Antes de subir ao palco Sunset do Rock in Rio, neste sábado (12), para participar do show dos Gilsons ao lado do Olodum, Daniela Mercury falou à Billboard Brasil sobre legado, música brasileira e as influências que atravessam sua trajetória. Para a cantora, estar novamente no festival representa também o reconhecimento de um trabalho construído ao longo de décadas.
“Me sinto muito orgulhosa porque ser mulher no Brasil, trazer uma música do Nordeste e fazê-la respeitada no mundo inteiro” é parte importante de sua trajetória, afirmou. Daniela destacou ainda a relação entre sua produção e a cultura popular brasileira.
“É uma música periférica e uma música que tem tanta ligação com a cultura popular, com a nossa identidade. Achar a brasilidade e sintetizar a brasilidade fazendo música pop, fazendo uma música urbana, não é nada simples”, explicou.
A cantora também falou sobre o trabalho de pesquisa por trás de suas canções e sobre a sofisticação da música brasileira. “A música brasileira já é extremamente rica e sofisticada”, disse.
Segundo Daniela, sua trajetória como compositora passa pela busca constante por novas combinações de ritmos, instrumentações e harmonias. Ela cita como referências nomes como Gilberto Gil e Jorge Ben Jor, além dos sambistas brasileiros.
“Eu sou cria de Gil, cria de vários sambistas do Brasil e de Jorge Ben Jor, de gente muito suingada”, afirmou. Para ela, uma das características mais importantes da música brasileira está justamente na diversidade rítmica.
Daniela e os Gilsons
A relação com os Gilsons também ganhou destaque na conversa. Daniela contou que ficou especialmente feliz ao descobrir que o trio tem seus discos como referência e que os integrantes são fãs do disco “Feijão com Arroz” (1996), um dos trabalhos célebres de sua carreira.
“Quando eu vejo os Gilsons, eu vejo que eles trazem Gil, mas trazem um pouquinho de mim. Eu fiquei tão orgulhosa, tão feliz do carinho deles, de eles gostarem dos meus álbuns, de terem meus álbuns como referência”, contou.
A cantora também refletiu sobre a trajetória profissional e a dificuldade de construir uma carreira artística sem garantias. “Todo artista é autônomo essencialmente. Se não der certo, a gente não tem como resolver. Tem que dar certo, tem que conseguir se comunicar”, afirmou.
Para Daniela, o reconhecimento de artistas de diferentes gerações funciona como uma espécie de confirmação de que o caminho escolhido valeu a pena. “Eu consegui. Tô muito feliz. Espero inspirar muita gente a lutar pelo que acredita”, disse.
Um Rock in Rio mais brasileiro
Para Daniela, a diversidade da programação do Rock in Rio também demonstra uma transformação na maneira como a música brasileira ocupa o festival. Ela defende que gêneros diferentes possam conviver dentro de um mesmo evento sem a necessidade de serem enquadrados em uma única identidade.
“Eu tô ouvindo o Rock in Rio hoje, depois de 25 anos, mais brasileiro”, avaliou. “Pode ser um rock xote, pode ser um rock axé. Pode ser um monte de tipos de música.”
A cantora brincou ainda com a possibilidade de o festival incorporar diferentes gêneros em seu próprio nome: “Pode ser um forró rio, um axé rio. No festival podia até agregar outros nomes, funk rio”.
Para Daniela, a presença de diferentes estilos nos palcos é justamente uma forma de preservar a diversidade musical do país. “A diversidade de palco está trazendo a riqueza da música brasileira, que é única no mundo.”
“Não há um país que tenha tanta diversidade musical. Que a gente mantenha isso, que não se pasteurize”, afirmou.
Música brasileira diante da IA
Outro tema abordado pela cantora foi o avanço da inteligência artificial na música. Daniela vê a tecnologia como uma transformação inevitável, mas defende que artistas e profissionais do setor precisam participar da discussão sobre seus impactos.
“Independentemente da IA, a IA nunca vai ser gente”, afirmou. Ela também chamou atenção para questões relacionadas à apropriação de obras musicais por ferramentas de inteligência artificial.
“É um desafio pra gente se unir, para pensar esse novo momento da tecnologia, para usar ela pro bem da música, pro bem dos novos, para não diminuir o espaço de trabalho”, disse.
Daniela defendeu ainda uma distinção entre quem trabalha profissionalmente com música e quem produz de maneira ocasional. “Quem é profissional de música é diferente de quem é amador ou improvisa ou faz uma música de vez em quando. Quem vive de música precisa passar a vida se sustentando com ela”, concluiu.
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