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Como Marina Sena transformou o que era ‘esquisito’ em identidade

Aos 30 anos, cantora fala de voz, corpo e ambição

A cantora Marina Sena em ensaio exclusivo para a Billboard Brasil (Gabriela Schmidt/BillboardBR)

A cantora Marina Sena em ensaio exclusivo para a Billboard Brasil (Gabriela Schmidt/BillboardBR)

Marina Sena deixou de tentar se encaixar nas expectativas alheias muito antes do estouro de “Por Supuesto”, dos grandes festivais e dos 400 milhões de streams só em “Coisas Naturais”, seu disco mais recente. A mudança começou quando ela saiu de Taiobeiras, pequena cidade de 33 mil habitantes no Norte de Minas Gerais, para Montes Claros, aos 18 anos, na intenção de formar uma banda.

Anos depois, já conhecida no país inteiro, ela resumiria aquele período em entrevistas: quando criança, tentava corresponder ao que esperavam dela e sustentar a personagem da menina “certinha”, que fazia ballet. Bastava relaxar, contou, para “virar outra coisa”.

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Em 2021, quando “De Primeira” começava a projetá-la nacionalmente, disse que durante muito tempo achou que era “esquisita”. Depois entendeu e gostou do que viu no espelho e, às vésperas de completar 30 anos, admitiu: “Sou só artista mesmo”. Até chegar a essa conclusão, sofreu com a insegurança em relação à aparência, às roupas, ao comportamento e até com a possibilidade de chamar atenção demais.

Já em Montes Claros, uma cidade de 414 mil habitantes, Marina Sena chamava atenção, sim, mas para o bem. A cantora passou a circular com o violão pela Praça da Matriz, aproximando-se de músicos e da cena local. Assim, conquistou seu espaço e formou A Outra Banda da Lua. Depois veio o Rosa Neon, grupo pop que ampliou sua projeção para além de seu estado natal. Quando iniciou a carreira solo, portanto, ela já trazia anos de palco e experiência na bagagem.

“Quando você vê o diferente, consegue finalmente enxergar quem você é de verdade”

Talvez nenhuma das características “diferentonas” de Marina seja tão evidente quanto a voz. Agudo e imediatamente reconhecível, o jeito de cantar de Marina se tornou uma assinatura e, com a fama, também um alvo dos haters. Depois da explosão de “Por Supuesto”, Marina falou sobre esses ataques. A resposta veio na continuidade do trabalho que vinha fazendo: ela se recusou a modificar o timbre para soar mais palatável. “Minha voz é a minha personalidade.”

A relação com o corpo passou por um processo semelhante. Marina Sena já contou que, na adolescência, evitava roupas que mostrassem a barriga. Anos depois, quando ‘sensualidade’ se tornou uma das palavras mais usadas para descrevê-la, recusou-se a tratá-la como truque. “Eu não consigo não ser sexy”, disse ela, durante o ensaio exclusivo que estampa esta edição especial da Billboard Brasil.

Sucesso de Marina Sena veio sem concessões

Essa franqueza também aparece na forma como ela lida com a ambição. Desde “De Primeira”, Marina nunca escondeu que queria crescer, ocupar grandes palcos e levar sua música para fora do Brasil. Jamais tratou o sucesso como algo que simplesmente aconteceu. 

A cantora também não tentou repetir a fórmula que deu certo apenas para hitar e agradar o mercado. “De Primeira”, “Vício Inerente” e “Coisas Naturais” partiram de lugares diferentes, sem apagar uma identidade inconfundível. Em 2024, enquanto preparava seu disco mais recente, ela disse que “o assunto que permeia todas as minhas músicas é a liberdade”. Falava de amor, mas também de criação: até uma habilidade pode virar prisão quando passa a ser vista como uma obrigação.   

Em “Coisas Naturais”, de 2025, essa liberdade passou a significar um olhar para o início. Marina Sena retomou parcerias com músicos d’A Outra Banda da Lua e reaproximou sua música de referências que já acompanhavam antes da fama. Descreveu o processo como uma tentativa de recuperar “a inocência do começo”. “Eles são os artistas com quem eu preciso conviver para conseguir ser a artista inteira que eu sou”, diz.

Essa volta para dentro também passa por entender melhor o lugar de onde veio. Ao falar sobre como as turnês fora do país mudaram sua percepção sobre si mesma, Marina Sena se volta justamente às suas raízes. “Se sou do Norte de Minas, isso também imprime uma textura específica. Você consegue decantar as coisas e enxergá-las com mais precisão.”

Vem dando certo e os números ajudam a dimensionar esse alcance. Com o sucesso de “Coisas Naturais”, Marina superou pela primeira vez os 9 milhões de ouvintes mensais no Spotify e soma quatro indicações ao Grammy Latino. 

É uma distância grande daquela garota cheia de inseguranças que saiu de Taiobeiras querendo desbravar o mundo. Mas talvez a melhor medida da mudança não esteja nos holofotes. Está no fato de que Marina Sena chegou até eles sem ver a diferença como algo a ser apagado ou corrigido.

As pressões continuaram, e continuam, sem cessar: sobre a voz, o corpo, a imagem, o comportamento, o sucesso. O que mudou foi o poder concedido a elas. Na obra da cantora, liberdade não é viver fora das caixas. É poder entrar e sair delas a qualquer hora, sempre sendo ela mesma.