Os bastidores de ‘Rolling in the Deep’, música que transformou Adele em fenômeno
Composta em uma tarde, a faixa estreou na 68ª posição da Hot 100

A cantora Adele, durante concerto em Las Vegas (Reuters)
No início da década de 2010, o soul-pop britânico não era exatamente uma garantia de sucesso nas paradas. Mas, assim como aconteceu com o segundo álbum estrondoso e inesperado de outra cantora de soul do Reino Unido, apenas quatro anos antes, “21”, de Adele, tornou-se aquele sucesso avassalador que mudou as regras do jogo, desafiou tendências e pegou todo mundo de surpresa.
Essa tempestade foi precedida por um single de impacto imediato: “Rolling In the Deep”. Composta por Adele em parceria com Paul Epworth (pouco após ele ter trabalhado no álbum de estreia do Florence + the Machine) em uma única tarde, a faixa — um soul enérgico e marcado pelo dedilhado do violão — é um hino de desabafo contra um ex-amor que transmite, ao mesmo tempo, empoderamento e vulnerabilidade.
Um verso como “we could have had it all” (“poderíamos ter tido tudo”) pode parecer carregado de confiança no papel, mas, na gravação, não há qualquer traço de escárnio; pelo contrário, a voz dela transborda dor e arrependimento.
“Foi um daqueles momentos em que ela literalmente terminou de compor, cantou a música duas vezes e perguntou: ‘Será que devo gravar mais uma?'”, relembra o engenheiro de som Mark Rankin sobre a gravação. “E lembro-me de responder: ‘Não, acho que já está ótimo’. Talvez eu tenha pegado uma palavra de um take e a inserido em outro, e é isso que está no disco. É algo tão real, é pura magia.”
Ouça ’21’ de Adele
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Assim como os clássicos do soul dos anos 60 que inspiraram seu estilo, “Rolling In the Deep” é uma verdadeira aula de como construir, de forma implacável, uma catarse avassaladora. O percussionista Leo Taylor toca os pratos lenta, porém metodicamente, antes que um rufar de bateria vibrante surja por volta da marca de um minuto, seguido por um grupo de backing vocals que entoa lamentos sobre a perda da cantora, ao estilo de um coro grego.
Por mais que elas soltem a voz com força, no entanto, jamais ofuscam Adele — e como poderiam, quando ela sustenta aquela nota de arrependimento e profunda mágoa no refrão, esticando-a como se fosse uma bala de caramelo?
E, quando a música chegou ao público, o impacto foi como o de uma bala de canhão.
“Lançamos o álbum ’21’, com ‘Rolling In The Deep’ e ‘Someone Like You’ saindo em rápida sucessão”, recorda Ben Beardsworth, diretor administrativo da XL Recordings. “Em um intervalo de 48 horas, a trajetória da carreira de Adele disparou, e ela se tornou uma força imparável.”
Ao estrear na 68ª posição da parada Hot 100, quando foi lançada em dezembro de 2010, “Rolling in the Deep” representava um contraste marcante em relação ao que os principais nomes do pop da época estavam produzindo (estávamos na era de Lady Gaga com “Born This Way” e de Rihanna na época de “We Found Love”, para efeito de comparação).
No entanto, à medida que jovens ouvintes adotavam a música como um hino de término de relacionamento — e um público mais velho, que não costumava comprar música regularmente, fazia questão de adquirir cópias do álbum “21” (repleto de uma sonoridade retrô) após seu lançamento em janeiro de 2011 —, “Deep” alçou voo até o primeiro lugar em maio de 2011, permanecendo no topo por sete semanas consecutivas.
“Nenhuma das duas [‘Rolling in the Deep’ ou ‘Someone Like You’] se parecia nem de longe com o que era a música pop naquele momento, e foi uma alegria imensa vê-las criar uma conexão tão forte com o público”, diz Beardsworth.
A música rapidamente se tornou um clássico moderno do pop — “Quando a Aretha Franklin grava uma versão da sua música, é aí que você sabe que ela é especial”, comenta o engenheiro de mixagem Tom Elmhirst — e preparou o terreno para uma carreira de vendas recordes para Adele; o álbum “21” passou 24 semanas (não consecutivas) no topo das paradas e quebrou o recorde de permanência de um álbum feminino na Billboard 200.
Além disso, o sucesso pavimentou o caminho para “25”, lançado em 2015, que superou o recorde de longa data do *NSYNC de maior número de álbuns vendidos em uma única semana… e o fez em pouco mais de três dias. Em uma época em que a indústria musical sofria com a queda vertiginosa nas vendas de álbuns e ainda não havia compreendido totalmente o modelo de negócios do streaming, esses sucessos trouxeram lucros — e esperança — extremamente necessários para o setor e seu futuro.
No entanto, isso não chegou a desencadear uma tendência de “blue-eyed soul” nas paradas americanas; embora Sam Smith tenha conseguido seguir seus passos e alcançar grande sucesso nos EUA, o soul-pop grandioso permaneceu, em grande parte, um território exclusivo de Adele ao longo da década de 2010, provando que, às vezes, as sonoridades que parecem não ter chance de dar certo são justamente as que trazem os melhores resultados.
“É uma daquelas músicas que levam as pessoas a pensar que houve algum tipo de truque envolvido”, diz Rankin. “Você ouve e há um certo mistério; as pessoas tentam imitá-la. Mas, na verdade, tudo estava simplesmente no lugar certo. Foi algo bem direto, honesto e verdadeiro. Isso é atemporal.”

[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].
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