CD em alta? K-pop, preço e comportamento da gen z justificam a volta
Relatório Semestral da Luminate mostra que vendas do formato cresceram 16%

CDs. Foto mick-haupt-U6k17XLr99s-unsplash
Confesso que, quando tomei a decisão de manter minha coleção de quase 2.000 CDs, achei que eu poderia ser chamada oficialmente de acumuladora. Quando o formato caiu em desuso, nos idos de 2010, parecia que seria para sempre. A verdade é que tudo na música é cíclico e, por mais improvável que pareça, o CD está de volta.
Já vinha notando isso durante algumas visitas a lojas de discos fora do Brasil. Ano passado, em Austin, reparei que a seção de CDs na Waterloo, uma das maiores lojas da cidade, estava lotada. De gente bem jovem. Achei estranho. Mas agora essa percepção virou fato.
O Relatório Semestral 2026 da Luminate tangibilizou essa tendência. Trata-se da principal empresa de dados e análise do setor de entretenimento, funcionando como a fonte de informações que alimenta as paradas da Billboard, por exemplo. Pense nela como o “IBGE da música”, uma empresa independente que coleta, valida e analisa dados de consumo para toda a indústria.
Os dados que a Luminate divulgou no final de julho apontam que, pela primeira vez em mais de uma década, o crescimento das vendas de CDs superou o do vinil nos Estados Unidos, e a diferença não é pequena: enquanto os CDs cresceram 16%, atingindo 16,3 milhões de unidades no primeiro semestre, o vinil cresceu apenas 2,4%.
Se você, como eu, ainda está processando essa inversão de expectativas, prepare-se: há um fator decisivo que não pode ser ignorado nessa equação e ele é bem mais óbvio do que parece: o preço.
Não adianta romantizar. O CD está ganhando a batalha da mídia física porque é muito mais barato. Enquanto um LP novo costuma custar entre US$ 25 e US$ 40 no mercado americano, um CD novo sai por US$ 10 a US$ 14, quase um terço do valor de uma bolacha.
Essa diferença se torna ainda mais dramática quando olhamos para o mercado de segunda mão. É possível sair de uma loja de caridade com dezenas de CDs de qualidade por menos do que você pagaria por um único vinil novo.
PORTA DE ENTRADA
Sabe quando a gente começa com uma mania ou experimenta algo novo e, para começar, não quer investir muito? Quem começa a tomar vinho não compra de largada um Chateau Petrus — que, dependendo da safra, pode custar mais de R$ 200 mil —, começa com um rótulo baratinho, comprado no posto de gasolina, até. Com mídia física, a ideia é parecida.
Antes de comprar um vinil duplo ou um picture disc (aqueles que incorporam fotos e desenhos na prensagem), um CD baratinho vai trazer a dopamina da posse daquele conjunto de músicas, com capa, ficha técnica e, com sorte, até encarte com as letras. A diferença, é claro, estará no tamanho do objeto, no som (audiófilos dirão que o vinil é muito superior) e, claro, no preço.
Esse chamariz se torna ainda mais importante para uma faixa do público que ainda não tem dinheiro sobrando no bolso. Por isso, a geração Z está sendo apontada como a grande culpada pelo aumento da procura por CDs — e, consequentemente, por CD players, sejam usados ou os novos portáteis que brotaram nas Shopees da vida, tocadores de música muito mais baratos do que os toca-discos.
O BOTE DO K-POP

Claro que o preço não explica tudo. O relatório da Luminate deixa claro que o fenômeno do CD também está profundamente ligado ao colecionismo, especialmente o impulsionado pelo K-pop. Cerca de metade dos jovens millennials e da geração Z que compram CDs sequer possui um aparelho para reproduzi-los. Eles compram pelo objeto, pelo photocard, pela experiência tangível de possuir um pedaço da sua banda.
Mas há uma sinergia importante aqui: é justamente porque o CD é barato que ele se tornou um item colecionável acessível. Comprar cinco versões diferentes de um álbum de K-pop em CD custa menos do que adquirir uma única edição em vinil. Para uma geração que quer colecionar, apoiar seus artistas e expressar sua identidade através de objetos físicos, o CD oferece o melhor custo-benefício.
O caso do BTS é emblemático. O álbum “ARIRANG” vendeu aproximadamente 567 mil cópias nos Estados Unidos, impulsionado por cinco versões diferentes de CD, cada uma com seus próprios atrativos colecionáveis.
E o dado que realmente me chamou a atenção: mesmo excluindo todo o catálogo de K-pop, as vendas de CDs nos EUA ainda cresceram 6,7% no primeiro semestre. Ou seja, o fenômeno não é exclusivo do gênero sul-coreano. Há algo mais profundo acontecendo.
NOSTALGIA
Outro dado impressionante do relatório: 60% dos integrantes da geração Z afirmam ouvir predominantemente músicas lançadas na década de 1990 ou antes. Em 2021, esse índice era de apenas 18%. Essa busca pelo “retrô” não é apenas nostalgia, é uma forma de resistência ao efêmero. Em um mundo em que tudo é streaming, playlist e algoritmo, possuir um objeto físico se torna um ato de afirmação de identidade.
Como jornalista que viveu a transição do vinil para o CD, do CD para o MP3 e do MP3 para o streaming, vejo esse momento com um misto de surpresa e admiração. O CD renasce não como um formato de audição superior, mas como um objeto de afeto que cabe no bolso.
E talvez seja exatamente isso que o torna tão poderoso. Em um mundo em que o streaming tornou a música infinitamente disponível e, ao mesmo tempo, efêmera, o CD oferece algo que o vinil também proporciona: a posse física, mas sem a barreira financeira que o vinil impôs nos últimos anos.
Jaime Marconette, VP de Insights Musicais da Luminate, resumiu bem o momento: “A mecânica do consumo moderno de música está se deslocando para o crescimento impulsionado pela cultura e pelo engajamento comunitário”. E o CD, com seu preço acessível, está democratizando esse engajamento.
No Brasil, as três majors (Universal, Sony e Warner) ainda não voltaram a investir no formato. No país, que atualmente opera com três fábricas de vinil (Polysom e Rocinante, no Rio, e Vinil Brasil, em São Paulo), restam menos de dez empresas de replicação industrial ativas no país — elas não fabricam, apenas reproduzem CDs e DVDs.
Depois de anos defendendo o vinil, talvez seja hora de eu reconhecer: o CD voltou porque, além de tudo, caber no orçamento é chique pra caramba.
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