Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Como ‘Choosin’ Texas’, de Ella Langley, passou 24 semanas no topo do Hot 100

Hit que bateu recorde de permanência em 1º deixou parte do público pop perplexo

Ella Langley, recordista do Hot 100

Ella Langley (Grosby Group)

Se você está entre as muitas pessoas que vêm expressando surpresa nas últimas uma ou duas semanas com o fato de Ella Langley e “Choosin’ Texas” terem se tornado o número 1 de maior duração da história do Billboard Hot 100, isso é basicamente compreensível.

Afinal, se você tentasse projetar sob medida uma música para se tornar o número 1 mais indomável da história do Hot 100, considerando apenas a história da música popular americana e das paradas da Billboard, ela provavelmente não teria a aparência ou a sonoridade de “Choosin’ Texas”, de Ella Langley. Seria uma música de proporções maiores, de uma estrela maior — ou duas —, teria todo tipo de gancho narrativo incorporado à letra, à sonoridade e à história por trás dela e viria acompanhada de um plano promocional inteiro pensado não apenas para torná-la onipresente no início, mas para mantê-la continuamente impossível de ignorar. Pareceria histórica muito antes de realmente se tornar histórica.

Não é o caso de “Choosin’ Texas”. Claro que a música também não está tão distante assim dessa descrição: soa claramente como um hit, é interpretada por uma estrela em rápida ascensão, oferece uma série de elementos fascinantes para discutir sobre a música pop de meados dos anos 2020 e teve alguns momentos de grande exposição cultural.

Mas ela parecia histórica desde o primeiro instante, como “One Sweet Day”, parceria de duas superestrelas, Mariah Carey e Boyz II Men, que ficou 16 semanas em 1º lugar? Ou mesmo pouco depois do lançamento, como “Despacito”, de Luis Fonsi, Daddy Yankee e Justin Bieber, que também ficou 16 semanas no topo e ajudou a ampliar fronteiras, ou como “Old Town Road”, de Lil Nas X e Billy Ray Cyrus, que mudou a cultura e passou 19 semanas em 1º lugar? Não exatamente.

Na verdade, em diversos momentos de sua trajetória até chegar às 24 semanas em 1º lugar — considerando a parada desta semana, datada de 3 de outubro —, “Texas” pareceu prestes a perder força. Quando caiu de sua então melhor posição, o 11º lugar, para o 27º em dezembro passado, soterrada pela avalanche anual de músicas natalinas, parecia que poderia ter perdido até mesmo a chance de entrar no top 10.

Quando se recuperou depois das festas e chegou ao primeiro lugar em 14 de fevereiro, parecia travar uma disputa equilibrada com “Man I Need”, de Olivia Dean, que também vinha subindo havia muito tempo — e, caso tivesse perdido naquela semana, poderia ter sido bloqueada por uma apresentação iminente de Bad Bunny no Super Bowl e por um novo clipe e single físico de Taylor Swift, que de fato levaram os dois artistas ao topo nas semanas seguintes.

Depois, já tendo acumulado dez semanas em 1º lugar, “Texas” ficou fora da liderança do fim de maio até o fim de junho — substituída por novos singles de três das maiores estrelas pop do mundo: Drake, Ariana Grande e, novamente, Swift.

A cada vez, parecia ser o fim da história de “Choosin’ Texas” no Hot 100 — e um fim lógico, nem um pouco inadequado para uma música que poderia ter desaparecido em qualquer um desses momentos e ainda assim seria vista tanto como um grande hit de consagração para Langley quanto como uma das maiores músicas country do último ano. E, a cada vez, ela voltou ainda mais forte — sem muitos impulsos óbvios de Langley, de sua equipe ou da cultura em geral — até chegar ao ponto em que agora ocupa um lugar isolado não apenas dentro do catálogo da cantora e entre os crossovers country, mas em todos os 68 anos de história do Hot 100.

Então, como isso aconteceu? E por que provocou não apenas tanta surpresa, mas também tanta fúria entre as pessoas que só nas últimas semanas descobriram “Choosin’ Texas” e seu domínio nas paradas?

Como as paradas evoluíram na última década — especialmente no topo

A coisa mais importante a entender sobre “Texas” e suas 24 semanas em 1º lugar é que, se ela tivesse sido lançada duas décadas antes — ou, na verdade, até mesmo uma década antes —, não apenas não teria chance de passar tanto tempo no topo, como provavelmente nem sequer chegaria perto do primeiro lugar.

Isso não tem a ver com a possibilidade de a música se encaixar pior no cenário country de 2005 ou 2015 — na verdade, a atemporalidade casual da faixa é uma de suas qualidades mais cativantes e imediatamente perceptíveis. Tem a ver simplesmente com o quanto o Hot 100, e o lugar do country dentro dele, mudou ao longo dessas décadas.

Para começar, entre o momento em que “Amazed”, do Lonestar, chegou ao primeiro lugar do Hot 100, em 2000, e quando Morgan Wallen conquistou seu primeiro número 1 com “Last Night”, em 2023, apenas duas músicas country — definidas como faixas elegíveis à parada Hot Country Songs, da Billboard — lideraram o ranking. Ambas eram de Swift, e ambas já tinham ao menos um pé claramente fincado no mundo pop. Durante a esmagadora maioria do século 21, o primeiro lugar do Hot 100 esteve comprovadamente fora do alcance de artistas country.

Mas, com o gênero encontrando seu espaço na era do streaming dos anos 2020, produzindo estrelas enormes como Wallen e Zach Bryan e entrando gradualmente até mesmo nas rádios top 40 — especialmente à medida que o hip-hop, de longe o gênero dominante da primeira década do streaming, viu sua supremacia se desgastar —, o teto do country nas paradas subiu drasticamente. Agora, impressionantes 11 das 32 músicas na história da Billboard que chegaram ao topo tanto do Hot 100 quanto do Hot Country Songs fizeram isso desde 2023. E, no início deste ano, todo o top 5 da parada foi ocupado por músicas country pela primeira vez na história.

Mas o fato de a porta do topo do Hot 100 ter se aberto de repente para o country é apenas uma das duas maiores transformações das paradas que devem ser consideradas ao discutir a trajetória de “Choosin’ Texas” — e, possivelmente, a menor delas.

A outra é que a rotatividade da parada desacelerou enormemente, especialmente em sua faixa superior. Com as maiores rádios tanto reduzindo suas playlists quanto mantendo-as cada vez mais estáticas — e com a maior parte da audição passiva no streaming migrando de playlists editoriais selecionadas para recomendações algorítmicas personalizadas e reprodução automática —, as músicas permanecem como hits por mais tempo do que nunca, enquanto artistas, gravadoras e formadores de gosto em geral têm menos poder do que antes para redirecionar os hábitos de audição do público de um single para outro.

Ella Langley e Jack White (Reprodução)
Ella Langley e Jack White (Reprodução)

É revelador que, mesmo durante a permanência de “Choosin’ Texas” no topo, Langley também tenha conseguido outros dois grandes hits na parada: “Be Her”, que chegou ao 2º lugar, e o dueto com Wallen “I Can’t Love You Anymore”, que alcançou o 4º. Ambos subiram e caíram no ranking sem interromper em nada a trajetória de “Choosin’ Texas”.

Como resultado, na semana em que “Texas” estabeleceu o recorde do Hot 100 com sua 23ª semana na liderança, ela era uma de oito músicas no top 10 que já haviam passado pelo menos dez semanas na região — com apenas “Been By Now”, de Morgan Wallen, então com oito semanas na parada, todas no top 10, e “BbY WOW”, de Karol G, Judeline e rusowsky, com seis semanas na parada e duas no top 10, representando qualquer grau de renovação.

Com a música pop culturalmente fragmentada, novos hits tendo de competir cada vez mais não apenas uns com os outros, mas também com sucessos de catálogo do passado recente — e nem tão recente assim —, e até mesmo uma ferramenta viral que já foi dinâmica como o TikTok encontrando uma audiência mais fragmentada do que nunca, os grandes estouros têm sido poucos no último ano. Consequentemente, a faixa superior do Hot 100 é cada vez mais ocupada por estreias de grandes artistas já estabelecidos e pelos mesmos hits que já dominam há meses.

Essa tendência de longo prazo de desaceleração da parada e de hits com maior duração pode ser percebida pelo número de músicas que, nos últimos dez anos, reivindicaram o mesmo recorde que “Choosin’ Texas” acaba de quebrar.

Por mais de 21 anos, a partir do início de 1996, o recorde de maior número de semanas em 1º lugar pertenceu a uma música e apenas uma: “One Sweet Day”, que reinou durante 16 semanas, uma marca do Hot 100 da qual nenhuma outra faixa chegou sequer a uma semana de distância. Então, em setembro de 2017, “Despacito” empatou a marca com 16 semanas.

Dois anos depois, ambas foram ultrapassadas quando “Old Town Road” passou 19 semanas em 1º lugar, em 2019. Cinco anos depois, Shaboozey igualou esse número ao permanecer 19 semanas no topo com seu sucesso de 2024, “A Bar Song (Tipsy)”. E, entre dezembro passado e janeiro deste ano, Carey ultrapassou todos eles com outras quatro semanas no topo para seu agora anual número 1 natalino “All I Want for Christmas Is You”, chegando a um total de 22 semanas.

Com a inclusão da sequência de Langley, uma marca que permaneceu intocada nos livros de recordes durante 21 anos agora foi igualada ou superada cinco vezes na última década.

Por que tantos ouvintes escolheram ‘Texas’

Tudo isso ajuda a explicar por que o Hot 100 estava preparado para uma música como “Choosin’ Texas”, de Ella Langley, dominá-lo como nenhuma outra na história da parada. Mas por que foi especificamente “Choosin’ Texas” a música que aproveitou essa oportunidade? Essa tem sido a pergunta que inúmeros observadores ocasionais das paradas vêm fazendo na última semana — às vezes em voz alta e com raiva —, e a resposta é um pouco mais complicada.

“Texas” definitivamente tem muitas das qualidades de um grande e duradouro hit country. Tem um título memorável, um refrão inesquecível, uma premissa inteligente — e testada pelo tempo —, uma melodia extremamente fácil de assimilar, uma produção que remete a eras passadas sem soar explicitamente retrô e letras que expressam sentimentos familiares de uma maneira nova e esperta, apresentadas de forma convincente e identificável pela própria Langley.

Chegando um ano depois de “You Look Like You Love Me”, que atingiu o 30º lugar e estabeleceu Ella Langley pela primeira vez como uma artista capaz de emplacar um hit no Hot 100 — com Langley conseguindo vários outros sucessos de proporções semelhantes nos meses seguintes, inclusive como convidada em músicas do rapper BigXthaPlug e de Riley Green, parceiro dela em “Love Me” —, o sucesso inicial da sublime “Texas” nas paradas não foi nem um pouco surpreendente.

Então ela continuou crescendo.

À medida que a música sobreviveu ao congestionamento natalino e entrou no top 10 do Hot 100 em janeiro — diferenciando-se dos hits anteriores de Langley até então —, ficou claro que havia algo a mais acontecendo. Parte disso era o apelo pop da música, com um som doce e um balanço leve que remetiam ao início dos anos 1980, quando, graças a artistas de crossover como Kenny Rogers, Eddie Rabbitt e Dolly Parton — além da trilha sonora do fenômeno “Urban Cowboy” —, a distância entre pop e country era menor do que nunca.

Parte disso também vinha do clima levemente melancólico da faixa e de sua energia de andamento médio, que fazem dela um encaixe natural para a era do streaming em geral, permitindo que apareça naturalmente em playlists entre, digamos, o devaneio alt-pop de “No One Noticed”, do The Marías, e a balada de término em R&B “Folded”, de Kehlani, sem chamar muita atenção por seus elementos country.

Mas parte do impulso também veio da narrativa.

À medida que “Choosin’ Texas” chamava a atenção de mais e mais fãs, também cresciam rumores virais de que a música teria sido inspirada em um triângulo amoroso real entre Langley, Green e outra artista country que chegou ao topo das paradas, Megan Moroney. Detetives da internet procuraram pistas que ligassem os três e a música e compartilharam suas descobertas em vídeos no TikTok e em outras plataformas sociais, acelerando a repercussão e o movimento que “Texas” já vinha construindo.

Nenhum dos artistas envolvidos jamais confirmou qualquer tipo de relacionamento romântico, muito menos um término, muito menos que esse término tivesse inspirado a música em questão — e, vale dizer, nenhum dos três sequer é do Texas —, mas nenhum deles também negou, permitindo que os fãs continuassem falando sobre o assunto e provavelmente aumentando a exposição e a popularidade dos três artistas no processo.

Tudo isso — junto a alguns pedidos de última hora da própria Langley para que os fãs ajudassem a “fazer história na música country” — levou “Texas” a chegar pela primeira vez ao número 1 do Hot 100 em fevereiro.

Dada a estabilidade da música em diferentes formatos, com uma base sólida tanto nas rádios country — onde acabou passando quatro semanas no topo do Country Airplay, da Billboard — quanto em plataformas como Spotify e Apple Music — onde apareceu regularmente no topo dos rankings diários de streaming nos Estados Unidos —, parecia provável que ela permanecesse perto da liderança por bastante tempo.

Mas, mesmo enquanto a música acumulava semanas no topo, seu reinado era interrompido regularmente — primeiro por Bad Bunny, com “DtMF”, e Taylor Swift, com “Opalite”; depois por Bruno Mars, com “I Just Might”, BTS, com “Swim”, e Olivia Rodrigo, com “Drop Dead”; e, depois, pela já mencionada sequência combinada de cinco semanas de Drake, com “STFU Janice”, por duas semanas, Ariana Grande, com “Hate That I Made You Love Me”, e Swift, com “I Knew It, I Knew You”, por duas semanas.

Após essa ausência de cinco semanas, no entanto, “Choosin’ Texas” retomou o controle do primeiro lugar e não o largou nas 14 semanas seguintes — transformando uma passagem de dez semanas, impressionante mas com muitos precedentes, em uma maratona inédita de 24 semanas, com quase oito meses separando sua primeira e sua mais recente semana no topo.

E a pergunta sobre como a música deu esse salto final de mega-hit para fenômeno histórico talvez seja a mais difícil de responder de todas.

Para começar, ela não fez isso da mesma maneira que “Old Town Road”. Aquela música não apenas ultrapassou rapidamente suas antecessoras no Hot 100: ela foi ativamente impulsionada durante todo o percurso por um Lil Nas X muito, muito ativo — que encontrava constantemente novas maneiras de recolocar a faixa no centro da atenção das pessoas, por meio de remixes, apresentações ao vivo, conteúdos visuais, lançamentos adicionais, momentos nas redes sociais e praticamente qualquer outra coisa que conseguisse imaginar.

Em comparação, Langley adotou uma postura relativamente discreta em relação à sua música, divulgando-a ocasionalmente no TikTok ou com apresentações ao vivo importantes, mas raramente de maneira tão explicitamente ou ironicamente insistente — e nem de longe com a mesma frequência. O clipe oficial de “Texas” estreou em abril, quando o total de semanas da música em 1º lugar ainda estava na casa de um dígito; nos meses seguintes, seria difícil apontar algum novo acontecimento importante na cronologia promocional da faixa. Nenhum novo vídeo, nenhum remix, nenhuma campanha em redes sociais — mesmo quando venceu grandes prêmios no ACM Awards, em maio, Langley preferiu apresentar “Be Her” em vez de sua antecessora.

Em vez disso, a música simplesmente meio que ficou por ali.

Seus números de streaming permaneceram surpreendentemente consistentes durante toda a passagem pelo primeiro lugar. Segundo a Luminate, com exceção de uma semana de monitoramento — de 10 a 16 de abril — em que acumulou 32,3 milhões de streams oficiais sob demanda nos Estados Unidos, “Choosin’ Texas” terminou todas as semanas entre a primeira semana de fevereiro e a última semana completa de setembro com algo entre 20 milhões e 30 milhões de reproduções, um período de 34 semanas no total.

Compare isso com “A Bar Song”, de Shaboozey, em 2024, e seu pico de streaming é menor: começando já em sua terceira semana de lançamento, “Bar” passou 12 semanas consecutivas acima da marca de 32,3 milhões de streams, de maio a julho, chegando à casa dos 40 milhões em seu auge — mas sua resistência é menor, já que “Bar” caiu para menos de 20 milhões de streams em sua 29ª semana e ainda não voltou a superar essa marca.

Ainda mais impressionante: seus números no rádio continuam crescendo. Embora “Texas” tenha registrado forte execução radiofônica durante todo o ano, esses números começaram 2026 na casa dos 40 milhões em audiência total e cresceram para a faixa dos 70 milhões neste mês de setembro, chegando a uma nova máxima de quase 72,6 milhões em sua semana de monitoramento mais recente, encerrada em 24 de setembro. A música também chegou a uma nova máxima de 2º lugar no Radio Songs, da Billboard, na semana passada, saltando da 6ª colocação.

Essa é outra forma pela qual a natureza mais lenta do rádio beneficiou Langley durante essa trajetória: embora a música tenha liderado o Country Airplay pela primeira vez em fevereiro, ela só entrou no top 10 do Pop Airplay em meados de agosto e chega a uma nova máxima de 6º lugar na parada desta semana, datada de 3 de outubro — dando à faixa crescimento novo e contínuo quase um ano inteiro depois do início de sua campanha nas paradas.

E, embora rádio e streaming normalmente acabem sendo os componentes maiores e mais importantes da fórmula de três partes do Hot 100 em 2026, o terceiro componente — vendas digitais de músicas — também não deve ser descartado.

“Choosin’ Texas” permaneceu uma venda constante nas plataformas digitais, liderando o Digital Song Sales por um recorde de 19 semanas ao longo de sua trajetória, de janeiro até a semana passada. Os números são relativamente modestos — em nenhuma das 19 semanas em que liderou a parada a música vendeu sequer 10 mil cópias, o que significa que todas essas 19 semanas combinadas ainda somam menos cópias do que, por exemplo, “Call Me Maybe”, de Carly Rae Jepsen, vendeu em sua oitava semana no topo da parada em 2012, em uma época muito diferente para as vendas de música digital.

Mas essa vantagem sobre concorrentes que vendem menos continua lhe dando um impulso adicional em um mercado relativamente fraco para novas músicas pop.

Na verdade, esse mercado fraco pode ser a maior explicação para a longa sequência recente da música no topo. Quando se observa a lista de faixas que interromperam a passagem de Langley pelo primeiro lugar, todas as oito pertencem a superestrelas de primeira linha que estavam lançando singles novos ou impulsionando singles relativamente novos com grandes acontecimentos inéditos — como o lançamento completo do álbum “The Romantic”, de Bruno Mars, ou a apresentação de Bad Bunny no Super Bowl.

Há apenas um número limitado desses eventos em um ano comum e, inevitavelmente, uma música que permanece competitiva nas paradas por mais da metade de um desses anos encontrará um período de alguns meses em que lançamentos assim estarão quase totalmente ausentes.

Foi basicamente isso que aconteceu nos últimos três meses de “Choosin’ Texas”. Com apenas algumas exceções — como “Been By Now”, de Wallen, que estreou atrás dela no 2º lugar —, houve uma escassez de lançamentos ou acontecimentos desse porte vindos de artistas que regularmente chegam ao topo. Somado à já mencionada falta de fenômenos virais em rápido crescimento, isso significa que o número de novos concorrentes ao primeiro lugar tem sido mínimo desde julho.

E, em um momento em que há menos hits enormes e duradouros do que nunca no rádio ou no streaming — e ainda menos que sejam enormes nos dois ao mesmo tempo, além de continuarem vendendo de maneira consistente —, é menos surpreendente que “Texas” tenha conseguido basicamente correr sem oposição no Hot 100 por tantas semanas.

Na verdade, o fato de “Texas” nunca ter tido um pico comercial e cultural gigantesco e impossível de ignorar pode ter funcionado a seu favor no longo prazo. Enquanto músicas como “Despacito” ou “Old Town Road” se tornaram fenômenos tão grandes — não apenas como músicas, mas como acontecimentos noticiosos, pelo que representavam para a cultura mais ampla e para a cronologia geral da música popular americana e global — que inevitavelmente se tornaram avassaladoras, “Texas” ainda não chegou ao mesmo nível de saturação.

Enquanto outras músicas com estreias mais cercadas de expectativa chegavam e iam embora ao seu redor, “Texas” continuava meio que ali, casualmente dançando um two-step pela sala, encantando novos ouvintes a cada semana sem incomodar particularmente ninguém.

Bom, pelo menos até agora.

Agora “Choosin’ Texas” também virou uma notícia, e nada desse possível contexto ou explicação para sua supremacia nas paradas poupou a música ou sua criadora de um tsunami de discussões nas últimas uma ou duas semanas, especialmente entre as muitas pessoas que estão conhecendo a faixa pela primeira vez justamente quando ela faz história.

A dissonância — e a reação negativa — diante do sucesso de Langley no Hot 100

Não é chocante que existam pessoas que nunca tenham ouvido essa música. A maioria dos hits pop, até mesmo os realmente grandes, geralmente pode ser ignorada se você ignora os lugares onde eles costumam tocar e ser discutidos — uma escolha disponível para incontáveis fãs de música de todas as idades em 2026 e feita por eles, conscientemente ou não —, e nenhum agente do governo vai bater à sua porta para garantir que você ouviu os mais recentes sucessos de Bruno Mars e Olivia Dean.

Mas o que surpreendeu foi o tom da reação vinda desse canto do público com uma curiosidade apenas superficial pelo pop, que até então havia ignorado tanto “Texas” quanto sua história: não apenas incrédulo, mas às vezes francamente hostil — em relação a “Texas”, a Langley e, em alguns casos, às próprias paradas da Billboard.

Há muita coisa envolvida nisso, e boa parte nem tem tanto a ver especificamente com Langley ou “Texas”. Existe uma cultura fragmentada em que todos os cantos do mundo do entretenimento lutam para produzir novas versões daqueles sucessos onipresentes, capazes de atingir todos os quadrantes do público, que consumidores lembram como acontecimentos comuns em décadas anteriores.

Existe uma desconfiança na validade dos grandes conjuntos de dados, com tudo parecendo mais vulnerável do que nunca à influência externa de forças invisíveis com agendas específicas. E existe, é claro, a famosa divisão entre “duas Américas”, na qual consumidores de determinado tipo de região geográfica e/ou inclinação política têm uma visão diametralmente oposta da cultura popular do país em relação a consumidores do outro grupo, com ambos enxergando, na prática, apenas metade do quadro completo.

Para Langley e “Texas”, tudo isso aumenta a dissonância que já existe quando alguém é informado de que uma música que nunca esteve em seu radar já é — ao menos segundo uma métrica específica — o maior hit pop de todos os tempos. É uma desconexão compreensível, mas que foi retirada do contexto mais amplo das mudanças tanto na música popular quanto nas paradas da Billboard e distorcida por uma série de suposições e preconceitos pouco justos que muitos consumidores levam para as conversas sobre o hit recordista e sobre a artista por trás dele.

As maiores dessas questões tendem a envolver a música country. Apesar de seu perfil comercial maior e de seu crossover com o mundo pop nos anos 2020, e apesar de inúmeros exemplos em contrário nesta e em todas as outras décadas musicais, o country ainda é amplamente descartado por muitos fãs de pop, especialmente dentro de uma dessas “duas Américas”.

Alguns desses fãs simplesmente acreditam que o gênero é, em sua maior parte, musicalmente pouco atraente ou sem valor, mas outros também presumem que ele é feito especificamente por e para o público MAGA. Para esses ouvintes, a visão padrão do country continua sendo a de um gênero artisticamente conservador e socialmente regressivo, implicitamente — ou explicitamente — preocupado em manter uma ortodoxia branca, cristã e heterossexual dentro da música popular.

E, para piorar, esses consumidores receberam recentemente alguns exemplos em que isso de fato parecia ser verdade, inclusive no topo do Hot 100: em 2023, músicas de Jason Aldean, “Try That in a Small Town”, e Oliver Anthony Music, “Rich Men North of Richmond”, foram ativamente promovidas por comentaristas e influenciadores de direita por sua suposta proximidade com ideologias conservadoras, e ambas chegaram ao 1º lugar principalmente como resultado disso.

Algumas das pessoas que agora fazem os comentários mais ruidosos sobre o recorde de “Texas” também colocariam o próprio sucesso de Langley nessa categoria. Sua presença em espaços pop veio acompanhada de certa tensão inerente, já que fãs de pop geralmente inclinados à esquerda há algum tempo observam com desconfiança suas possíveis afiliações políticas.

Isso se deve em grande parte a suas associações profissionais com Kid Rock, que promove abertamente o MAGA e cujo festival Rock the Country ela integrou em maio, e com Morgan Wallen, parceiro de duetos e turnês que permanece publicamente neutro em termos políticos, mas cujas repetidas controvérsias públicas — incluindo o uso da palavra racista com “N” em um vídeo gravado em 2020, pelo qual ele se desculpou e expressou arrependimento — fizeram dele uma espécie de estrela para o público “anti-woke”.

Por sua parte, Langley se manteve fora da disputa quando o assunto é política ou qualquer outra questão social altamente polarizada, mas a associação permaneceu para muitos, que no mínimo presumem que seu sucesso seja em grande parte resultado de uma espécie de maioria silenciosa conservadora em ação.

“The Rural Vibe Shift Is Real”, dizia a manchete de um artigo do New York Times publicado no início de setembro e centrado predominantemente no sucesso dela, que termina declarando: “Na disputa cultural entre a América azul e a vermelha, muita gente está escolhendo o Texas.”

Parte disso pode ter algum grau de base na realidade, mas, no conjunto, também é sem dúvida reducionista e injusto. Como música, “Texas” é totalmente livre de qualquer mensagem cifrada desse tipo, real ou apenas percebida, já que o “ele está escolhendo o Texas, eu consigo perceber” da letra se refere à escolha do personagem em meio a um envolvimento romântico, e não a qualquer tipo de ideologia de estilo de vida — e o Texas é escolhido em vez do Tennessee, outro estado republicano.

E, embora a música possa ser enorme em mercados de tendência republicana, esses não são os únicos lugares onde ela faz sucesso: uma olhada nos rankings específicos por cidade do Spotify mostra que a faixa também chegou ao primeiro lugar em redutos liberais como Los Angeles, Filadélfia e Seattle. Até alguns dos artistas de maior destaque a fazer suas próprias versões da música estão bem distantes do universo mais conservador do mainstream country, incluindo os nomes do indie rock Waxahatchee e MJ Lenderman e os rappers Drake e Don Toliver.

Além disso, a ideia de que a tomada de poder de “Choosin’ Texas” represente a mais recente tentativa do country de manter o status quo musical e social ignora completamente o quanto hits country modernos desse tamanho gravados por mulheres são raros.

À medida que a era do streaming transformou o gênero em um negócio maior do que nunca nas paradas, quase todos os maiores beneficiados foram homens — de cantores influenciados pelo trap como Wallen a cantores e compositores com ecos de Bruce Springsteen como Zach Bryan e veteranos do country tradicional como Luke Combs.

E, enquanto artistas como Swift — e Faith Hill e Shania Twain uma geração antes — alcançaram sucesso no topo das paradas reduzindo seus elementos country e se aproximando do mercado pop, “Texas”, de Langley, conseguiu superar todos os seus colegas homens no streaming mantendo os dois pés firmemente plantados no universo country.

Ao lado de outras artistas que despontaram em 2026, como Stella Lefty e a já citada Moroney — cujo “Cloud 9”, número 1 da Billboard 200, ao lado de “Texas”, de Langley, estabeleceu neste ano uma inédita combinação de domínio simultâneo de mulheres country nas duas paradas —, o sucesso de Langley desafia ativamente a hierarquia ainda fortemente marcada por gênero em Nashville, algo que as interpretações depreciativas sobre ela e seu hit deixam de reconhecer.

O que mudou em relação a dois anos atrás — e vamos acabar fazendo tudo isso de novo daqui a dois anos?

É claro que Langley não é a primeira artista country desta década a vir de uma posição demograficamente externa ao grupo dominante e ainda assim ultrapassar todo o resto nas paradas. Dois anos atrás, Shaboozey fez a mesma coisa com “A Bar Song”, como um homem negro que misturava gêneros e havia trabalhado principalmente no hip-hop no início da carreira antes de migrar para o country no fim dos anos 2010.

Assim como aconteceu com “Choosin’ Texas”, as 19 semanas de “A Bar Song” no topo do Hot 100 não foram resultado de qualquer controvérsia capaz de dominar a cultura, nem de uma sequência constante de remixes ou apresentações de grande repercussão, nem de Shaboozey assumir o papel de um chamador de feira, conduzindo ruidosamente milhões e milhões de pessoas para dentro da tenda de sua música a cada semana.

E, assim como aconteceu com “Texas”, muita gente só ficou sabendo da música quando ela já estava prestes a fazer história nas paradas. Ainda assim, o tom da discussão em torno daquela música e de sua passagem pela liderança nunca ficou tão desagradável quanto parece ter ficado em torno de Langley e de seu mega-hit.

Há várias razões possíveis para isso. Em 2024, o fato de Shaboozey perseguir um recorde estabelecido cinco anos antes por Lil Nas X — com uma música que muita gente havia passado a considerar, de forma justa ou não, um hit de novidade, com o circo midiático em torno dela sendo tão memorável quanto o próprio single — talvez parecesse menos como pisar em território sagrado do que Ella Langley ultrapassar o clássico natalino canonizado de Mariah, que a maioria dos fãs já ama há mais de 30 anos, mesmo que só tenha estabelecido o recorde do Hot 100 no fim de 2025.

E, embora Ella seja uma espécie de minoria dentro da atual classe dominante do country por ser mulher — e definitivamente não se deve ignorar o quanto o sexismo pode desempenhar um papel na reação negativa que ela enfrenta atualmente —, Shaboozey era uma figura muito mais obviamente vista como azarão em todo o gênero por ser um homem negro, já que, apesar das raízes do country na música negra, pouquíssimos artistas não brancos tiveram acesso ao mesmo sucesso ou sequer às mesmas oportunidades que seus colegas brancos.

E, embora ele também tenha evitado em grande parte discutir política em 2024, Shaboozey talvez parecesse aos fãs de pop uma figura politicamente menos incômoda, como filho de imigrantes nigerianos e sem conexões claras com figuras tão controversas do country.

Também havia simplesmente muito mais coisa para discutir na música popular em 2024. O verão em que “A Bar Song” explodiu foi um dos mais movimentados da história recente do pop, incluindo a ascensão de Sabrina Carpenter e Chappell Roan ao estrelato, o fenômeno de Charli xcx e seu álbum “BRAT”, a rivalidade entre Drake e Kendrick Lamar, as incursões de Beyoncé e Post Malone pelo country, a ainda em andamento “The Eras Tour”, de Taylor Swift, e o então recém-lançado “The Tortured Poets Department”, além até mesmo do sucesso viral de Tommy Richman, numa época em que a viralização no TikTok ainda parecia produzir hits top 5 do Hot 100 vindos do nada.

Enquanto a corrida pop diminuía à medida que o verão virava outono — período em que Shaboozey realmente começou a aumentar seu total de semanas —, a cobertura da eleição presidencial de 2024 se tornou onipresente em todos os cantos, com estrelas como Swift, Charli e Beyoncé ainda desempenhando papéis coadjuvantes de diferentes tamanhos no ciclo de notícias.

Talvez, em comparação, “Como Shaboozey pode ter o número 1 de maior duração com uma música que nunca ouvi?” parecesse uma questão de pouca importância para as pessoas que agora estão indignadas com Langley fazendo a mesma coisa durante um período menos movimentado do pop.

Também é possível que 2024 tenha dado a muitos observadores ocasionais do pop expectativas pouco realistas sobre quanto as estrelas pop e seus grandes hits ainda deveriam fazer parte de suas vidas em meados dos anos 2020.

Naquele ano, artistas como Carpenter, Roan e Charli xcx se tornaram parte tão grande da conversa popular — não apenas com seus álbuns, músicas e vídeos de sucesso, todos pensados para atrair tanto fãs adultos de pop quanto ouvintes mais jovens, mas com apresentações que viraram manchete em festivais e na TV, com grandes posicionamentos políticos e artísticos feitos em entrevistas e nas redes sociais e com seus relacionamentos, românticos, amistosos ou antagônicos, com outras figuras importantes que também produziam notícias.

Elas tinham músicas impossíveis de ignorar, sem dúvida, mas elas próprias eram igualmente impossíveis de ignorar, de maneiras que — caso você não acompanhe ativamente música country, as paradas ou o podcaster Theo Von — Ella Langley talvez não seja.

Mas, na verdade, o maior hit do Hot 100 de 2024 não foi de nenhuma dessas três estrelas pop. Não foi de Kendrick Lamar ou Drake, Beyoncé ou Post Malone ou Taylor Swift. Nem sequer foi de Shaboozey.

Foi do cantor e compositor de soul-pop Teddy Swims, que terminou em primeiro lugar na parada anual do Hot 100 de 2024 com sua power ballad “Lose Control”. A música passou apenas uma semana em 1º lugar no Hot 100 semanal, no fim de março, mas permaneceu quase o ano inteiro no top 10, ficando por ali enquanto espetáculos pop maiores surgiam e desapareciam ao seu redor.

E fez isso basicamente da mesma maneira que “Choosin’ Texas”: atraindo público tanto no streaming quanto no rádio, funcionando em diversos tipos de playlists e formatos, sem nunca atingir um pico particularmente espetacular de ubiquidade cultural, mas também sem realmente perder força.

No fim, permaneceu por mais de dois anos civis na parada, chegando ao recorde de 112 semanas no Hot 100 antes que mudanças nas regras da Billboard implementadas no fim de 2025 fizessem com que fosse considerada recorrente e deixasse o ranking.

Embora muitos de nós ainda esperemos instintivamente que os maiores hits das paradas sejam tão fenomenais quanto “Old Town Road” ou tão impulsionados por estrelas quanto “One Sweet Day”, a verdade é que sempre existiram grandes sucessos como “Choosin’ Texas” e “Lose Control” — músicas que dominam a música popular sem necessariamente se espalhar por cada canto da cultura pop ou transformar seu intérprete da noite para o dia em uma estrela de primeira grandeza. Embora Langley ainda possa se tornar uma — e talvez já seja em certas partes do país.

E as maneiras pelas quais a música popular mudou e desacelerou agora dão a esses tipos de faixa uma vantagem maior do que nunca no Hot 100, já que o cenário atual recompensa sua consistência de crescimento lento sem ter qualquer razão — ou capacidade, aliás — de expulsá-las para abrir espaço para a próxima novidade.

E, na verdade, aquilo que as pessoas provavelmente mais odeiam e mais estranham em relação ao fato de Ella Langley liderar o Hot 100 por 24 semanas não é que a música não seja digna disso, nem que Langley represente alguma conspiração country de hegemonia MAGA reforçada, nem sequer que a Billboard esteja agindo de maneira sinistra — ou, no mínimo, negligente e ultrapassada — em seus métodos de contabilização de dados, embora certamente existam pessoas irritadas com todas essas coisas. Basta olhar os comentários de uma publicação média da Billboard nas redes sociais sobre o assunto para encontrar muitas reclamações a respeito de cada uma delas.

Mas, no fundo, o que está deixando as pessoas irritadas é a ideia de que o grande hit pop, tanto como conceito quanto na prática, talvez tenha passado por elas — que não seja mais para elas. Que, seja porque o top 40 mudou, porque elas mudaram ou por ambas as coisas, agora existe uma desconexão entre elas e a música popular que talvez nunca volte a ser completamente superada.

Há todo tipo de implicação em perceber algo assim, e a maioria delas é bastante desagradável e difícil de processar.

Mais uma vez, é compreensível. E, se você ainda está surpreso ou irritado com uma música que não conhece, de uma artista que não conhece, tornando-se um hit recordista do Hot 100, tudo bem.

Mas não se surpreenda se, daqui a alguns anos, outra música desconhecida, de outro artista desconhecido, aparecer, fizer você dizer exatamente a mesma coisa e nos fizer passar por tudo isso de novo.

[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui.]