Produtores revelam como ajudaram Noah Kahan em ‘The Great Divide’
Aaron Dessner e Gabe Simon contam por que a parceria foi 'brilhante'

Noah Kahan (ReproduÇão Facebook @noahkahanmusic)
A primeira vez que os produtores Aaron Dessner e Gabe Simon se encontraram foi por volta do Grammy de 2024. A segunda foi na primavera norte-americana do ano passado, no quintal da casa de Dessner, no interior do estado de Nova York, nos Estados Unidos.
Como Dessner define, esse segundo encontro, em seu estúdio Long Pond, foi a “primeira imersão” da dupla no trabalho conjunto no que viria a se tornar “The Great Divide”, o épico álbum de 2026 de Noah Kahan. Ali, com Kahan, eles compuseram três músicas do disco.
Os dois tinham históricos diferentes com Noah Kahan. Simon colaborou em “Stick Season”, enquanto Dessner teve com ele uma sessão de golfe, futebol e composição para se conhecerem no Long Pond. Ainda assim, a dupla se uniu para ajudar Kahan a dar coesão às 21 faixas do álbum (incluindo a edição deluxe). Os dois contaram por que foi “brilhante” da parte de Kahan juntá-los.

Aaron, o que fez você querer trabalhar de perto com o Noah Kahan?
Aaron Dessner: Eu era fã, como todo mundo, de “Stick Season”, e tinha visto ele tocar no Boston Calling [em 2023]. [Minha banda] o The National tocava depois do Noah Kahan, e era em Boston, um epicentro da base de fãs dele. Lembro que todos os caras do The National estavam assistindo, e o público cantava cada palavra, foi simplesmente incrível. E também bem típico do The National: a gente tinha que entrar depois daquilo e pensou: “Ih, ferrou”.
Gabe Simon: A maldição de toda grande banda indie.
Dessner: E aí, quando tive a chance de gravar a Gracie [Abrams] e tocar um pouco de guitarra e tal em “Everywhere, Everything” [na regravação de “Stick Season (Forever)”], claro que você entra em algo e sente coisas… Qualquer compositor, se você é fã e faz música todo dia como a gente, sempre sonha com como seria trocar ideias com aquilo.
Simon: Lembro que isso foi provavelmente em agosto, logo antes de o Noah Kahan ir trabalhar com o Aaron, e o Noah veio até mim tipo: “Cara, vou trabalhar com o Aaron Dessner”. Ele estava muito empolgado. A gente tinha feito “The Great Divide” logo no começo do processo, e depois ele entrou numa fase estranha de tentar descobrir que p*rra estava acontecendo. Ele vinha compondo com gente de fora, não estava dando certo, e foi a primeira vez que vi um sinal de empolgação dele em trazer outra pessoa para colaborar. Foi o estímulo perfeito de que a gente precisava para começar a virar o jogo.
Dessner: E, do outro lado, sempre ficou claro que o Gabe e o Noah Kahan vinham fazendo uma escavação pesada, basicamente, com “The Great Divide”, “Doors” e essas músicas enormes que deram muito trabalho para descobrir o que eram, e também avançando por lugares diferentes, e o Noah estava nervoso com isso. Porque vocês tinham feito um álbum realmente clássico antes deste, e isso não é fácil para ninguém.
Simon: É f*da demais. Até que, quando a gente se juntou no outono do ano passado, começamos a avançar aos pouquinhos rumo a essa coesão.
Dessner: Acho que foi uma decisão brilhante do Noah Kahan juntar a gente em diferentes momentos, principalmente no fim, porque precisávamos amarrar tudo de alguma forma. No fim do processo, levamos tudo para Nashville, onde o Gabe costuma trabalhar, no Gold Pacific [Studios].
Simon: O Aaron e eu tivemos uns dois dias só nós dois, olhando de verdade por baixo do capô e ficando completamente alinhados, algo que acho que se perde muito no processo de colaboração quando você faz discos com mais de um produtor.
Vocês dois e o Noah Kahan foram os únicos compositores e produtores das angustiadas “Downfall” e “A Few of Your Own” e da intimista “Lighthouse”. Gabe, você já disse que o Noah queria escrever “uma m*rda sombria e raivosa”, mas o que saiu foram essas… Existem versões anteriores mais raivosas?
Simon: É engraçado: “Orbiter” era uma música que ele começou a escrever quando a gente estava fazendo a deluxe “Forever”. A gente tinha uma demo de “All Them Horses”, e aí ele começou a tocar essa versão emo-grunge de “Orbiter”. A única coisa que ele tinha era um verso arrastado sobre girar em torno de alguém, e todo mundo ficou tipo: “É, bem legal, cara”.
Dessner: Em nove de cada dez vezes, uma música assim não se tornaria o que se tornou. Mas existe uma magia estranha na base de fãs dele e nele como compositor que faz as pessoas ouvirem. Não acho que ninguém, incluindo o Noah Kahan e com certeza a gravadora, poderia ter previsto isso.
Simon: A m*rda sombria, triste e raivosa vocês ainda não ouviram. Mas, ao mesmo tempo, tem “Downfall”, talvez uma das músicas mais f*didas que existem, ponto. Só que ela é feita de um jeito que tem leveza e soa quase mais como Fleetwood Mac, então você não sai achando que o Noah Kahan é um babaca por dizer o que diz. Ela tem alegria.
O Noah Kahan equilibra conceitos pesados nas letras com uma produção melódica, e os shows dele destacam muito isso.
Simon: Tem gente dançando músicas como “New Perspective” e “The Great Divide”, que têm letras muito duras e pesadas, mas fazendo isso com muita alegria. Cresci numa comunidade bem ligada à igreja e não estou mais nesse lugar, mas o que eu amava era essa sensação de as pessoas estarem conectadas, conseguirem cantar algo juntas e ter uma experiência espiritual. E tem algo no jeito como o Noah Kahan se abre e é vulnerável sobre si mesmo: ele faz piada de si, é hilário, mas também não existe uma noite em que ele não chore em “Willing and Able” ou não tenha um momento de silêncio absoluto numa faixa como “Orbiter”.
Por que vocês acham que “The Great Divide” ficou maior que “Stick Season”?
Simon: “Stick Season” levou três anos para ficar realmente grande, e acho que agora é tipo: “Ah, sempre foi grande”. Mas não foi. E as pessoas continuam gostando muito de “Stick Season”, e aí você dobra a aposta com um disco que dá a elas uns 20% a mais do que querem, mas uns 80% de narrativas novas, direções novas, intenções novas, histórias novas. Não é mais sobre um lugar, é sobre as pessoas com quem ele se conecta. Dá para se perder no universo disso. E acho que o mais legal foi ver essas pessoas enlouquecendo na internet, falando sobre como as músicas as conectavam de jeitos diferentes, e terapeutas destrinchando os significados. Não é mais sobre música, agora é sobre cultura e pessoas, sobre humanidade e sociedade como um todo. Acho que é por isso que ficou maior.
Imagino que ainda tenha música que ficou de fora. Se tiver, o que vocês esperam que aconteça com ela?
Dessner: É uma pergunta curiosa, porque não sei se [o Noah Kahan] escreve músicas ruins. Mas também acho que muitas dessas músicas são específicas e costuma haver uma conversa acontecendo entre elas.
Simon: A gente tinha um quadro branco com todas as amarrações narrativas. Tem gente que usa quadro branco para “coloca pandeirola aqui”. O nosso era tipo: “Isso fala do seu irmão, da sua irmã, das suas amizades, do seu casamento? Isso fala de você mesmo?”. Se uma música não se encaixava totalmente, mesmo que fosse um hino, ela ficava de fora. E acho que isso mostra o quanto o Noah Kahan estava disposto a focar só na narrativa, porque ele com certeza não está pensando: “Este é meu último disco”.
Ouça ‘The Great Divide’, de Noah Kahan
Esta matéria foi publicada na edição de 3 de outubro de 2026 da Billboard.
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui]
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