Drake adere ao boicote ao Grammy 2027 após BTS e Stray Kids
Hip-hop domina o streaming, mas enfrenta um vácuo na premiação

Drake (Reprodução/Instagram)
“No fim das contas, não há nada mais poderoso do que o rap”, disse Kendrick Lamar no palco do Grammy de 2025. “Nós somos a cultura.”
O rapper de Los Angeles, hoje com 39 anos, recebia o prêmio de Canção do Ano por “Not Like Us”, faixa que levou cinco troféus naquela noite, entre eles Gravação do Ano. No ano seguinte, Kendrick voltou para ganhar mais cinco Grammys com o álbum “GNX” e com “Luther”, parceria de enorme sucesso com SZA.
Com isso, virou o primeiro artista solo masculino a vencer Gravação do Ano em anos consecutivos. “GNX” também disputou Álbum do Ano em 2026, ao lado de “Chromakopia”, de Tyler, The Creator, e “Let God Sort Em Out”, do Clipse. Foi apenas a segunda vez na história que três álbuns de rap concorreram ao prêmio no mesmo ano.
O hip-hop tem tido papel de destaque na “maior noite da música”, mas 2027 pode ser diferente. Como em boa parte da era do streaming, o gênero foi o mais consumido de 2026. Olhando de perto, porém, seu domínio nas paradas vem perdendo força há anos.
Em outubro de 2025, o Billboard Hot 100 ficou sem nenhuma música de rap no top 40 pela primeira vez desde 1990. Até setembro deste ano, nenhum rapper tinha chegado ao top 10 da parada como artista principal, com exceção de Drake, que emplacou nove músicas nessa faixa na semana de estreia de seu aguardado álbum “Iceman”.
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Mesmo em número de reproduções, o relatório semestral da Luminate apontou uma queda de 1,6% no R&B/hip-hop em relação ao ano anterior, “o declínio mais acentuado na participação de mercado desde 2023”. A fatia do gênero no Billboard 200 caiu de 40% para 30%.
Neste ano, sem grandes lançamentos elegíveis de Kendrick, do Clipse ou de Tyler, não está claro quem vai carregar a tocha do hip-hop no Grammy de 2027. Doechii concorreu a Artista Revelação e ganhou Melhor Álbum de Rap em 2025, e no ano seguinte foi indicada a Canção do Ano e a Gravação do Ano. Desde então, nenhuma outra estrela em ascensão apareceu pronta para assumir o protagonismo.
“Este foi um ano bem fraco em lançamentos [de hip-hop] de destaque, com enredos ou narrativas”, disse Riggs Morales, executivo de gravadora e membro da Recording Academy, a academia que vota no Grammy. “Esqueça o fato de que não venderam bem. O problema é que nem se falou deles [da mesma maneira].”
Chris Anokute, também membro da Academia e ex-vice-presidente sênior da Universal Music Group e da Epic Records, chama de fake news as manchetes mais pessimistas sobre o desempenho comercial do hip-hop e atribui a situação às mudanças no streaming. Mas ele reconhece que a falta de novas estrelas do gênero, à altura de nomes que despontaram na década de 2010, como Drake, Young Thug e Future, vai além de uma anomalia.
“Não sei se algum dia vamos ver de novo esse nível de estrela no mercado atual, em que tudo está saturado pela economia da atenção”, disse Chris. “Os streamers são os novos rappers. Pergunte a qualquer jovem com menos de 18 anos: eles estão mais empolgados com iShowSpeed do que com Loe Shimmy. Todo mundo quer ser streamer. Ninguém quer ser rapper.”
Sem novas estrelas no topo e sem alguns dos favoritos mais consolidados dos últimos anos, quem pode representar o hip-hop nas principais categorias do Grammy de 2027? Segundo fontes da Billboard, Drake não inscreveu na premiação nenhum de seus três álbuns de 2026 nem nenhuma de suas faixas.

Os candidatos
Um nome possível é A$AP Rocky, de 38 anos. Veterano respeitado do hip-hop, e celebridade conhecida em parte pela relação com Rihanna, ele voltou em janeiro com “Don’t Be Dumb”, seu primeiro álbum inédito em quase oito anos, que chegou ao topo do Billboard 200.
“Para mim, A$AP Rocky fez o álbum do ano”, disse Chris. Para ele, a mistura de gêneros do disco, que soma punk, psicodelia e jazz a uma base de trap, e a grande variedade de colaboradores podem render indicações nas categorias principais. “Muitas das pessoas que votam [nessas categorias] são engenheiros de som e músicos, certo? Eles adoram esses detalhes técnicos. Acho que ele vai conquistar esses votos.”
Don Toliver, de 32 anos, nome em ascensão do trap&B, também pode surpreender. Ele chega impulsionado por “Octane”, álbum de melhor desempenho da carreira, lançado em janeiro, e pelo hit “E85”, que passou 25 semanas no top 40 do Hot 100 neste ano. “Essa foi uma das maiores músicas do ano”, disse Chris, que vê a mistura de gêneros da faixa como um trunfo.
Riggs reconhece que Rocky e Don podem ser lembrados em 2027, mas ressalta que, para artistas em ascensão como Don, chamar a atenção dos votantes das categorias principais leva tempo. “Leva um tempo até as pessoas ganharem destaque e virarem nomes familiares [para esses votantes]. É um processo de quatro a cinco anos, talvez seis”, disse. “Acho que falta um ou dois projetos para [ele chegar lá]. Mas este pode ser o ponto de partida.”
Outros rappers têm chances remotas. Entre eles estão veteranos como Cardi B e J. Cole, que lançaram projetos bem recebidos, mas sem o impacto cultural de trabalhos anteriores, e Vince Staples e Rapsody, cujos álbuns foram elogiados pela crítica, mas tiveram pouca repercussão no mainstream. O perfil habitual de favorito ao Grammy, o artista que alia peso comercial, aclamação da crítica e histórico de reconhecimento nas categorias principais, está ausente do hip-hop neste ano.
Mesmo sem apostas certas, Chris acredita que há caminhos suficientes para o gênero chegar às categorias gerais. Se o hip-hop ficar totalmente de fora, “então temos um grande problema”, disse. “Aí existe, sem dúvida, uma questão ligada à composição do corpo de votantes, porque isso não reflete a realidade social e cultural.”
Riggs concorda que o hip-hop segue no topo da hierarquia cultural da música popular, mas se preocupa menos com uma eventual exclusão e vê o momento como uma fase de transição. “Isso acontece a cada poucos anos. O mundo espera sangue novo para tornar tudo interessante de novo”, disse.
“Não sei se já temos isso, [mas] estou acompanhando a evolução de alguém como Rod Wave, assim como observo Don Toliver. Há uma nova geração surgindo que provavelmente está a um ou dois anos de despontar, assumir o protagonismo e conquistar uma indicação nas categorias gerais.”
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].
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