Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Ivete Sangalo no Palco Mundo do Rock in Rio (@anendfor)

Ivete Sangalo no Palco Mundo do Rock in Rio (@anendfor)

Avisa que Ivete Sangalo é a rainha do Rock… in Rio!

Rainha do axé é recordista de apresentações no festival, com 19 shows

Iron Maiden? Guns N’ Roses? Queen? Bon Jovi? Metallica? Ou os heróis da casa, Sepultura? O Rock in Rio construiu boa parte de sua identidade (e até o seu nome, não é?) em torno de artistas que ajudaram a definir o rock nas últimas décadas. Não à toa, tem “rock” até no próprio nome do festival. Algumas dessas bandas acima tocaram no evento diversas vezes, protagonizando algumas das apresentações mais marcantes que entraram para a memória da música ao vivo no Brasil.

Mas tem um fato curioso: a artista que mais vezes subiu a um palco do Rock in Rio não vem do rock. Ela é baiana, canta axé, samba, pagode, pop e o que mais tiver vontade. Em 2024, Ivete Sangalo chegou à sua 19ª participação no RiR. E neste 2026, ela retorna ao evento.

Ivete Sangalo no Rock in Rio (Rafa Matte)
Ivete Sangalo no Rock in Rio (Rafa Matte)

Esse recorde de participações no Rock in Rio, por si só, já diz muito sobre o lugar que ela ocupa na história do evento (e, também, sobre o ecletismo de um line-up que, com o tempo, deixou de ser sinônimo apenas de guitarras e bateria).

Ivete testemunhou as principais transformações pelas quais passou este que é um dos maiores encontros de música do planeta. O Rock in Rio foi para Lisboa, Madri ou Las Vegas? Ivete foi junto. A cantora nascida em Juazeiro viu o festival deixar de ser apenas um grande palco de bandas internacionais e nacionais para se tornar uma plataforma muito mais ampla de música, entretenimento e experiências para o público. Um festival que tenta se reinventar a cada edição, mas que mantém, no fundo, a mesma vocação de reunir multidões em torno da música.

“O Rock in Rio tem uma responsabilidade grande no sucesso da minha carreira”, diz, em entrevista à Billboard Brasil. “É um palco que revolucionou mesmo as nossas histórias da música brasileira”, define. Em certo momento, ela cita a palavra que talvez melhor explique sua permanência ali: “sede”. Ivete tem sede de subir ao palco. E qual palco é mais monumental do que o do Rock in Rio?

Ivete Sangalo no Rock in Rio Lisboa
Ivete Sangalo no Rock in Rio Lisboa

A relação entre Ivete e o festival começou em 2004. Ela, claro, já era uma estrela consolidada no Brasil, mas ainda estava, aos poucos, construindo a carreira internacional. Mesma coisa com o Rock in Rio: o evento dava os primeiros passos para fincar bandeira em outros territórios. Duas trajetórias que cresceram lado a lado.

De lá para cá, Ivete transformou repetidas vezes um espaço desenhado para dezenas de milhares de pessoas em uma extensão de seu próprio universo. Não que tenha sido algo simples:  há uma bela diferença entre cantar em um show solo, para uma plateia que foi especificamente ali para vê-la, e entrar em um festival em que parte do público chegou para assistir a outros artistas.

Nesta entrevista à Billboard Brasil, Ivete Sangalo fala sobre a relação que tem com o Rock in Rio, a importância de estar neste que é um dos maiores festivais do mundo e reflete sobre carreira e novas gerações.

Ivete Sangalo no Rock in Rio
Ivete Sangalo no Rock in Rio

Confira o papo com Ivete Sangalo

Billboard – Você tem uma relação muito particular com o Rock in Rio. Já tocou em 19 edições do festival. Quando você olha para essa história, o que o Rock in Rio representa para você?

Ivete Sangalo – O Rock in Rio tem uma responsabilidade grande no sucesso da minha carreira. É um palco que revolucionou mesmo as nossas histórias da música brasileira. Então a minha relação é de alegria, gratidão e de sede de subir no palco.

A sua primeira participação no festival foi em 2004. O que mudou na Ivete daquele palco para a artista que volta hoje?

Mudou muita coisa. Eu amadureci como mulher, como artista e como pessoa. Aprendi muito com o palco, com o público. Mas tem uma coisa que não mudou: a vontade de estar ali e fazer um show que deixe as pessoas felizes. Acho que essa é uma parte de mim que continua exatamente igual àquela Ivete de 2004.

O Rock in Rio costuma ser um lugar de encontros entre gerações. O que você percebe de diferente na maneira como as novas gerações se relacionam com seu trabalho?

Na música, as pessoas precisam ter contato, porque aí vão saber se vão se emocionar e o festival promove no diverso o contato com isso. A música é atemporal e o que mais importa é o contato, e no Rock in Rio essa relação da nova geração com coisas que elas não tinham contato antes, acontece. E de forma genuína.

Existe alguma apresentação no Rock in Rio que você considere especialmente marcante? Por quê?

É incontestável a relação de emoção de um fã com seu ídolo, e naturalmente esses encontros geram explosões de emoções. Isso vale para todos os artistas que já pisaram nesse palco. No meu olhar, muitos me surpreenderam muito, mas indiscutivelmente Stevie Wonder no Rock in Rio foi um deleite. E teve o Travis Scott, que assisti com meu filho e fiquei muito impressionada. E foi lindo (ver) a Karol Conká no palco Sunset em 2024.

O festival também mudou muito desde a sua primeira participação, assim como a própria indústria da música. O que você acha que o Rock in Rio entendeu sobre o artista brasileiro que outros grandes eventos ainda não entenderam?

Acredito que o Rock in Rio sempre olhou para o artista brasileiro com muito carinho. Existe algo determinante nessa relação do Brasil com os artistas internacionais: nós, brasileiros, gostamos muito dessa troca com o mercado internacional. Para promover essa relação, é preciso seguir algumas regras e pré-requisitos do mercado americano e europeu. Mas o Rock in Rio sempre, mesmo tendo que obedecer a determinados critérios, prestigiou muito os artistas brasileiros. Tivemos Cazuza, Moraes Moreira, Carlinhos Brown, Kid Abelha, Paralamas e tantos outros. Principalmente no começo do Rock in Rio, havia muitos critérios que precisavam ser respeitados para trazer os grandes nomes de fora. E, ainda assim, o festival sempre fez questão de prestigiar os brasileiros e abrir espaço para a nossa música.

Há alguma música que você sente que ganhou um significado especial quando foi cantada no Rock in Rio? E existe alguma que você considera indispensável em um show seu no festival?

“Festa” e “Sorte Grande” têm uma relação muito forte com o público e são músicas que carregam muitas histórias. Mas também é muito especial ver como as músicas novas vão ganhando esse espaço, chegam com uma energia muito forte e mostram que a minha relação com o público continua se renovando. Acho bonito poder cantar músicas que fazem parte da minha história e, ao mesmo tempo, apresentar novidades e ver o público abraçando tudo junto.

O Rock in Rio é um espetáculo de escala gigantesca, mas você construiu sua carreira muito próxima do público. Como equilibrar a dimensão monumental de um festival com a intimidade que sempre foi uma característica dos seus shows?

Eu acho que o segredo é não esquecer que, do outro lado, existem pessoas. Pode ter um palco enorme, milhares de pessoas, muita tecnologia e uma grande produção, mas a música continua chegando de pessoa para pessoa. Eu gosto de olhar para o público, conversar, brincar, cantar junto. É isso que faz um show grande continuar sendo humano.

Ao longo de mais de três décadas de carreira, você atravessou mudanças profundas na música: do CD à música digital, do rádio às redes sociais e ao streaming. Qual dessas transformações mais alterou a maneira como você pensa sua carreira?

A chegada do digital e das redes sociais mudou muito a relação entre o artista e o público. Hoje tudo acontece muito rápido e a comunicação é muito mais direta. Mas, ao mesmo tempo, acho que algumas coisas continuam iguais: a música precisa tocar as pessoas, o show precisa emocionar e o artista precisa continuar verdadeiro naquilo que faz. Nada disso que eu falei é transformado pelo tempo e pelas tecnologias, tudo é muito bem-vindo, mas não se pode perder a relação direta com a verdade do artista.

Você se tornou uma das artistas brasileiras mais reconhecíveis também fora da música, como apresentadora, personalidade pública e empresária. Existe um momento em que você sente que essa multiplicidade começa a competir com a cantora?

Não. Todas essas experiências fazem parte de quem eu sou e também alimentam a artista. Eu gosto de experimentar, aprender coisas novas, trabalhar em áreas diferentes. Mas a música é o meu lugar. É onde eu me sinto mais inteira. Posso fazer muitas coisas, mas quando subo no palco, eu sei exatamente quem eu sou.

Tem algum gênero musical que você gostaria de explorar, mas ainda não teve a oportunidade?

Eu tenho curiosidade por muitos caminhos. Gosto muito de música brasileira e de experimentar sonoridades diferentes. O samba, por exemplo, sempre esteve muito presente na minha vida, mas agora estou vivendo esse universo de uma maneira ainda mais especial com o ‘Ivete Clareou’, um projeto que me permite mergulhar no samba e no pagode, revisitar grandes músicas e mostrar um pouco mais desse meu lado. Acho que ainda tenho muito para explorar dentro do samba e do pagode e também em outros gêneros. O mais bonito de uma carreira longa é continuar tendo curiosidade e vontade de descobrir coisas novas.

Hoje, a relação entre artista e público é muito mais direta, por causa das redes sociais. Você sente que essa proximidade aumentou a liberdade do artista ou criou uma nova forma de cobrança?

As duas coisas. É maravilhoso poder falar diretamente com o público, dividir momentos e estar mais perto das pessoas. Mas essa proximidade também traz uma cobrança maior, porque tudo acontece muito rápido e todo mundo tem uma opinião. Acho que o desafio é saber ouvir sem perder a sua essência.

Se você pudesse voltar à Ivete que subiu pela primeira vez ao palco do Rock in Rio e contar a ela tudo o que aconteceria nas décadas seguintes, o que você acha que ela teria mais dificuldade de acreditar?

Acho que ela teria dificuldade de acreditar que continuaria subindo naquele palco tantas vezes e que teria a oportunidade de viver tantas histórias diferentes ali. Talvez também não acreditasse que aquelas músicas continuariam sendo cantadas por pessoas que ainda nem tinham nascido quando algumas delas foram lançadas. Eu diria para ela aproveitar tudo, para ela saborear tudo com consciência e entender que o futuro é sempre delicioso.

[Esta matéria faz parte da 24ª edição da Billboard Brasil. Compre a sua revista aqui.]

Ouça a playlist oficial da Billboard Brasil para o Rock in Rio