz um relato mais coerente e confiável. “Ninguém realmente divulgou ‘Me, Alice’. Ninguém divulgou ‘Golf Monster’. Eram livros razoáveis e divertidos. Mas a este nós realmente dedicamos muito tempo. Passei cinco horas por dia com [o coautor Daniel Richler] só tentando lembrar histórias e admitindo: ‘Ok, isso pode estar errado, mas lembro que aconteceu. Não sei exatamente como, então vou contar a minha versão’.”
Para Alice Cooper, toda autobiografia retrata o que provavelmente aconteceu, não necessariamente o que realmente aconteceu. “Se você acha que lembra exatamente o que disse a alguém 50 anos atrás, eu duvido. O melhor que você pode fazer é escrever o que lembra e tornar isso divertido, porque, para mim, é isso que um livro assim deve ser.”

Cooper gostou especialmente de um recurso sugerido por Daniel Richler, que também foi coautor de “My Effin’ Life” (2023), best-seller de memórias de Geddy Lee, baixista do Rush. Ao longo do livro, o Cooper “real”, nascido Vince Furnier, conversa com o alter ego que criou. Nos diálogos, o personagem Alice questiona a veracidade das histórias do criador, que ora rebate, ora cede, muitas vezes a contragosto.
“Gosto desse confronto entre o Alice e eu”, disse Cooper, que aprendeu a se separar do personagem depois de ficar sóbrio, em meados da década de 1980, quando superou o alcoolismo e um vício quase fatal em crack. “Uma das razões pelas quais adoro o título é que, para mim, todo mundo tem um diabo no ombro, sempre sussurrando as coisas erradas. Você conversa com alguém e a pessoa diz: ‘Eu ia fazer tal coisa, mas de repente fiz aquilo outro, e foi a coisa errada’. Esse é o diabo no seu ombro dizendo: ‘Quer saber? Essa ideia aqui é melhor’. Você concorda e depois pensa: ‘Por que eu fiz aquilo?’. É isso que conecta todo mundo.”
“Devil on My Shoulder” é o relato mais detalhado da eviloution (trocadilho com “evolução” e “mal”) de Cooper. O livro vai da infância em Detroit e da formação da banda original Alice Cooper, em Phoenix, à temporada em Los Angeles e à chegada a um estrelato notório e muitas vezes execrado. Essa fama foi marcada por shows teatrais inspirados em filmes de terror e por sucessos no Billboard Hot 100 como “Eighteen”, “School’s Out” e “No More Mr. Nice Guy”.
Algumas lendas continuam em aberto. Cooper diz que “ainda não sei de quem era a galinha” que ele jogou na plateia do festival Toronto Rock and Roll Revival, em 1969. Outras histórias, porém, são esclarecidas, como a origem nada mística do nome Alice Cooper. “A história real não era tão boa quanto a da reencarnação da bruxa, do tabuleiro Ouija e tudo mais”, disse. “Eu pensava: ‘Olha, essa história é melhor’. O que aprendemos naquela época foi que não precisávamos afirmar aquilo. Bastava não negar.”
O livro também detalha a luta de Cooper contra a dependência química, que quase acabou com sua carreira no fim da década de 1970, e a reaproximação com o cristianismo. “Não tenho problema nenhum com isso”, disse. “As pessoas acham que o cristianismo é adorar a igreja, quando na verdade é um relacionamento pessoal com Cristo, e a igreja é o lugar onde você se reúne com os outros. É algo em que realmente acredito, e isso não me impede de interpretar o Alice com toda a intensidade. É fácil ligar e desligar essa chave. Assim que a cortina se fecha, [o Alice] desaparece.”
“Quando você lê a Bíblia, vê que Deus escolhia pessoas que ninguém mais escolheria, as pessoas ‘erradas’. Paulo perseguia os cristãos e acabou se tornando o apóstolo número um. [Deus] escolheu Davi, o caçula dos irmãos, para ser rei de Israel. E, de repente, Ele me permite fundar a Solid Rock [fundação no Arizona], que realmente ajuda adolescentes. Eu era o mesmo cara cujos discos eram queimados no programa ‘700 Club'”, contou.
“Quando fiquei sóbrio e limpo, retomei minhas crenças. E não precisei abrir mão do Alice. Seu estilo de vida não é o que você faz no palco. Se eu interpretasse Macbeth, seria a mesma coisa. É representar um personagem.”
Três álbuns no horizonte
Cooper também escreve bastante sobre a banda original Alice Cooper, formada em 1964 com o nome Earwigs e encerrada em 1975, depois do álbum “Muscle of Love”. Cooper, o baixista Dennis Dunaway, o guitarrista Michael Bruce e o baterista Neal Smith se reuniram na cerimônia de entrada no Rock & Roll Hall of Fame, em 2011. O guitarrista Glen Buxton (1947-1997) já tinha morrido. No ano passado, o grupo lançou um álbum de reencontro.
Para o livro, Cooper levou em conta a versão dos colegas, já que Bruce e Dunaway publicaram suas próprias memórias. “Foi mais uma separação do que um divórcio”, disse. “Nunca houve ressentimento, processo ou algo do tipo. Aquela banda tinha chegado ao fim. [Dunaway] achava que eu tinha saído por dinheiro, mas não era nada disso. O que eu não queria era ver o Alice Cooper morrendo, algo que estava começando a acontecer na época de ‘Muscle of Love’. Eles queriam fazer seus próprios álbuns, e eu me afastei. Quando disse que ia fazer meu próprio projeto [‘Welcome to My Nightmare’], foi uma aposta enorme. Não tínhamos ideia de que seria um sucesso tão grande. Mas funcionou, e cada um seguiu seu caminho.”
Recentemente, Cooper gravou “Moving Mountains”, single de temática espiritual, com o cantor de country Cody Jinks. Para lançar o livro, ele faz dois eventos na quarta-feira (7), em Nova York, e participa da NYC Comic Con na quinta-feira (8), em uma conversa mediada por Steven Van Zandt. Depois, segue para oito eventos de divulgação no Reino Unido. Na volta, começa em 27 de outubro, em Clearwater, na Flórida, o que ele chama de etapa final da turnê “Alice’s Attic”. Outros eventos de lançamento na América do Norte estão em estudo.
Ouça Alice Cooper
Em novembro, ele volta a se juntar ao ilusionista Criss Angel para mais seis apresentações de “Welcome to Our Nightmare”, no teatro do mágico no Planet Hollywood Resort & Casino, em Las Vegas. “É divertido porque é algo que entendemos perfeitamente”, disse Cooper. “Nossa banda entende a teatralidade e como ela interage com a música. Ensaiamos muito para aquele show porque, se você estiver no lugar errado, acaba assado: sai fogo do chão. É um show de rock, mas tem toda essa mágica entrelaçada, e tudo parece fazer parte do contexto.”
Ele também está aberto a novas temporadas. “Nunca vou dizer que é o fim, porque podemos retomar esse show a qualquer momento. Se [Criss] disser: ‘Quer fazer mais seis shows?’, claro, sem problemas, porque agora já sabemos como o show funciona.”
Cooper trabalha atualmente em três discos: um álbum solo, um com o supergrupo Hollywood Vampires, que fez turnê pela Europa no meio do ano, e outro com a banda original. Este último dá sequência a “The Revenge of Alice Cooper”, lançado no ano passado, o primeiro trabalho do grupo em 52 anos. “Eu disse a eles: ‘Continuem compondo. Vamos nos reunir, escolher as melhores músicas e entrar em estúdio'”, contou.
“Tenho esses três álbuns fervilhando na cabeça agora. Quando [o produtor Bob] Ezrin ligar e disser ‘Ok, você precisa trabalhar nisto ou naquilo’, a gente vai lá e faz.”
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].
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