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Coluna: Já parou para pensar no que vamos escutar em 2040?

A pergunta vai muito além das tecnologias que dominarão a música

Felipe Llerena coluna (divulgação)

Felipe Llerena (Divulgação)

Quando pensamos no futuro da música, costumamos perguntar quais serão as próximas tecnologias. Eu prefiro outra pergunta: quem decidirá o que vamos escutar em 2040?

Essa talvez seja a questão mais importante para toda a indústria musical.

Vivemos a era dos algoritmos, da inteligência artificial, dos metadados e da hiperconectividade. Nunca foi tão fácil gravar uma música, distribuí-la para o mundo inteiro e alcançar milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão dependentes de sistemas invisíveis que definem o que aparece, o que desaparece e, muitas vezes, até o que merece ser descoberto.

A tecnologia não é a inimiga. Ela democratizou o acesso à produção musical, reduziu barreiras, aproximou artistas de seus públicos e permitiu que milhares de criadores independentes encontrassem espaço em um mercado antes inacessível. Os metadados, por exemplo, tornaram-se fundamentais para identificar obras, garantir transparência e assegurar que autores, intérpretes, editoras e produtores sejam remunerados corretamente.

Mas toda tecnologia carrega escolhas.

Veja a coluna de Felippe Llerena

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Os algoritmos não fazem escolhas culturais; fazem escolhas estatísticas. São treinados para maximizar atenção, retenção e eficiência. O risco é construirmos um ambiente em que a previsibilidade substitua a descoberta, a repetição substitua a diversidade e a performance substitua a identidade.

A música independente sempre existiu para fazer exatamente o contrário. É nela que surgem os novos movimentos, os novos sotaques, as experimentações e as narrativas que renovam a cultura. O independente não representa apenas um modelo de negócios. Representa a capacidade de um país continuar produzindo novas referências sem depender exclusivamente das decisões de poucos agentes globais.

O avanço da tecnologia e a concentração de mercado

Ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia oportunidades, assistimos a um acelerado movimento de consolidação da indústria. Catálogos são adquiridos por fundos de investimento, distribuidoras se unem, grandes grupos expandem sua presença global e os adiantamentos financeiros tornam-se cada vez mais concentrados em poucos artistas e repertórios. É um movimento natural de mercado, mas que exige reflexão.

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Indústria da música cultura
Indústria musical (Lee Campbell/Unplash)

Porque a pergunta deixa de ser apenas quem distribuirá a música e passa a ser quem controlará a memória musical das próximas gerações.

Para um país como o Brasil, essa discussão ultrapassa o aspecto econômico.

Nossa música é um patrimônio cultural construído por centenas de povos, tradições e territórios. Ela nasce nas aldeias indígenas, nos quilombos, nas periferias, nas festas populares, nos terreiros, nas pequenas cidades e nos estúdios independentes espalhados por todo o país. Nossa riqueza está justamente na diversidade.

Talvez devêssemos olhar com mais atenção para os povos originários. Eles nos lembram que cultura nunca foi apenas conteúdo. Sempre foi pertencimento, memória, identidade e transmissão de conhecimento entre gerações. Muito antes de existirem plataformas digitais, a música já conectava pessoas, preservava histórias e fortalecia comunidades.

Nenhum algoritmo é capaz de medir esse valor.

Indústria musical
Indústria musical (blocks na Unsplash)

Da mesma forma, nenhuma inteligência artificial conseguirá substituir completamente aquilo que nasce da experiência humana. A IA certamente ocupará um espaço importante na criação, na produção e na organização do mercado. Ela será uma ferramenta poderosa. Mas o desafio será garantir que ela amplifique a criatividade humana, e não que reduza a diversidade cultural a modelos matemáticos de sucesso.

A preservação do repertório como questão estratégica

Existe ainda um tema que merece maior atenção e que impacta diretamente o futuro da música brasileira: **a preservação do nosso repertório.

Regravar uma obra sempre foi uma das formas mais importantes de manter vivo o legado de compositores e compositoras, apresentando grandes canções a novas gerações e permitindo que diferentes artistas dialoguem com a nossa história musical. No entanto, muitos projetos independentes encontram enormes dificuldades para viabilizar essas gravações diante dos custos e das condições de licenciamento praticados pelo mercado.

O resultado é preocupante: preservar o patrimônio musical brasileiro torna-se, cada vez mais, uma possibilidade restrita aos grandes grupos econômicos. O desafio está em encontrar um equilíbrio que preserve a remuneração justa dos titulares dos direitos e, ao mesmo tempo, não impeça que esse legado continue sendo reinterpretado, gravado e redescoberto.

Soberania cultural como resposta

Como presidente da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), acredito que defender a música independente significa defender algo maior do que empresas ou modelos de negócio. Significa defender a **soberania cultural brasileira**.

Soberania cultural não é fechar as portas ao mundo. É garantir que nossos catálogos, nossos artistas, nossos empreendedores e nossas histórias continuem tendo protagonismo nas decisões sobre o futuro da música produzida no Brasil. É assegurar que a riqueza cultural do país não seja reduzida a um pequeno conjunto de interesses econômicos ou às escolhas automatizadas dos algoritmos.

Em 2040, provavelmente teremos plataformas muito mais inteligentes, sistemas de recomendação quase perfeitos e músicas criadas em parceria entre seres humanos e inteligência artificial.

Espero, porém, que também tenhamos aprendido uma lição fundamental: **a de que a tecnologia deve servir à cultura — e não o contrário.

Que os algoritmos ampliem a descoberta, em vez de limitá-la.

Que os metadados fortaleçam os criadores, em vez de transformarem a música apenas em dados.

Que os investimentos sirvam para desenvolver novos talentos, e não apenas para concentrar patrimônio.

E que a música independente continue sendo o espaço em que a diversidade brasileira encontra liberdade para existir.

Porque, no fim, a pergunta não é apenas o que estaremos escutando em 2040. A verdadeira pergunta é: quem terá o direito de contar a história da música brasileira?

Felippe Llerena é presidente da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI) e proprietário da Nikita Music, distribuidora digital 100% brasileira.

(Alex Bracken / Unsplash)