ARVO Festival: ‘pratas da casa’ mostram outra Florianópolis
Com O Rosa e Juliana D Passos, festival reforça a presença de artistas locais

Juliana D Passos e O Rosa, artistas de Florianópolis, estão na programação do ARVO Festival (Divulgação)
Floripa não é só um belo cenário para o ARVO Festival 2026. A presença de artistas de Florianópolis no evento, como é o caso de O Rosa e Juliana D Passos, aponta para uma discussão maior: como a cena local pode ocupar um festival de circulação nacional sem aparecer apenas como cartão-postal da cidade.
A 10ª edição do ARVO acontece em 16 de maio, no Kartódromo Sapiens Parque, em Florianópolis, com João Gomes convidando Jota.pê, BaianaSystem, Fundo de Quintal, Duquesa, Gilsons, Carol Biazin e Maracatu Arrasta Ilha no palco principal.
Além do Maracatu local no maior line-up, parte importante da programação da cidade se concentra no Beco do Samba, com Quintal do Fê – Samba do Rosa convidando Elô Gonzaga, Samba das Preta com Juliana D Passos e Julia Maria, Samba Informal de Rua convidando Ju Queiroz e Bastião convidando Bárbara Damásio e Camélia Martins.
Sambista, O Rosa resume a participação no ARVO como uma chance de levar seu trabalho a novos públicos e, ao mesmo tempo, colocar Florianópolis em evidência. Mas a Florianópolis de que ele fala não é apenas a da praia ou do turismo.
“Sou um artista vindo do Morro da Caixa e vejo que muitas pessoas de fora ficam surpresas ao descobrir que aqui no Sul do país, na capital de Santa Catarina, tem escolas de samba, morro, favela, cultura negra e representantes dessas artes”, diz. “Precisamos que o mercado olhe para Santa Catarina como uma potência cultural.”
O que significa ser local no ARVO Festival?
Para Juliana D Passos, ocupar um festival desse porte é quebrar a lógica de que a música feita em Florianópolis existe apenas para “representar a cidade”. A cantora vê a presença no line-up como afirmação de produção autoral, pesquisa estética e força cultural fora do eixo mais tradicional da indústria.
“É romper um lugar que durante muito tempo foi imposto aos artistas daqui”, afirma Juliana. “Estar na programação de um festival desse porte é também afirmar que existe produção autoral, pesquisa estética e potência cultural no Sul além do eixo tradicional da indústria.”
A dificuldade de circulação aparece nas falas dos dois artistas. Juliana cita custo de deslocamento, falta de políticas continuadas de intercâmbio e concentração histórica do mercado no eixo Rio-São Paulo.
É nesse ponto que o ARVO ganha relevância como estrutura de mediação. O festival, claro, não resolve sozinho os gargalos de circulação, mas cria uma zona de contato entre a cena de SC e o resto do país.
O Rosa vai na mesma direção: para ele, ainda há pouco investimento para que trabalhos autorais, sobretudo os atravessados por negritude e ancestralidade em Santa Catarina, consigam chegar a outros públicos.
“Sem uma ponte entre o cenário local e o nacional, muitos artistas seguem restritos à sua região, mesmo tendo potência para alcançar outros públicos”, diz O Rosa.
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