
Laufey (@lali_moss)
Laufey transforma o Palco Sunset em um teatro de jazz no Rock in Rio 2026
Cantora de 27 anos brilhou no festival no Rio de Janeiro
Um dos shows mais surpreendentes do Rock in Rio 2026 aconteceu no Palco Sunset, onde Laufey encerrou a noite logo depois de Gilberto Gil e não fez feio ao lado de ninguém. A islandesa de 27 anos abriu com “Look for the Silver Lining”, standard do jazz americano gravado por Chet Baker em 1954 — e, poucos segundos depois, o clima já tinha virado teatro musical. Foi ali que ficou claro que aquele show seria especial.
Eu já tinha visto Laufey em São Paulo, no Ibirapuera, e tinha me impressionado com os fãs cantando cada palavra. No Rock in Rio a cena se repetiu, só que ampliada. Assisti da altura da house mix — um lugar privilegiado para ver e ouvir — e o som estava excelente.
Filha de mãe chinesa, violinista de formação clássica, e pai islandês, Laufey cresceu entre a Islândia e Washington, nos Estados Unidos. Aprendeu piano e violoncelo ainda criança e estudou no Berklee College of Music, a maior faculdade de música do mundo, onde lançou seu primeiro EP, “Typical of Me”, em 2021. De lá para cá, construiu uma carreira que desafia classificações tradicionais da indústria.
Com Grammys no currículo, bilhões de streams e apresentações em algumas das principais salas de concerto do mundo, Laufey conseguiu aproximar jazz, música clássica e bossa nova de uma geração que cresceu ouvindo pop e descobrindo música pelas redes sociais.
Ela é moderna e atual: seu jazz soa pop, soa bossa, carrega até um certo imaginário de Brasil visto de fora — algo como uma “bossa Bahamas” — mas é muito bem articulado, produzido e sustentado por conhecimento musical sólido. Não é apropriação superficial de referências; é uma linguagem própria, construída a partir delas.

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No Sunset, ela condensou tudo isso num show de embalagem pop e alma de jazz e bossa nova, com a sofisticação de quem estudou a fundo esse repertório antes de reinventá-lo. Multi-instrumentista, alternou entre violão, guitarra, piano e cello ao longo da apresentação. Sua voz, de timbre um pouco mais grave, passeia por registros interessantes, sempre com técnica, precisão e personalidade.
O cenário era teatral, com banda grande, cordas e uma formação que transitava entre jazz, música orquestral e bossa nova. Bailarinos dividiam as coreografias com a própria Laufey, sempre leve e sorridente, como uma criança feliz se divertindo no palco.
O momento mais bonito da noite foi a homenagem ao Brasil: ela pegou um violão de nylon e cantou “Perdido de Amor”, de Luiz Bonfá, compositor fundamental para a história da bossa nova. Disse “eu te amo” à plateia, vestiu uma faixa escrita “Rio de Janeiro” — como uma musa de escola de samba — e contou que encontrou muita inspiração na música brasileira, inclusive em momentos difíceis da vida pessoal.
Falou várias vezes sobre o Brasil como influência direta do seu trabalho e sobre a importância de tratar jazz, bossa nova e música orquestral com respeito, sem transformar essas referências em algo superficial.

Isso trouxe uma reflexão interessante para um festival do tamanho do Rock in Rio: num mundo acelerado, atravessado pela inteligência artificial, existe um público em busca de experiências que pareçam reais.
Instrumentos tocados ao vivo continuam tendo um valor difícil de substituir — e o mais interessante é que Laufey não precisou explicar essa ideia; o próprio show demonstrou. Em “From the Start”, maior hit da carreira, com mais de 1 bilhão de reproduções no Spotify, a plateia cantava cada palavra. O mesmo aconteceu com “Falling Behind” e “Fragile”.
Educada, gentil, charmosa e carismática, Laufey conversou com o público durante toda a apresentação, como quem já o conhecia havia anos — visivelmente emocionada e feliz. E é aí que está o tamanho do fenômeno: não é pouca coisa levar jazz, bossa nova e formação clássica para dentro do line-up de um festival como o Rock in Rio e encontrar uma geração inteira cantando em uníssono.
Laufey não está simplesmente recuperando músicas e linguagens do passado — está construindo uma relação nova entre essas referências e um público que a descobre como parte da própria cultura. E ela faz isso parecer fácil.
Mas não é.
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