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O que Tinashe, Kehlani e Jhené Aiko ensinam sobre talento e paciência no R&B

Três artistas chegam ao maior momento da carreira uma década após a estreia

Tinashe R&B (Reprodução Facebook @OfficialTinashe)

Tinashe (Reprodução/Facebook @OfficialTinashe)

A cultura norte-americana sempre amou um azarão. Seja Rocky Balboa atravessando terra arrasada para derrotar o soviético Ivan Drago, seja o Cleveland Cavaliers de LeBron James virando a final da NBA de 2016 contra o até então imbatível Golden State Warriors depois de perder por 3 a 1, a reação inesperada sempre dá o que falar. Na música, não é diferente.

Neste ano, ícones do hip-hop como Juvenile e T.I. emplacaram grandes sucessos no Hot 100. No R&B, as apostas na geração revelada na década de 2010 também estão se mostrando acertadas. Mas chamar esses momentos de volta por cima é preguiça. É o que acontece quando a preparação encontra finalmente a oportunidade, com resultados que lembram por que jogar a longo prazo sempre vale a pena. Talento nunca faltou a essas artistas. Se algo aconteceu, foi que elas chegaram cedo demais. Agora os números, o reconhecimento e a longevidade estão alcançando o que muita gente já via anos atrás.

Tinashe, de 33 anos, é a mais recente a viver esse momento. Neste domingo (4), ela conquistou seu primeiro top 10 no Billboard 200 com “Popstar”, lançado em setembro. O álbum estreou em sexto lugar e se apoia em faixas certeiras como “Crash Out” e “Melatonin”.

Ao mesmo tempo, mostra o ouvido apurado e a versatilidade que permitiram à cantora transitar entre mundos ao longo da carreira. A sequência das faixas, a disposição para quebrar regras e as indiretas para o boy lixo de todo dia fazem de “Popstar” a joia da discografia de Tinashe.

Ela sempre impressionou pela versatilidade. Canta, dança e compõe, e provou isso com “2 On”, parceria com ScHoolboy Q lançada em 2014. A música entrou no top 25 do Hot 100 e abriu as portas do estrelato. Mas, refém da gravadora da época, a RCA, e muitas vezes amarrada pelas expectativas sobre o que deveria ser, Tinashe viu seu elogiado álbum de estreia, “Aquarius”, não decolar comercialmente como muitos imaginavam.

“Aquarius” estreou em 17º lugar no Billboard 200 e mostrou que o problema não era Tinashe. Enquanto fãs e crítica abraçavam a habilidade dela de entrar e sair do R&B com sensibilidade pop, muita gente se perguntava se a gravadora sabia o que fazer com tanto talento.

Tinashe acabou deixando a RCA e seguiu carreira independente. Nesse caminho, passou anos reconstruindo e ampliando sua base de fãs. “Nasty”, de 2024, marcou sua volta ao mainstream e chegou ao 61º lugar do Hot 100. Depois veio outro impulso: “No Broke Boys”, destaque do álbum “Quantum Baby” (2024), explodiu no ano seguinte graças a um remix do DJ Disco Lines. A faixa deu à Tinashe seu primeiro top 40 no Hot 100 desde “2 On”.

Agora, “Popstar” é o auge da cantora. Mais de uma década depois de “Aquarius” apresentá-la como uma das jovens mais promissoras e camaleônicas do R&B, ela tem o maior e mais elogiado álbum da carreira. O talento sempre esteve ali. Faltava a indústria alcançá-lo.

É uma história parecida com a que vimos no último ano com Kehlani, de 31 anos. A cantora e compositora de Oakland chegou ao R&B em 2015 como uma artista crua e corajosa, que expunha os sentimentos sem medo. Sua primeira mixtape, “You Should Be Here”, era de nicho, mas muito elogiada, e virou trilha de repetição tanto para puristas do R&B quanto para fãs de hip-hop.

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Kehlani
Kehlani (Reuters)

Ao longo da carreira, a confiança dos fãs, a força nas turnês e a longevidade de Kehlani nunca foram questionadas. Ela fez participações de peso em músicas de Eminem (“Nowhere Fast”) e Cardi B (“Ring” e “Safe”) e lançou projetos marcantes, como “It Was Good Until It Wasn’t” (2020), talvez seu melhor trabalho. Assim como no caso de Tinashe, a dúvida nunca foi o talento, mas se ela conseguiria emplacar um hit inegável próprio. Em 2025, “Folded” respondeu à pergunta.

O que tornou o sucesso de Kehlani especial é que se trata de um hit de R&B puro. Nada de batida acelerada para agradar às rádios. Nada de ligar para Kendrick Lamar ou Drake. O DNA de “You Should Be Here” nunca saiu dela. A influência das cantoras da década de 1990, que colocavam amor e dor em cada nota, conquistou ouvintes dentro e fora do gênero.

“Folded” virou um sucesso duradouro. Chegou ao sexto lugar do Hot 100 e rendeu a Kehlani dois Grammys, nas categorias Melhor Performance de R&B e Melhor Canção de R&B. Tudo se alinhou na hora certa, e o melhor: ela nunca precisou abrir mão da identidade artística que a trouxe até aqui.

Depois vem Jhené Aiko, de 38 anos, nome constante do R&B da Costa Oeste, que reúne a leveza de Sade e a atitude gangsta de Tupac (1971-1996). Antes de brilhar sozinha, ela fez participações em músicas do B2K na década de 2000. Em 2011, a mixtape “Sailing Soul(s)” serviu de plataforma de lançamento. A voz suave e a forma direta de falar de amor viraram sua marca, enquanto ela se adaptava a parcerias com astros do rap como Drake, Kendrick e Kanye West.

Assim como Kehlani e Tinashe, Jhené sempre valeu mais pela honestidade do que pelo apelo comercial. A ascensão lenta e constante dela é talvez a mais reveladora das três. Durante anos, seu maior sucesso solo foi “The Worst” (2013), que chegou ao 43º lugar do Hot 100. Entre o amor e o ódio, Jhené não fugia da dor: abraçava o sentimento com precisão cirúrgica. Suas participações também viravam acontecimento, como em “Post to Be” (2015), sucesso de Omarion, em que ela encheu o verso de humor e soltou um dos duplos sentidos mais comentados daquele ano.

Jhené Aiko (Grosby Group)
Jhené Aiko (Grosby Group)

Quando o terceiro álbum dela, “Chilombo”, saiu no início da pandemia de Covid, em 2020, veio o maior sucesso comercial até então. O disco estreou em segundo lugar no Billboard 200, com 152 mil unidades equivalentes, e recebeu três indicações ao Grammy, entre elas Álbum do Ano. Mas o que mostra a força de Jhené é o que veio depois.

Quatro anos depois de “Chilombo”, ela saiu com a turnê “The Magic Hour Tour”, em 2024, e provou que a ausência não tinha enfraquecido a ligação com os fãs. Em setembro, depois de seis anos sem lançar álbum, Jhené conquistou o primeiro número 1 da carreira com “Westside Whimsy” e se tornou a primeira cantora de R&B a liderar o Billboard 200 em 2026.

No caso de Jhené, a lealdade dos fãs é o motor. Mesmo quando ela some por anos, a música nunca sai da conversa. As canções dela se apoiam na conexão humana de um jeito que faz a ausência parecer temporária, não definitiva. Por isso uma turnê quatro anos depois de “Chilombo” ainda chamou atenção, e um álbum novo, seis anos depois, virou o maior da carreira. Ela nunca desapareceu de verdade. O público dela só continuou crescendo enquanto ela estava fora.

Numa época em que se tenta desesperadamente descobrir estrelas e se espera que elas estourem muito rapidamente, e se elas sempre estiveram bem na nossa frente? E se quem precisa ter paciência somos nós, deixando o tempo agir e essas artistas trabalharem?

Como essas três provam, elas nunca floresceram tarde. Também nunca foram azarões. Eram artistas a quem nem sempre foram dados confiança, paciência e tempo para que a indústria reconhecesse o que elas já eram. Tinashe, Kehlani e Jhené Aiko não ficaram grandes de repente, uma década depois de começar. A grandeza já estava lá. O que mudou foi a oportunidade, o público e, talvez o mais importante, o tempo para provar isso.

Ouça Jhené Aiko, estrela do R&B

[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].