Oasis destaca o Brasil no documentário ‘Don’t Look Back in Anger’
Longa sobre turnê de reunião é uma carta de amor aos fãs

Oasis Live '25 Tour nos EUA (Grosby Group)
O documentário “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, longa sobre os bastidores da reunião do Oasis e a subsequente turnê “Live ’25”, estreia essa semana em salas de cinemas brasileiros para dois dias de exibição: na quinta-feira (10/09) e no sábado (12/09).
Os fãs poderão conferir o trabalho da dupla de diretores Will Lovelace e Dylan Southern, que ironicamente também assinam a direção do filme “No Distance Left to Run” (2010), sobre a reunião dos históricos rivais do Oasis, o Blur, e “Shut Up and Play The Hits: The Very Loud Ending of LCD Soundsystem” (2012). O roteiro do projeto ficou sob responsabilidade de Steven Knight, das séries “Peaky Blinders” e “Mil Golpes”.
“Don’t Look Back In Anger” pode ser descrito como o registro histórico da reconciliação de uma das maiores bandas de rock do mundo, mas isso seria protocolar demais para resumir a mensagem do filme: essa é uma história sobre perdão, aproveitar oportunidades e, acima de tudo, é uma carta aberta de amor aos fãs que lotaram estádios e se deslocaram ao redor do globo em 2025 para testemunhar a reunião dos irmãos Gallagher. E o roteiro os coloca na posição de co-protagonistas da história o tempo todo.
O filme começa com uma breve linha do tempo que reconta a história da banda desde a sua gênese em 1991, pontuando a crescente rivalidade entre os irmãos Gallagher, até a dramática separação em Paris em 2009. Depois, criam o contraste com as cenas que retratam o momento da banda em 2025. Não há contextualização sobre a reaproximação entre Liam e Noel: somos introduzidos diretamente à rotina de ensaios dos músicos, inicialmente sem o seu principal vocalista, que se apresenta ao trabalho dias depois, no horário limite e deixa o estúdio de forma teatral enquanto o último acorde ainda soa na sala.
Se já não conhecêssemos o resultado da turnê, poderíamos acreditar que tudo tinha potencial para ruir novamente: Liam ainda é o rockstar indomável e imprevisível que testa a paciência do irmão profissional. A diferença é que, agora, Liam se apresenta como um atleta: focado, saudável e capaz de entregar uma performance digna do seu auge.
Já Noel diz uma palavra que nunca havia usado antes para descrever o caçula: “Encantador”. Mesmo assim, se sente confuso em relação à comunicação com o irmão em alguns momentos. “Eu só queria saber o que ele está pensando a respeito disso tudo”, diz.
Os ensaios também rendem momentos de alívio-cômico enquanto Noel trabalha como o diretor musical do espetáculo, relembrando melodias e cortando sem dó partes supérfluas das músicas que seus colegas Andy Bell (baixo), Bonehead (guitarra) e Gem Archer (guitarra) executam de volta para ele, ou ainda quando admite estar farto de ensaiar e implora para subir em um palco, nem que seja apenas para uma passagem de som.
A expectativa de Noel é atropelada pela realidade quando ele mesmo admite, nervosamente após o primeiro show de volta, que “subestimou completamente” a situação na qual ele estava se metendo.
O filme não se preocupa em contar a história do que aconteceu em 2025 de forma cronológica, apesar do foco inicial nos ensaios, na primeira apresentação da banda em Cardiff e nos shows no Heaton Park na cidade de Manchester, Inglaterra, onde os irmãos e a banda nasceram.
Por 2 horas, somos levados por um vai e vem aleatório entre cidades e cenas do público reagindo à banda, além de performances completas de músicas como “Roll With It”, “Acquiesce”, “Wonderwall” e “Cigarettes & Alcohol” — que soam tão grandiosas na sala de cinema quanto nos estádios que receberam a turnê
A direção de fotografia afiada de Haris Zambarloukos ajudou a retratar a intensidade e a carga emocional das apresentações do Oasis de múltiplos pontos de vista diferentes. Fosse de cima do palco, quando somos apresentados ao ângulo que os membros da banda têm das plateias em êxtase, nos momentos de nervosismo e alegria pré-show nas coxias ou ao captar detalhes sutis de intimidade e emoção dos fãs pelos cenários de cidades como São Paulo, Tokyo, Buenos Aires e Manchester.
Ao longo do filme, acompanhamos relatos de fãs de nacionalidades diversas contando as suas histórias e conexões emocionais com o Oasis. Caso da jovem brasileira que superou uma depressão com as músicas da banda e nomeou o seu cachorro com o apelido do guitarrista Bonehead, ou com o criador de uma música da torcida do clube de futebol argentino San Lorenzo baseada na melodia de “Wonderwall”.



Oasis com foco no Brasil
Os fãs brasileiros também foram presenteados com uma grande quantidade de imagens das apresentações do Oasis em São Paulo, incluindo a performance das músicas “Bring It On Down” e “Live Forever” no estádio Morumbis, que recebeu o encerramento da turnê.
A passagem da banda pelo Brasil ainda é destaque em uma cena pela coincidência com a data de morte de Gary “Mani” Mounfield, baixista do Stone Roses e amigo dos Gallagher. O músico foi homenageado durante “Live Forever” nos shows de São Paulo e sua morte abrupta revela um momento emocionalmente delicado para a banda durante a turnê.
Ao longo das duas horas de duração de “Oasis: Don’t Look Back In Anger”, somos constantemente apresentados a imagens que retratam o universo do Oasis de forma mitológica e messiânica.
A peregrinação dos fãs em direção aos estádios e sua devoção pelas letras das músicas do Oasis como fonte de inspiração para uma vida mais completa e ambiciosa é tratada pelo roteiro e pela própria banda como uma experiência quase religiosa.
O filme também reconhece a desconfiança dos fãs e da imprensa sobre a viabilidade da reunião da banda desde o anúncio dos shows, em 2024, até a primeira nota tocada na turnê. Essa tensão se dissipa na voz de um padre católico que faz um sermão sobre o perdão infinito entre irmãos, refletindo sobre o impacto da reunião da banda daqueles que um dia já se referiram a si mesmos como Caim e Abel.
Noel Gallagher fica constantemente incrédulo com a dimensão e o poder que sua obra tomou entre fãs de gerações mais novas, admitindo em certo ponto do filme que foram incontáveis os momentos em que ele se viu obrigado a virar de costas para o público para tentar conter a emoção, principalmente ao ver pais e filhos cantando juntos.
Ao final, Liam conclui que “só o Oasis salva”, mas diz que eles não são super-heróis.
A beleza do poder da banda é o de aparecer para tocar e deixar com que as pessoas atribuam novos significados às músicas, tomando elas para si próprias.
Noel ainda complementa com um tom politizado incomum à figura: segundo ele, o Oasis “não é uma experiência de extrema-direita: aqui todos são bem-vindos. É tudo sobre “nós”.
“Oasis: Don’t Look Back in Anger” pode não converter novos devotos para a banda e falhar na missão de explicar a mística do Oasis para os seus detratores, mas certamente vai agradar os fãs que querem guardar mais um registro das emoções vividas durante a turnê “Live ’25”, após mais de 15 anos de espera pelo reencontro com os seus ídolos.
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