
MC TAYA
MC Taya fala sobre novo álbum antes de estrear no Rock in Rio 2026
Banda se apresenta no dia 5 de setembro no Palco Supernova
Um dia o nu metal e o funk se encontraram, e o barulho ficou maior do que os dois separados. É mais ou menos isso que a MC Taya faz: joga rap, trap, funk e metal no mesmo caldeirão sem pedir licença. Confesso que cheguei até eles por dever de ofício, porque o rock nunca foi o meu território e minha playlist vive de pop e K-pop, mas bastou uma música para entender por que eles provocam uma reação tão imediata.
“A gente é uma banda muito polarizada, ou ama ou odeia”, avisa a vocalista que dá nome ao trio, e eu fiquei do lado de quem ama. E é com esse caldeirão que o trio sobe ao palco Supernova do Rock in Rio no dia 5 de setembro, apresentando o metal mandrake pela primeira vez.
Em entrevista à Billboard Brasil, a cantora e a banda contaram como nasceu o projeto, a trajetória de cada integrante até a definição do seu som atual e os planos para o álbum de estreia.
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Nascida em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, MC Taya conheceu primeiro Salva, o baterista e produtor da casa, que veio das batalhas de rima da capital paulista e começou na música fazendo beat antes de sentar atrás de uma bateria.
O grupo só se fechou quando ela topou, pela internet, com o som que Spieker fazia no Rio Grande do Sul e resolveu ir atrás.
“Quando eu o conheci, eu disse: cara, a sua banda é muito foda, quando você esiver aqui em São Paulo, dá um alô, vamos se conhecer, vamos fazer música juntos”, ela lembra.
Quando pergunto se aquilo não foi um roubo em plena luz do dia, os três respondem rindo que “roubou não, é uma guarda compartilhada, é um consignado”.
O santo bateu e os três foram morar juntos na capital paulista, numa casa que eles apelidaram de Mandrake House, onde moram, ensaiam e compõem madrugada adentro.

Antes disso, cada um deles havia passado pela mesma história, e é essa coincidência que explica a banda.
Todos largaram o rock na adolescência, quando ter banda começou a soar como motivo de vergonha, e foram procurar rebeldia em outros lugares: ela no rap, Spieker nas raves de Porto Alegre e Salva nas rodas de slam.
Voltaram por volta da mesma época e pelo mesmo motivo, que era menos saudade e mais incômodo, já que nenhum dos três encontrava no rock brasileiro alguém fazendo o que eles queriam ouvir.
O começo de tudo, no caso dela, foi um baixo pedido ao pai aos 12 anos, depois de descobrir o rock pela irmã mais velha.
“Na minha casa não tinha roda de samba, que nem normalmente tem na Baixada. Tinha galera escutando rock no domingo, no churrasco”, e foi ali, entre o disco do pai e a fase metaleira da irmã, que ela ouviu Korn pela primeira vez e entendeu o que queria fazer da vida.
O caminho até conseguir, no entanto, deu voltas.
Ela tocou em bandas de nu metal até os 19 anos, largou tudo, se formou em artes cênicas na UFRJ com habilitação em figurino e foi trabalhar com moda, o que a levou à internet, à publicidade e, por fim, a São Paulo.
“Foi aqui que eu me senti segura de novo para voltar à música”, conta, e voltou com outro nome e outro projeto. “Preta Patrícia”, seu primeiro lançamento como rapper, saiu em 2019 com produção de Mu540 e apareceu justamente quando Tasha & Tracie, Ebony e toda uma geração de mulheres ocupava o rap nacional.
Só que, mesmo dentro daquele momento, faltava alguma coisa.
“Eu sentia falta da agressividade do rock, aquela agressividade gritada, visceral. As minas eram muito foda, e o meu único diferencial de verdade era que eu sabia berrar e tocar baixo. Eu tinha que fazer alguma coisa para o mercado me enxergar.”
Havia ainda uma ausência que a incomodava mais do que qualquer cálculo de carreira, porque o rock nacional seguia praticamente sem mulheres negras.
“Passaram-se anos desde que eu saí do rock e ainda não tem, então eu quero ser essa chata que vai estar lá brigando por isso.”
A banda nasceu dessa revolta, e não apenas contra a ausência, porque, para os três, o gênero também havia envelhecido mal.
“O rock já tava assumindo um conservadorismo de tio, ele já não era mais o adolescente rebelde, ele já era o pai tiozão chato”, resume Taya, que enxerga nisso a origem de um público jovem cada vez mais radicalizado.
“A gente vê um monte de menino super novinho, super red pill, por causa de um monte de rockeiro chato”, completa.
A resposta que encontraram foi montar o que eles próprios descrevem como uma banda antifascista e queer, com uma mulher preta e favelada na frente, disposta a devolver ao rock a rebeldia adolescente que ele tinha nos anos 90.
Do experimento acabou saindo mais do que música, tanto que hoje eles tratam o nome como bandeira.
“Metal mandrake é um movimento, não é gênero”, explicam.
E a definição se sustenta porque o trio faz as próprias roupas, reconhece a mesma estética no trabalho de tatuadores e artistas amigos e leva tudo isso para o palco, sem separar o que é som do que é visual.
Quando peço que resumam em uma palavra uma banda que carrega Korn, Planet Hemp, The Prodigy, funk carioca e trap no mesmo lugar, a resposta vem rápida e em coro: experimento, ou, na definição que eles preferem, uma grande mistureba.
“A gente é uma banda que gosta muito de experimentar coisas”, dizem, e completam que gostam também de gente que experimenta, o que explica por que quase todos os ídolos que citam são artistas que apanharam na época por estarem misturando o que ninguém misturava.
Esse é o espírito que atravessa o primeiro álbum, ainda sem data de lançamento, que terá 15 faixas, sendo 14 inéditas e uma versão de uma cantora brasileira que ela admira e cujo nome eles preferem não entregar agora.
O conceito gira em torno do que Taya chama de mazelas do “Brasil bunda”, e aqui ela faz questão de separar bem as coisas, porque sabe que a expressão pode ser distorcida.
O alvo não é o funk nem a cultura que celebra o corpo, que ela ama e leva para dentro do disco, mas a herança escravocrata que transformou esse mesmo corpo em mercadoria.
“Uma coisa é o funk da liberdade sexual, a mulher fazer o que ela quiser com o erotismo dela”, diz, citando Valesca, Tati Quebra Barraco e Deize Tigrona como exemplos do que considera libertador, enquanto o que ela pretende denunciar é outra coisa: a globeleza, o turismo sexual e o lugar estreito reservado às mulheres negras na cidade onde cresceu.
Por isso mesmo o disco abraça sem culpa o que ela ama nessa mesma cultura, e passa por funk, samba, choro e pelo soul brasileiro dos anos 70, além da primeira love song, faixa que os três dizem estar mais ansiosos para ver no ar.
Boa parte das letras vinha sendo guardada no bloco de notas dela há sete anos, à espera de um disco que ainda não existia, e o resto nasceu de madrugada, na casa que dividem. “A gente nunca brigou por causa de música”, ela garante.
O single de estreia, “Meninas da Esquina”, tira o nome do livro homônimo de Eliane Trindade, que inspirou o filme “Sonhos Roubados” e conta a história de adolescentes que encontraram na prostituição uma forma de sobreviver no Rio de Janeiro.
A escolha não foi literária.
“Eu vivi isso muito próximo de mim. Tive muitas amigas que entraram na prostituição, muitas que acabaram casando com homens para sair do lugar onde moravam”, conta ela, e é por isso que a canção abre o álbum e funciona como uma espécie de mapa, apresentando de uma vez só os assuntos que as outras faixas vão desdobrar.
“O álbum como um todo trabalha várias paisagens sonoras do Brasil, porque, se a gente está trazendo esses relatos, a música precisava conversar com isso”, explicam.
A surpresa mais aguardada, no entanto, ficou guardada para o palco, porque o nome do álbum só será revelado no Rock in Rio. Serão 50 minutos que eles resumem como maluquice intensa e que incluem duas faixas inéditas, três participações especiais e um mini set de funk e rap.
Nem por isso tratam a estreia como linha de chegada.
“A gente não vê isso como conquistei e chegamos, a gente vê assim: agora ficou sério”, diz Taya, e o sentimento que descrevem mistura ansiedade, descrença e trabalho.
“É a mistura de que doideira deu certo, tipo ‘Ah, sabia que a gente ia estar lá’. Mas tem um grande caminho pela frente, então a gente não pode se emocionar e achar que agora resolveu, porque sempre tem um passo a mais para dar.”
“É uma visibilidade, é uma oportunidade do Brasil e do mundo conhecer, porque é o maior festival do mundo”.
Quanto ao show, o pedido é claro e vale como aviso ao público do Rock in Rio.
“A gente não quer ver ninguém parado, vai ser da primeira música à última, só porrada, uma atrás da outra”, promete a banda, que aceita qualquer forma de reação, seja batendo cabeça, rebolando, moshando ou abrindo um corredor no meio da plateia.