Pesquisa indica que mulheres são menos de 30% dos artistas contratados
Levantamento inédito com dados de mais de 500 empresas comprova desigualdade

Equipe do She Is The Music em uma das ações de empoderamento feminino da entidade
A presença feminina nas estruturas comerciais da indústria musical continua muito abaixo do que os palcos e as paradas sugerem. Segundo a pesquisa Índice de Paridade de Gênero na Música (Music’s Gender Parity Index), lançada pela plataforma de dados ROSTR em parceria com a organização sem fins lucrativos She Is The Music, mulheres representam apenas 29,7% dos artistas contratados por gravadoras, editoras, empresas de management e agências de booking, ou seja, menos de três em cada dez.
O levantamento inédito cruza dados de mais de 500 empresas do setor, incluindo gravadoras, editoras, empresas de gerenciamento de carreira e agências de agenciamento artístico, e oferece pela primeira vez um retrato quantificável e rastreável da desigualdade de gênero na base da cadeia produtiva da música.
A disparidade atravessa toda a cadeia. A pesquisa mostra que mulheres ocupam apenas 26,7% dos cargos de manager e 25,9% dos de agente, quer dizer, nos postos que decidem quem recebe investimento, oportunidades de turnê e contratos, a presença feminina também é minoria.
Para Laura Segura, diretora executiva da She Is The Music, “o desequilíbrio que vemos nas paradas, nos palcos dos festivais e nas equipes técnicas se forma muito antes de os refletores acenderem. Ele começa em quem é contratado, quem é agenciado e quem recebe apoio”, diz a executiva.
Novos contratos não aceleram a mudança
Desde 2023, a participação feminina nos novos contratos assinados a cada ano oscila em torno de 35%, mais exatamente 35,2% em 2023, 34% em 2024, 35,2% em 2025 e 35,2% nos primeiros sete meses de 2026. O dado mais preocupante vem das gravadoras, cuja fatia de mulheres entre os novos contratados caiu de 38,4% em 2023 para 34,3% até julho de 2026. Já no setor editorial, mulheres representam apenas 27,8% dos novos contratos, abaixo da proporção já existente nos castings do segmento, o que indica que, se a tendência persistir, o desequilíbrio nas publicações musicais tende a piorar.
Pesquisa traz 63 empresas que provam que 50% é possível

A pesquisa reúne, no chamado “Clube dos 50%”, as empresas e profissionais cujas equipes e castings são compostos por metade ou mais de mulheres. Na primeira leva, 63 nomes atingiram a meta.
Entre as maiores agências de booking, com mais de 100 artistas contratados, TBA Agency (55,6%), Luger (53,6%) e Select Music (50,4%) já ultrapassaram os 50%. A CAA, com 38,6%, lidera entre as gigantes do setor. Na lista das dez maiores empresas de empresariamento, todas, com 15 ou mais artistas sob gestão, atingiram ou superaram os 50%. A Sandbox Entertainment lidera, com 66,7%. Entre as gravadoras, a Mouthwatering Records é a única qualificada com maioria feminina em seu casting, com 55,9%.
No Brasil, o WME mantém desde 2019 a certificação de empresas e eventos com equipes e line-ups com 50% ou mais de mulheres, pessoas trans e não-bináries por meio do Selo Igual, que já foi concedido a mais de 100 empresas, entre as quais os festivais Primavera Sound, Rock the Mountain, a gravadora Som Livre, o Ecad, a UBC, a Mynd, a rádio Nova Brasil FM, as distribuidoras ONErpm e Altafonte entre outras entidades, empresas e eventos.
Roteiro para 2030
A She Is The Music apresenta cinco compromissos setoriais: medir dados de gênero em todo o sistema, estabelecer metas de representação para 2030 com base “matematicamente crível”, ampliar os canais de acesso a talentos, expandir os caminhos para funções que moldam carreiras e publicar progresso anualmente. O texto reforça que os 50% são uma “referência voluntária de planejamento”, e não uma cota – não devendo determinar o resultado de nenhuma decisão individual de contratação.
Nota metodológica sobre a pesquisa: o levantamento se baseia em dados da ROSTR atualizados até 10 de julho de 2026, cobrindo 39.214 criadores independentes, com informações de categorização para 99,3% dos artistas solo. Bandas e grupos foram excluídos das estatísticas de proporção de gênero. Os autores ressaltam que a cobertura é majoritariamente da América do Norte, Reino Unido e Europa, não constituindo um censo global da indústria musical.
Para mulheres que buscam contratos, representação ou investimento, o recado da pesquisa é direto: a desigualdade de gênero na música não é um problema de palco, é um problema de mesa de negociação. Sem mudanças na etapa de “quem recebe o contrato”, o aumento de visibilidade em playlists e cartazes de festivais não será suficiente para produzir igualdade estrutural.
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