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Quem é Lia de Itamaracá, ‘rainha da ciranda’ que abre o AFROPUNK Recife

Aos 82 anos, artista está na primeira edição do festival na capital pernambucana

Lia de Itamaracá, cantora pernambucana conhecida como rainha da ciranda (Divulgação)

Lia de Itamaracá, cantora pernambucana conhecida como rainha da ciranda (Divulgação)

A primeira edição do AFROPUNK Experience Recife começa com uma artista que sintetiza parte da história cultural de Pernambuco. Lia de Itamaracá, conhecida como a “rainha da ciranda”, foi escalada para se apresentar ao lado de Daúde no evento marcado para 12 de setembro, no campus da Universidade Federal de Pernambuco, a UFPE.

O encontro abre uma programação formada ainda por Ebony, Linn da Quebrada, Barbarize, Marley no Beat e DJ Boneka. Será a primeira passagem do AFROPUNK pelo Recife e uma nova etapa da expansão do projeto pelo país, depois da edição carioca e antes do festival principal, realizado nos dias 7 e 8 de novembro, em Salvador.

Mulher negra, nascida e criada na Ilha de Itamaracá, ela transformou uma manifestação popular de Pernambuco em uma obra capaz de circular pelo Brasil e pelo exterior. Ao colocá-la no início da programação, o AFROPUNK apresenta sua chegada ao estado a partir de uma referência do próprio território.

Quem é Lia de Itamaracá?

Lia de Itamaracá é o nome artístico de Maria Madalena Correia do Nascimento, nascida em 12 de janeiro de 1944, na Praia do Sossego, na Ilha de Itamaracá, no litoral norte pernambucano. Ela começou a cantar ciranda aos 12 anos e realizou suas primeiras apresentações ainda jovem, em festas, praias e estabelecimentos da região.

Durante boa parte da vida, a música dividiu espaço com outros trabalhos. Lia atuou como empregada doméstica, cozinheira e merendeira de uma escola pública. Em dois turnos, chegou a preparar diariamente a alimentação de cerca de 300 estudantes, atividade que exerceu por aproximadamente três décadas sem abandonar as apresentações e as rodas de ciranda.

Do primeiro disco ao reconhecimento nacional

O primeiro álbum de Lia de Itamaracá, “A Rainha da Ciranda”, foi lançado em 1977. Apesar da repercussão inicial e de uma reportagem exibida pelo “Fantástico”, a cantora passou mais de 20 anos sem gravar outro disco. Continuou compondo, cantando e participando de rodas, mesmo distante do mercado fonográfico.

Uma virada ocorreu em 1998, quando Lia participou do festival Abril Pro Rock, no Recife. A apresentação recolocou seu nome em circulação nacional e abriu caminho para “Eu Sou Lia”, lançado em 2000. O disco teve suas primeiras tiragens esgotadas e foi acompanhado por shows em diferentes estados e por turnês na Europa.

Nos anos seguintes, Lia lançou “Ciranda de Ritmos”, em 2008, e “Ciranda sem Fim”, em 2019. Produzido por DJ Dolores e Ana Garcia, o último aproximou a ciranda de elementos eletrônicos, do manguebeat, do bolero e de outras referências sem retirar a zabumba e o canto coletivo do centro do trabalho.

O álbum iniciou uma nova fase de apresentações nacionais e internacionais. Lia também passou a ocupar espaços como o cinema (com uma participação em “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles), exposições e festivais de grande porte. Em 2024, apresentou-se no Rock in Rio.

Os títulos recebidos por Lia de Itamaracá

Em 2004, Lia recebeu a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo governo federal. No ano seguinte, foi registrada como Patrimônio Vivo de Pernambuco, título destinado a mestres, grupos e representantes responsáveis pela preservação e pela transmissão de saberes tradicionais do estado.

Em 2019, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Pernambuco pelos serviços prestados à cultura pernambucana e brasileira. A homenagem ganha uma camada adicional diante do AFROPUNK: sete anos depois, Lia retorna à própria UFPE como atração da estreia do festival no Recife.

Sua trajetória também foi tema de livros, documentários, exposições e desfiles de Carnaval. Em 2022, o Itaú Cultural dedicou uma ocupação à artista, reunindo figurinos, fotografias, documentos, vídeos e registros de sua vida dentro e fora dos palcos.

Lia de Itamaracá e Daúde no AFROPUNK Recife

No AFROPUNK, Lia divide o palco com Daúde, cantora baiana que construiu sua carreira aproximando MPB, música eletrônica, samba, soul e ritmos de origem africana. A parceria entre as duas foi consolidada no álbum “Pelos Olhos do Mar”, lançado em novembro de 2025 pelo Selo Sesc.

Com dez faixas, o trabalho reúne músicas inéditas e releituras, além de composições assinadas ou preparadas para o projeto por artistas como Emicida, Chico César, Céu, Karina Buhr, Otto e Russo Passapusso. A produção é de Pupillo e Marcus Preto.