Grammy: música em outros idiomas ganha espaço no prêmio
Bad Bunny e Rosalía refletem mudança na premiação e no mercado global

Bad Bunny vence categoria no Grammy 2026 (Grosby Group)
Quando Bad Bunny gravou “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, não tinha como prioridade o sucesso comercial e muito menos uma indicação ao Grammy. O objetivo, segundo o artista contou à Billboard em 2025, era fazer um álbum em Porto Rico para os porto-riquenhos.
O disco acabou ultrapassando essa proposta inicial. “DeBÍ TiRAR MáS FOToS” chegou ao topo do Billboard 200 pela quarta vez na carreira de Bad Bunny e ajudou o cantor a se tornar atração principal do show do intervalo do Super Bowl.
O reconhecimento também chegou ao Grammy. Em 2026, o álbum venceu a categoria de Álbum do Ano, tornando-se apenas o segundo disco predominantemente gravado em um idioma diferente do inglês a conquistar o prêmio em quase 70 anos de história da cerimônia.
O primeiro havia sido “Getz/Gilberto”, de Stan Getz e João Gilberto, gravado majoritariamente em português e vencedor da categoria em 1965.
O cenário pode ganhar ainda mais força na edição de 2027. O novo álbum de Rosalía, “LUX”, reúne músicas em 13 idiomas, entre eles espanhol, inglês, latim e mandarim, e vem sendo apontado como um dos trabalhos que podem disputar espaço entre os principais indicados.
Outro exemplo é “ARIRANG”, do BTS, que combina coreano e inglês. O grupo, porém, não submeteu o álbum à avaliação do Grammy. Em 2021, o BTS se tornou o primeiro grupo de K-pop a receber uma indicação à premiação.
Os dois discos também tiveram desempenho comercial expressivo. “ARIRANG” estreou no primeiro lugar do Billboard 200, Top Album Sales e Vinyl Albums. Já “LUX” chegou ao quarto lugar do Billboard 200 e liderou cinco paradas de vendas da Billboard, incluindo Top Latin Albums, Top Latin Pop Albums, Classical Albums, Classical Crossover Albums e World Albums.
O crescimento da música em outros idiomas
A expansão acompanha uma transformação mais ampla no consumo de música. De acordo com o relatório de meio de ano de 2026 da Luminate, a predominância histórica de músicas em inglês vem diminuindo.
Nos Estados Unidos, quase uma em cada dez reproduções atualmente é de uma música em espanhol. No primeiro trimestre de 2026, 54% dos ouvintes casuais consumiram música em espanhol, o maior índice já registrado pela empresa.
Na Europa, conhecida pela diversidade de consumo entre diferentes mercados e idiomas, “ARIRANG”, do BTS, aparece como o álbum pop mais ouvido do ano até o momento.
“Paixão por descobrir música sempre existiu, mas agora ela se intensificou e chegou aos consumidores casuais, ampliando as possibilidades para artistas de todo o mundo”, afirmou Colleen Theis, presidente e diretora de operações da The Orchard.
Para ela, o interesse por artistas de diferentes países também está relacionado à capacidade da música de criar identificação independentemente do idioma. Theis citou “LUX”, de Rosalía, como exemplo de um álbum que desafia classificações tradicionais.
Grammy passou por mudanças
Apesar do crescimento do consumo de música internacional, o Grammy historicamente teve pouca presença de trabalhos predominantemente gravados em outros idiomas entre suas principais categorias.
Além de “Getz/Gilberto” e dos dois prêmios conquistados por Bad Bunny, apenas outro álbum predominantemente em idioma diferente do inglês havia sido indicado a Álbum do Ano: “The 3 Tenors in Concert 1994”, com Plácido Domingo, Luciano Pavarotti e José Carreras, acompanhado pelo maestro Zubin Mehta.
A indicação ocorreu em 1995, em uma edição que gerou críticas à Academia de Gravação pela ausência de artistas de gêneros como hip-hop e música alternativa entre os principais indicados.
Nos anos seguintes, a organização promoveu mudanças no sistema de votação. Em 2021, a Academia voltou a permitir que todos os seus integrantes votantes participassem da definição dos indicados finais, eliminando a maior parte dos comitês de nomeação.
Nos últimos dois anos, 4.900 novos integrantes passaram a fazer parte do corpo de votantes. O modelo de associação adotado em 2019 busca ampliar a presença de mulheres, pessoas negras e integrantes com menos de 40 anos na Academia.
“Desde que transformamos nosso modelo de associação, há sete anos, nossa missão tem sido construir um corpo de votantes ativo e engajado, no qual todos os gêneros e áreas estejam representados”, afirmou Harvey Mason Jr., CEO da Academia de Gravação.
Segundo ele, a música latina faz parte dessa transformação, assim como gêneros e produções em idiomas que anteriormente poderiam passar despercebidos pelos votantes.
Rosalía e a presença latina
A mudança também pode ser observada na presença de artistas latinos na própria transmissão do Grammy. Antes de 2019, menos de uma dúzia de artistas latinos havia se apresentado na cerimônia em quase cinco décadas.
Naquele ano, a premiação foi aberta com uma apresentação que reuniu Camila Cabello, Young Thug, J Balvin, Ricky Martin e Arturo Sandoval. Desde então, a cerimônia passou a incluir pelo menos uma apresentação latina a cada edição, tornando a música em espanhol uma presença recorrente na transmissão.
Entre os indicados, a transformação também ganhou força. Em 2020, Rosalía se tornou a primeira artista que canta em espanhol a receber uma indicação na categoria Artista Revelação. José Feliciano havia vencido a categoria em 1969, mas com um álbum em inglês.
No ano seguinte, Anitta, que canta em espanhol, português e inglês, também foi indicada a Artista Revelação. Agora, uma possível indicação de “LUX” a Álbum do Ano já é tratada como algo natural dentro do atual cenário da premiação.
“Em qualquer ano, os resultados da noite do Grammy realmente dependem do que repercute entre nossos votantes. Nossos esforços para garantir um corpo de votação representativo são importantes, mas a música também é”, afirmou Mason.
Para Rebeca León, ex-empresária de Rosalía e atual representante de artistas como Danny Ocean e Tokischa, o momento representa uma mudança na forma como a indústria enxerga a música produzida fora dos Estados Unidos.
“Rosalía fez um grande álbum, e que vença o melhor álbum. Boa música pode ser feita em qualquer lugar do mundo”, afirmou. “Espero que isso não pare na língua espanhola. Precisamos defender mais espaço.”
A expansão da música em outros idiomas, portanto, não se limita ao Grammy. O crescimento do consumo internacional e a circulação global de artistas indicam uma indústria cada vez menos dependente do inglês como idioma dominante do pop.
Esta matéria foi publicada na edição de 3 de outubro de 2026 da Billboard.
+ Leia mais: O que o impasse com o BTS significa para a categoria de Pop Asiático do Grammy
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].
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