Coluna: Brasil no 27º Latin Grammy entre a festa e a pergunta que ninguém faz
Por que a língua portuguesa ainda é exceção num prêmio que se diz latino?

Ter uma nomeação ao Grammy Latino é uma honra e um reconhecimento. Provoca aquela sensação quase infantil: gostam de mim. Não importa a categoria. Sabe quando você percebe que realmente gostam de você — na escola, no trabalho, entre amigos? Pois é. O Grammy Latino causa o mesmo efeito entre os escolhidos em cada categoria.
Antes de entrar nos nomes, porém, vale entender como a premiação se organiza. Existem as categorias generalistas, às quais concorrem todos os artistas do universo latino, e as categorias específicas para a música em língua portuguesa. E sejamos honestos: a frase surrada “o importante é competir” ou “ser indicado já é uma vitória” só funciona enquanto estamos apenas nas nomeações. No fim das contas, todo mundo quer mesmo é ganhar.
O Grammy Latino é o prêmio mais importante da música no universo que engloba toda a América Latina e a Península Ibérica. Por razões óbvias, vou me concentrar em alguns nomes que cantam em língua portuguesa. Embora não fale de todos os indicados, não posso deixar de registrar a emoção que senti ao abrir a lista e encontrar Loulu Gilberto na categoria de Gravação do Ano, com “O Amor Nos Encontrou”.
Logo na estreia, disputar o prêmio com Rosalía, Jorge Drexler e outros nomes de carreira consagrada é um feito extraordinário. Mais ainda quando se considera que essa categoria, com “lotação esgotada”, é tradicionalmente ocupada por astros hispanohablantes. No meio de um oceano de artistas que cantam em espanhol, somado ao universo de membros votantes que também são hispanohablantes, ser indicado nessas categorias generalistas é algo raro para qualquer um. Quanto mais para uma estreante.
Na sequência, a indicação de Anitta é mais do que merecida. Com “EQUILIBRIVM”, ela disputa o Álbum do Ano, a categoria mais cobiçada da noite. É seu trabalho mais brasileiro, um disco duplo de 32 faixas que abraça a diversidade da nossa música — samba, reggae, axé, bossa nova — e a coloca pela primeira vez na disputa principal do Grammy Latino. Só pode estar feliz.
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Passemos à categoria Melhor Artista Revelação. É motivo de orgulho ver três artistas brasileiros entre os onze indicados: Loulu Gilberto, Zeca Veloso e Dora Sanches. Orgulho e motivação para que os próximos nomes se empenhem em participar e apoiar este prêmio. Quem sabe um dia eu veja algum artista não brasileiro que cante em português — mas isso é outra conversa.
Djavan indicado para Melhor Álbum Cantor/Compositor, com “Improviso”, também no meio de vários gigantes que cantam em espanhol, é daquelas notícias que merecem ser celebradas. Ele deveria estar presente todos os anos só por ser o gênio que é.
E há ainda Zanna, indicada à Canção do Ano por “Nilo”. Outra brasileira numa categoria generalista dominada pelo espanhol. Um feito que merece ser sublinhado.
Os sempre presentes Yamandu Costa e Hamilton de Holanda, disputando na categoria de Melhor Álbum Instrumental — com “Peregrino” e “NOVA”, respectivamente — mostram que o Brasil sempre teve e sempre terá instrumentistas extraordinários, apreciados e reconhecidos no mundo inteiro. Aproveito a ocasião para sair rapidamente do Grammy Latino e mencionar um dos maiores: Paulinho da Costa. Salve!
Por que comecei enumerando estes artistas e as categorias em que foram indicados? Porque elas são muito importantes. E porque são ocupadas, na sua esmagadora maioria, por astros que cantam em espanhol.
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Dentro das indicações de música em língua portuguesa, é preciso destacar ainda a presença de Zaynara, indicada a Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa com “Amor Perene”, ao lado de Juliana Linhares, também brasileira, com “Até Cansar o Cansaço”. Zaynara está apenas no começo de uma carreira gigante — e é o Brasil.

Todos estes exemplos são a prova de que a música em português não precisa de tradução para nenhuma língua. Ela se basta. Mas, numa premiação como esta, acaba sendo engolida pelo gigantismo da música cantada em espanhol.
A todos os indicados, sem exceção, um grito de parabéns por estarem nesta lista. Quem ganha fica feliz. Quem não ganhar desta vez vai faturar na próxima, na outra ou na seguinte. O importante, acima de tudo, é continuar fazendo música, ser feliz e alimentar a alma de quem necessita.
Termino com um pensamento. Além do Brasil e de Portugal, fala-se português em Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Timor-Leste. Sinto falta de mais presença da música destes países. Entendo que o Grammy Latino é um programa de TV para o universo latino-americano em espanhol — e é justamente por isso que fica a pergunta: por que não um Grammy Lusófono?
Paulo Junqueiro iniciou a carreira aos 21 anos, em estúdios na Europa e no Brasil, e chegou à direção artística da Warner Music Brasil. Passou pela EMI e pela Sony Music em Portugal e no Brasil, onde foi presidente. Tem um Grammy Award por “Quanta Live”, de Gilberto Gil, e hoje é Co-CEO da Meio Mundo.
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