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Britney Spears, cobra e Neptunes: como ‘I’m a Slave 4 U’ mudou o pop em 2001

Análise do disco que marcou a ruptura com a imagem de princesa inocente

Britney Spears

Britney Spears (Grosby Group)

Em 2001, Britney Spears já dominava o pop. Mal tinha saído da adolescência, mas a cantora e dançarina, hoje com 44 anos, já era uma força do entretenimento. Tinha dois álbuns no topo das paradas, ambos com certificado de diamante, três turnês de grande sucesso e uma legião de fãs.

No centro dessa ascensão meteórica havia uma dualidade intrigante. No palco, Britney tinha uma presença imponente e sedutora. Fora dele, encantava com a doçura e a irreverência típicas do sul dos EUA. Não por acaso, esse magnetismo lembrava o de uma de suas inspirações, Janet Jackson, hoje com 60 anos, em quem ela se espelhava “desde pequena”. Assim como Janet, Britney exerceu sobre a geração seguinte de estrelas pop uma influência que ultrapassou barreiras raciais. Mesmo quem não se identificava com ela estaria mentindo se dissesse que não via ali uma estrela.

Britney elevou o nível a cada disco, no som e no visual, e seus três primeiros álbuns, lançados em anos consecutivos, traçam uma evolução perfeita. “…Baby One More Time” (1999) vendia a imagem da garota da porta ao lado, com uniforme escolar e maria-chiquinhas. “Oops!… I Did It Again” (2000) desmontava aos poucos essa pureza, com clipes que incluíam solos de dança em cima de uma cadeira. Já “Britney” (2001) marcou o momento em que a era bubblegum explodiu de vez, provando que ela, afinal, não era tão inocente assim.

O primeiro single do disco, “I’m a Slave 4 U”, foi composto originalmente para Janet e tem duplo sentido. Em um episódio do programa “Making the Video”, da MTV, exibido em 2001, Britney disse que a música fala de ser arrebatada pela própria música. A leitura mais popular, porém, era a de que ela estava rendida a uma pessoa irresistível. Afinal, a faixa transborda sensualidade, dos gemidos e da respiração ofegante da cantora, então com 19 anos, à batida quente produzida pelos Neptunes, que remete a “Nasty Girl”, do Vanity 6.

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Britney Spears
Britney Spears (Grosby Group)

Muita gente conheceu Britney Jean Spears em 1993, quando ela entrou no elenco da nova versão de “The Mickey Mouse Club”. Com o fim do programa, em 1996, ela voltou para a Louisiana para tentar levar uma vida de adolescente “normal”, mas queria mais. Mandou para todos os contatos da indústria que conseguiu uma gravação sua cantando “I Have Nothing”, balada de Whitney Houston (1963-2012) que exige grande potência vocal. Em 1997, assinou com a Jive Records e passou um mês trabalhando com o produtor Eric Foster White para lapidar o timbre característico, de tom infantilizado.

Voz, imagem e repertório foram moldados para encaixar Britney no ideal de “princesa do pop” norte-americana que a gravadora tinha em mente, um papel que a indústria esperava que ela sustentasse. Conforme ela amadurecia, e o público prestava cada vez mais atenção nesse amadurecimento, a personagem criada para ela foi sendo deixada de lado. Na virada do século, a cultura pop era dominada por hits açucarados como “Candy”, de Mandy Moore, e “What a Girl Wants”, de Christina Aguilera. Nesse cenário, “I’m a Slave 4 U” representou uma ruptura, não só em relação ao que Britney fazia, mas em relação a tudo o que tocava nas rádios e no programa “TRL”.

Os fãs enlouqueceram quando o clipe, dirigido por Francis Lawrence, saiu no fim de setembro, um mês antes do álbum. Nele, Britney e seus amigos ocupam uma casa de banhos vazia, prontos para a festa. De top rosa-choque que mostra sua famosa barriga definida, ela executa com precisão uma coreografia de Brian Friedman com influências de dança do ventre.

Cada cena é mais quente do que a anterior, literalmente: a cantora brilha de suor e termina encharcada sob uma chuva torrencial. Britney encara a câmera durante boa parte do vídeo com um olhar capaz de assustar o Parents Television Council, entidade conservadora que fiscaliza conteúdo na TV norte-americana, e de levar jovens do mundo todo à euforia.

Assista ao clipe de Britney Spears

Só uma coisa se comparava ao calor do clipe: a já lendária apresentação de “Slave” no VMA de 2001. Dançarinos se contorciam no chão ao lado de Britney enquanto ela mostrava domínio sobre a indústria e sobre si mesma. A convidada especial era Banana, uma píton-birmanesa albina que a cantora carregou no pescoço enquanto girava pelo palco. Em 2014, os leitores da “Rolling Stone” elegeram a performance a sétima melhor dos 30 anos do VMA. Em 2017, a Billboard a incluiu entre as 100 maiores apresentações da história das premiações.

Seus trabalhos anteriores já mostravam um fenômeno em ascensão, mas foi com “I’m a Slave 4 U”, graças sobretudo ao clipe e à apresentação no VMA, que ela entrou de vez em uma fase de sensualidade, autoconfiança e controle artístico. Em resumo: Britney agora era uma mulher feita.

Como o título sugere, o terceiro álbum funcionava como uma reapresentação, Britney em sua forma mais direta. Ela assinou cinco faixas da edição norte-americana, depois de ter composto só uma música em “Oops!… I Did It Again” e nenhuma na estreia. Isso lhe deu liberdade para falar de sexualidade e liberdade de um jeito que soava autêntico. “É realmente onde estou agora e algo com que realmente me identifico”, disse à MTV News em 2001.

A autonomia também abriu espaço para uma produção mais experimental. Britney flerta com R&B, disco e rock, como em “Boys”, de pegada hip-hop, na versão de “I Love Rock ‘n’ Roll”, sucesso de Joan Jett & the Blackhearts, e, claro, em “I’m a Slave 4 U”, produzida por Pharrell Williams, hoje com 53 anos, e Chad Hugo, a dupla por trás dos Neptunes. “Eu ficaria entediada cantando o mesmo tipo de música o tempo todo. Ainda adoro minhas músicas antigas, mas é preciso expandir horizontes e crescer”, disse ela à “Entertainment Weekly” em novembro de 2001.

Britney Spears
Britney Spears (Grosby Group)

“Britney” estreou em primeiro lugar no Billboard 200, e Britney se tornou a primeira artista solo feminina a ter os três primeiros álbuns estreando no topo da parada. O disco foi um dos mais vendidos de 2001 e recebeu certificação de platina quádrupla. Os singles, porém, não repetiram o desempenho dos discos anteriores. “I’m a Slave 4 U” chegou à 27ª posição do Billboard Hot 100, e nenhum outro single do álbum entrou no top 40.

A crítica também ficou dividida. Para a “Entertainment Weekly”, a mistura da interpretação com ares de menina e da produção impessoal e sintética resultava em algo que não soava nem adulto nem erótico. O “New York Times” questionou se ela era mesmo uma mulher feita ou se apenas fingia ser. Já a “Rolling Stone” elogiou a produção de “I’m a Slave 4 U”, dizendo que as batidas de avant-soul, pensadas para levar Britney à vida adulta urbana do século 21, funcionaram muito bem.

Fãs e críticos não sabiam bem o que pensar dessa “R&Britney”. Quando artistas pop brancos se aproximam de uma sonoridade mais “urbana”, costumam despertar desconfiança, e com razão. A associação com elementos estereotipados como “exóticos”, como o rap, certos estilos de dança e roupas ou atitudes provocantes, pode ser lida como uma estrela pop dando um passeio pelo “lado selvagem” (taking a walk on the wild side). Esse “selvagem”, infelizmente, carrega uma conotação ligada à cultura negra. A mudança costuma ser vista como apropriação cultural, já que o artista branco tem o privilégio de voltar à sua zona de conforto quando se cansa da estética e do som associados a essa cultura.

Miley Cyrus, hoje com 33 anos, é o exemplo mais claro. Ela chamou Britney de sua “heroína” no Teen Choice Awards de 2009 e gravou com ela em 2013. Naquele ano, a ex-estrela da Disney disse que queria fazer um álbum “bem adulto e sexy” para se livrar da imagem certinha. Nasceu a era “Bangerz”, marcada por batidas de hip-hop, twerk e a língua de fora, que culminou na famosa e polêmica apresentação no VMA de 2013. Depois de um desvio pelo rock psicodélico em 2015, Miley voltou ao country e à imagem de “boa moça” com “Younger Now” (2017).

Na mesma época, a cantora que interpretou “Hannah Montana” criticou o gênero em entrevista à Billboard: “Eu adoro [‘HUMBLE.’, de Kendrick Lamar] porque [a letra] não é do tipo ‘vem sentar no meu pau, chupa meu pau’. Não consigo mais ouvir esse tipo de coisa. Foi isso que me afastou um pouco da cena hip-hop. Era muita ostentação de ‘Lamborghini, meu Rolex, uma garota no meu pau’, e eu não tenho nada a ver com isso”. No documentário da MTV “Miley: The Movement” (2013), porém, ela contava que tinha chamado o produtor Mike WiLL Made-It para “Bangerz” porque ouvia muito hip-hop e admirava o trabalho dele. Adotar uma cultura, abandoná-la e depois criticá-la rendeu a Miley uma reação negativa justificada.

Com Britney foi diferente: sua relação com a arte negra passou praticamente sem críticas. A reverência dela por essa cultura é evidente, e essa influência atravessa toda a sua obra. “I’m a Slave 4 U” foi a primeira incursão marcante da cantora no hip-hop e no R&B modernos, mas não a última. Faixas como “(I Got That) Boom Boom”, com os Ying Yang Twins, do álbum “In the Zone” (2003), “Tik Tik Boom”, de “Britney Jean” (2013), e “Private Show”, de “Glory” (2016), mostram como ela incorpora gêneros historicamente negros sem soar artificial.

Em uma crítica de “In the Zone” para a “Slant Magazine”, em 2003, o jornalista Sal Cinquemani escreveu que a mistura ousada de hip-hop e dance music apagava os últimos vestígios do passado bubblegum da cantora. E Britney sempre reconheceu com respeito a influência de Janet Jackson. “Lembro de ver o clipe de ‘If’ pela primeira vez e pensar: ‘Quero ser como ela'”, disse.

A cantora Britney Spears
Britney Spears (Ethan Miller EM/REUTERS)

As batidas não foram a única coisa que Britney herdou nessa fase. Ela também foi a pioneira do século 21 em desmontar a imagem de “boa moça” no pop, seguindo os passos de dois de seus ícones. “Erotica” (1992), quinto álbum de Madonna, de 68 anos, que mais tarde gravaria com Britney, marcou uma das eras mais emblemáticas da cantora.

O disco tratava de temas como homofobia e a epidemia de aids, um tabu na época, e ganhou tradução visual no livro “Sex”, obra de grande formato com imagens cruas e sexualizadas, celebrada como um triunfo pós-feminista. Já “Control” (1986), de Janet Jackson, rompeu com a imagem de caçula da família Jackson. O disco mostrou a “Miss Jackson, if you’re nasty” tomando as rédeas da própria imagem e inaugurando um som próprio, apoiado nas batidas de funk de Jimmy Jam e Terry Lewis.

Com a contribuição inovadora dos Neptunes, que logo virariam uma das sonoridades definidoras do pop e do hip-hop do início da década de 2000, Britney se tornou o maior exemplo dessa transição de “boa moça” para mulher adulta na era digital. Suas contemporâneas tentaram acompanhar a mudança, como Christina Aguilera na era “Dirrty” (2002), com participações dos rappers Redman e Lil’ Kim. E uma nova geração de artistas seguiu o exemplo dela na década de 2010.

Em “Miley: The Movement”, Britney aparece em estúdio com Miley gravando “SMS (Bangerz)”. “Lembro de quando o clipe de ‘[I’m a] Slave 4 U’ saiu. [Meu pai] balançou a cabeça e disse algo como: ‘Minha filha vai virar stripper, estou com medo’. Eu queria ser sexy como a Britney, e é isso que as garotas ainda querem fazer no pop”, disse Miley.

No mesmo ano, Selena Gomez, hoje com 34 anos, citou o som e o estilo de Britney como inspiração para “Stars Dance”, sua estreia solo, e para a turnê do disco. “Quero que [os fãs] dancem sem parar, porque foi isso que cresci vendo lá do alto da arquibancada, indo a todos os shows da Britney”, disse à MTV News. “Ainda quero aprender as coreografias dela, porque são épicas.” Em 2020, Azealia Banks chamou Britney de “o modelo” (the blueprint) no Instagram: “Você é o auge do que significa SER uma ESTRELA POP”.

Na época de “I’m a Slave 4 U”, Britney parecia ter controle total sobre som, imagem e carreira. Pouco depois, o cenário mudou. Em 2008, após uma série de crises públicas, ela foi colocada sob tutela legal. O pai, Jamie Spears, e um advogado passaram a controlar suas finanças e decisões da vida profissional e pessoal, como turnês e viagens. Fãs criaram nas redes sociais a campanha #FreeBritney, e o documentário “Framing Britney Spears” (2021) levou o caso ao centro do debate público. A tutela foi encerrada pela Justiça em novembro de 2021, depois de 13 anos. Em 2023, Britney contou sua versão da história na autobiografia “A Mulher em Mim”.

Vinte e cinco anos depois, “I’m a Slave 4 U” continua sendo um marco. Apesar do título, a música consolidou Britney como uma artista que parecia dominar sua arte e seu destino como estrela pop. Diante do que se sabe hoje sobre a pressão que ela sofreu e sobre o pouco controle que tinha da própria vida, a força que mostrava nos singles, clipes e apresentações daquela era ganha um significado ainda maior.

 

[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].