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Coluna: Jão bate recorde e prova que fandom não se constrói, se conquista

Show em SP revelou que o maior espetáculo do cantor é a relação com os fãs

Jão

Jão (@morivafilmes/30E)

O maior espetáculo do Jão não estava em cima do palco, estava em volta dele. Eu fui assistir à estreia da turnê “Memórias Póstumas”, no Nubank Parque, em São Paulo, e saí impressionado com o tamanho da produção — é claro — mas principalmente com a relação que o Jão construiu com os fãs.

O Jão bateu recorde: foram cerca de 60 mil pessoas, o maior público da história do estádio. E elas cantaram absolutamente tudo — não só “Idiota”, “A Rua”, “Mil e Um” ou “Meninos e Meninas”. Das 26 músicas do show, 14 são do álbum novo, e o público sabia todas. Teve momentos em que eu mal conseguia ouvir o Jão de tanta gente cantando junto.

Aliás, não deve ser fácil mixar um PA com 60 mil pessoas gritando junto, mas o som era enorme, distribuído pelas quatro pontas do estádio, e a experiência era realmente de arena.

E o palco ajuda muito nisso, né? É um 360º gigantesco, com o público cercando o Jão, e, curiosamente, quase não existia cenário no sentido tradicional. Tinha um lago no meio do palco, plataformas, luzes, muitos fogos e aquelas pulseiras acesas do público, criando aqueles momentos meio Coldplay. Mas a estrutura virou o cenário e o público também.

É um show pensado visualmente nos mínimos detalhes: o Jão atua, dança, troca de figurino, conversa, e o show tem uma dramaturgia própria. Isabel Teixeira interpreta a morte e aparece entre os blocos, costurando a narrativa desse espetáculo teatral. Tudo é arte.

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Ouça Jão

Eu acho que artista mainstream tem que jogar nas 11 e pensar em tudo isso: na música, no palco, na luz, no figurino, na dramaturgia, na história que está contando, na narrativa, na performance, na direção artística, no marketing e, sobretudo, nos fãs. E o Jão entendeu isso muito bem.

Mas, no meio de toda essa produção, o que sustenta o show continua sendo a música. Aliás, a banda é excelente, estilosa, diversa e participa de verdade do espetáculo. Tem guitarra, violões, metais, percussão — e eu gostei principalmente da forma como o Jão apresenta cada um deles, um por um, muito legal.

Musicalmente também tem muito mais coisa acontecendo do que simplesmente pop. Tem aquele pop melancólico que é muito dele, falando de amor, de relações e de vida cotidiana. A sonoridade é muito moderna — eu acho até um pouco americanizada em alguns momentos, mas muito caprichada nos arranjos.

Mas também tem rock, tem brasilidade, e momentos que acabam encostando um pouco na bossa nova e no samba, e principalmente lindas baladas. Aliás, show bom tem que ter balada. E aí, quando a produção dá espaço, é que você descobre de fato que a canção se sustenta — no violão e voz, no piano e cordas.

Outro momento importante foi “Meninos e Meninas”, quando Erika Hilton apareceu de surpresa, e a reação foi ensurdecedora. Ela subiu ao palco numa música que celebra a diversidade sexual e fez uma homenagem à comunidade LGBT, da qual faz parte.

Mas acho que a chave para entender esse fandom está no próprio Jão. Ele é carismático, conversa muito, é sério, é sincero, fala dos próprios medos, das perdas, e se mostra vulnerável o tempo todo. Existe uma melancolia que atravessa ali o disco e o espetáculo, mas ele consegue transformar essa tristeza numa identificação coletiva.

Em determinado momento, o Jão disse que queria fazer um show íntimo para 60 pessoas. Parece contraditório, mas, depois de assistir a todo aquele espetáculo, faz todo sentido — porque o que transforma um estádio em algo íntimo não é diminuir o palco ou a estrutura, é fazer 60 mil pessoas sentirem que aquelas músicas também falam sobre elas. É muita identidade.

E aí: produção, você constrói. Fandom, não. Fandom se conquista — e se conquista com um trabalho meio de formiga, aos poucos, com paciência, com muita consistência e com foco. E talvez hoje esse seja o maior espetáculo do Jão: a maneira como ele se relaciona com seus fãs.

Jão
Jão (@morivafilmes/30E)
Jão
Jão (@morivafilmes/30E)
Jão
Jão (@morivafilmes/30E)