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‘Onda’, de Fran Gil: um álbum nascido do luto e da reconstrução

Cantor contou à Billboard Brasil as vivências que marcaram a produção do disco

Fran Gil lança novo álbum 'Onda' (Bonin/@bonin____)

Fran Gil lança novo álbum 'Onda' (Bonin/@bonin____)

Depois de três anos, Fran Gil, uma das vozes do trio Gilsons, reacendeu a sua carreira solo com o álbum “Onda”, que lança nesta quarta-feira (16). Em entrevista à Billboard Brasil, ele falou da trajetória árdua destes últimos anos em sua vida pessoal, que culminaram na produção do disco.

Seguindo a onda de seu primeiro álbum “Raízes” (2020), o novo disco conta com parcerias marcantes tanto em nome quanto em diversidade de ritmos: BK, Péricles, Pedro Franco e a própria filha, Sol de Maria.

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“Eles são fundamentais”, diz Fran Gil. Os nomes em si já refletem uma coletânea eclética da qual o cantor diz falar de seus próprios gostos musicais.

“BK, trazendo esse peso do rap. O Péricles, essa figura lendária do samba, o mestrinho, o grande músico, da sanfona do acordeão. E Pedro Franco, por exemplo, um instrumentista, violinista de sete cordas (…) Isso já reflete essa variedade que o disco tem, mas que ao mesmo tempo se preserva ali numa numa linearidade. Todo mundo que escuta sempre fala: ‘Impressionante como você consegue passear por vários lugares, mas manter ali uma linha que segue pelo disco todo'”.

Nas 11 músicas, apenas uma não é autoral de Fran Gil. Ele inclui no disco uma gravação própria de “Deixar Você”, do seu avô, um dos maiores nomes da música brasileira, Gilberto Gil.

Uma das suas músicas favoritas, ele disse que foi a última faixa a ser gravada: “É sempre um momento de ousadia a hora que você vai ali e resolve investigar essas canções do meu avô e tocá-las”.

Fran Gil em 'Onda' (Bonin/@bonin____)
Fran Gil em ‘Onda’ (Bonin/@bonin____)

Entre as outras histórias da produção, destaca-se a colaboração da filha, Sol de Maria. Fran Gil contou como a faixa surgiu de uma gravação entre ele e a filha.

“Ela foi para o quarto. Ficou 10 minutos e veio com a letra de uma música. Ela, na verdade, foi abrir o caderno dela, porque já tinha várias coisas que escrevia. Eu, até então, nem sabia disso que ela escrevia essas coisas. Foi quando a gente começou a gravar o áudio, quando eu comecei a musicar”.

Ao final da entrevista, Fran Gil deixou passar uma espiada em possíveis futuros. Ao citar o pop entre suas referências e falar do seu projeto de 2018, “Niara”, com a Pabllo Vittar, ele comentou sobre se envolver mais com o gênero: “Eu tenho um pouco de Niara também, sabe?”.

Os anos que passaram

A divulgação do projeto começou com os lançamentos em agosto dos singles “Reconstruir” e “Mancha de Dendê”. Seguindo a filosofia que norteou a produção do álbum, as duas músicas, apesar de ritmos diferentes, possuem uma identidade próxima.

A percussão alegre de “Mancha de Dendê” reforça a retomada da autoestima, algo contrastado pelo tom sentimental de “Reconstruir”, que relembra a memória da mãe de Fran, Preta Gil, que morreu em agosto de 2025. O próprio lançamento da faixa foi simbólico, saindo no dia em que Preta completaria 52 anos, e complementado com uma carta – veja abaixo.

A memória da mãe atravessa o disco inteiro, mas não é a única influência presente. Apesar de ter sido produzida nestes últimos três anos, a história de “Onda” é mais antiga.

“‘Onda’ é fruto dessa vivência desses anos todos. Embora eu esteja produzindo esse disco há 3 anos, existem canções que existem há 4 ou 5 anos (…). Foi um período que eu fui entendendo cada vez mais o que era o Fran, o que era essa minha sonoridade. Foi um processo muito profundo de descobertas, de um mergulho em mim”, explica o cantor.

Fran Gil pausou o desenvolvimento das produções solo depois da explosão de sucesso dos Gilsons durante a pandemia. Mas, ao mesmo tempo que se ocupava com a rotina de turnês e shows, passou por experiências que se tornariam o embrião de “Onda”.

O cantor citou um episódio profundo de depressão, no qual começaram a surgir as primeiras canções. Ao mesmo tempo, outros acontecimentos, como sua separação em 2020 de Laura Fernandez, mãe da sua filha, causaram reconfigurações em sua vida. Da desesperança pandêmica à busca de novas parceiras românticas, esta mistura marcou os momentos iniciais do projeto:

“Num dado momento, as coisas se invertiam também. Em momentos de tristeza, eu estava escrevendo sobre felicidade e, em momentos de felicidade, eu estava escrevendo sobre tristezas, sabe? É isso quando eu falo dessa onda.”

Preta Gil
Preta Gil e o filho, Francisco (Reprodução/Instagram)

2025 foi outro marco na trajetória do disco. Preta Gil, mãe de Francisco, morreu após complicações de um câncer no intestino. Ela havia acompanhado a produção inicial do álbum; inclusive, foi ela quem incentivou o filho a regravar a música do avô.

“Eu pensava muito da minha mãe na hora de tomar essa decisão, porque ela sempre falava: ‘Você tem que gravar logo, você tem que gravar logo’ (…) me vinha um um sentimento assim que conectava tudo. Uma saudade da minha mãe, porque a gente fez essa música muito durante a turnê ‘Nós a Gente’ (…) Por mais que [‘Deixar Você’] venha de um lugar, romântico, ela começou a me remeter a esse outro lugar. ‘Deixar Você’ nesse lugar dessa despedida, desse luto mas num lugar bonito. Um lugar que me traz um reflexo bom.” , explica.

É neste catálogo de sentimentos que Fran Gil encontrou a inspiração para o projeto. Por mais que ele esteja marcado pelo que já viveu, o cantor disse que também vê a produção do álbum como um processo de crescimento.

“É essa onda justamente dos movimentos, essa onda da possibilidade da mudança, da possibilidade do inesperado, e um certo olhar generoso com isso. De abraçar realmente esses movimentos. Tem sido algo que eu tenho levado para mim. Tenho tornado cada vez mais essa pessoa.”

Escute as músicas de Fran Gil: