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O Rock in Rio que o público não vê

Falamos com Anna Clara Chermont, diretora de produção artística da Rock World

Anna Clara Chermont, diretora de produção artística da Rock World e Rock in Rio (divulgação)

Anna Clara Chermont, diretora de produção artística da Rock World e Rock in Rio (divulgação)

Quando o Foo Fighters tocar os últimos acordes de “Everlong”, na madrugada do dia 4 para o dia 5 de setembro, a primeira noite do Rock in Rio poderá até ter terminado para o público. Mas não para quem trabalha na produção do evento.

Assim que a banda entra no camarim, uma equipe já começa a desmontar o palco. Porque em poucas horas a música vai voltar.

“Logo depois que o Foo Fighters termina o show, começa o ‘load-out’, porque o Avenged Sevenfold já está chegando para iniciar o ‘load-in’ para o dia seguinte”, explica Anna Clara Chermont, diretora de produção artística da Rock World, falando em “festivalês” sobre o momento da saída e da entrada das bandas.

É assim que funciona uma das engrenagens menos visíveis do festival. Durante os dias de evento, a operação funciona 24 horas, dividida em três turnos. O que para o público parece uma sequência de shows é, para a produção, uma sucessão de montagens, desmontagens, testes e ajustes.

Mas a correria começa bem antes.

Assim que um artista é confirmado no line-up, entra em cena o Artist Relations, o elo entre o festival e a equipe do músico. É ele quem inicia as conversas e apresenta os responsáveis por transporte, hotel, vistos, backstage e direção técnica.

A partir daí, começa uma investigação. O Rock in Rio precisa entender como aquele artista trabalha, o que ele leva para a estrada e quais adaptações serão necessárias para que seu show caiba na estrutura da Cidade do Rock.

Porque, apesar de o festival ser gigante, o palco não pode ser mudado completamente a cada noite. Existe uma estrutura-base, com teto, boca de cena, LEDs e som já definidos. O que muda são os elementos acrescentados ou adaptados.

Um artista pode pedir um LED central maior. Outro pode precisar de uma mesa de luz específica. Há bandas que viajam com seus próprios instrumentos e outras que preferem alugar tudo no Brasil.

A iluminação é um dos pontos em que essa negociação fica mais evidente. Todas as noites, o desenho de luz é adaptado ao show seguinte. “Existe um limite estrutural do que o teto é capaz de suportar, e trabalhamos a partir dele”, explica Anna Clara.

Em 2024, um headliner pediu que o LED traseiro do palco fosse ampliado. A produção tinha uma hora para executar toda a operação: montagem, processamento e testes. Não havia espaço para erro.

Para que tudo corra bem, é preciso gente suficiente nos bastidores. A produção artística começa com nove pessoas na estrutura-base e pode chegar a 300 profissionais durante a operação.

Até problemas aparentemente pequenos exigem máxima atenção. Anna Clara lembra de um artista que queria um microfone de uma determinada cor. A informação não havia entrado no rider. A solução foi procurar um fornecedor local e pintar o microfone.

James Hetfield, do Metallica, no Rock in Rio (Raul Aragão/Grudaemmim)
James Hetfield, do Metallica, no Rock in Rio (Raul Aragão/Grudaemmim)

Cathering coreano

No backstage, o improviso faz parte do trabalho. O objetivo é justamente fazer com que ele não chegue ao público.

Alguns pedidos de camarim podem parecer extravagantes, mas Anna Clara prefere olhar por outro ângulo. Um artista pode estar há semanas fora de casa e poucas horas depois precisar cantar diante de dezenas de milhares de pessoas. Um tapete de yoga, uma vela ou uma comida que lembre sua casa podem ajudar.

No dia dedicado ao k-pop, o festival terá um catering com pratos coreanos. “É uma forma de fazer com que se sintam acolhidos e que percebam sua cultura e sua arte respeitadas”, diz.

Os pedidos mudaram nos últimos anos. A cultura do bem-estar chegou aos camarins. Incensos, velas e óleos aparecem com frequência. Já houve, claro, pedidos curiosos. Um artista pediu uma garrafa de vinho muito cara, que chegou cinco dias antes do festival e acabou guardada no cofre do CFO da Rock World até o dia do show.

Mas o maior aprendizado de Anna Clara não tem a ver com equipamentos. “Às vezes, a gente perde a perspectiva de que o artista é um ser humano”, afirma.

Para ela, os momentos mais difíceis nos bastidores costumam envolver relações entre pessoas, e não problemas técnicos. São equipes diferentes, expectativas diferentes, e ainda há cansaço e pressão. O trabalho da produção, nesse sentido, também é saber conversar.

Assim, o que o público vê no palco é apenas a parte mais aparente de uma operação muito maior. Cada show depende de centenas de pessoas que precisam fazer tudo funcionar sem chamar a atenção para si mesmas.

Quando o artista entra, as luzes acendem e a música começa. Ninguém do público dá a mínima para o que acontece no backstage. O que importa é o show. E é exatamente esse o sinal de que deu tudo certo.

[Esta matéria faz parte da 24ª edição da Billboard Brasil. Compre a sua revista aqui.]

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