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Ed Motta volta ao pop em ‘Toc-Toc’: ‘Não conseguia fazer refrão há muito tempo’

Disco lançado por gravadora alemã é o primeiro em português desde 'AOR' (2013)

Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)

Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)

Ed Motta coleciona acordes no celular como em um gabinete de curiosidades. Alguns vão para uma gaveta de ideias “jazzísticas”. Outros terminam numa chamada “metidas a complicadas”. Há também as “acessíveis”. Foi dessa última pasta digital que começou a sair “Toc-Toc”, álbum que chega nesta sexta-feira (25), depois de mais de uma década sem um disco autoral em português.

Ed passou os últimos anos expandindo o vocabulário harmônico, trabalhando com arranjos de muitas camadas e circulando por jazz, soul e AOR. Quando decidiu fazer um disco mais diretamente ligado ao pop, descobriu que reduzir podia dar mais trabalho do que acrescentar.

“Eu não conseguia fazer um refrão há muito tempo. Muito tempo mesmo, muitos anos. Um refrão nesse idioma pop”, conta à Billboard Brasil em uma videochamada.

Com 11 faixas, “Toc-Toc” foi produzido por Ed e Michel Limma e lançado pela Dwitza em parceria com o selo alemão MPS. Synth bass, programação de bateria e teclados atravessam um repertório no qual cabem electro-funk, soul, balada e até uma bossa nova com baixo eletrônico. As referências passam pela música negra norte-americana do fim dos anos 1970 e começo dos 1980, mas também por Robson Jorge e Lincoln Olivetti, especialmente no single “O Desejo Está Nu”.

Antes dele, o álbum havia sido apresentado por “Eu Quero Ser Feliz” e pela faixa-título, esta construída sob influência direta de James Brown. No papo, ele detalhou também a parceria com a sua companheira de vida, Edna Lopes, que contribui com letras em seu trabalho: “Tem uma neurose do casal importada para dentro da canção”, especula.

Ed conversou também sobre seu alter ego dos quadrinhos, o personagem Edouard Jazz. Uma HQ, atualmente em pré-venda, coloca Ed como um músico e detetive carioca.

O personagem vive uma aventura que passa por Rio de Janeiro e Londres em um clima noir dos anos 1930 e 1940. O projeto tem roteiro de PH Tirre e arte de Manoel Magalhães. Mais informações estão nos canais oficiais do músico.

Ávido colecionador, seja de vinhos, discos ou acordes, Ed contou que é justamente o perfeccionismo que o impede de levar adiante outras atividades que o atraem. Já escreveu para jornal, fez rádio, foi sondado para apresentar um programa de entrevistas e acompanha os quadrinhos com devoção de especialista. Mas diz que cada uma dessas frentes exigiria um grau de pesquisa e dedicação incompatível com a música.

Essas pequenas e grandes obsessões atravessam a conversa a seguir em todo momento: aparecem quando ele explica a arquitetura de uma canção, discute inteligência artificial ou celebra a chance de finalmente virar personagem de HQ.

OUÇA ‘TOC-TOC’, NOVO ÁLBUM DE ED MOTTA

‘É bastante difícil a síntese, o minimalismo do idioma pop’

Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)
Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)

Billboard Brasil: Depois de alguns discos em inglês, voltar ao português muda apenas a letra ou muda a própria música?

Ed Motta: Na verdade, quando começo minhas composições, elas estão sempre baseadas no fonema do inglês. Sempre. A vida inteira foi assim. Quando isso vai para o português, tem esse cacoete sonoro de tentar emular a sonoridade do inglês cantando em português. Por exemplo, “Eu Quero Ser Feliz” (canta, pronunciando as sílabas e divisões como em inglês). Eu até saberia o que seria a prosódia correta, mas me permito desobedecer a isso em prol da rítmica. E eu estou sempre compondo coisas no piano, no violão, que aparecem em estilos diferentes. Uma balada, uma música um pouco mais pop, uma coisa mais encrencada, jazzística, algo que poderia ser trilha… Já tinha muito tempo que eu queria desenvolver um disco mais pop e não estava conseguindo obter essa síntese.

Quase uma alquimia, certo?

Eu estava fazendo discos com uma complexidade alta de arranjos, camadas, uma série de coisas. Mas é bastante difícil a síntese, o minimalismo do idioma pop. Aí apareceu uma leva de quatro, cinco músicas que me levavam para esse caminho. Ao mesmo tempo, as pessoas pediam: “Poxa, tinha que gravar em português”. Fui à uma rádio em São Paulo, e os caras falaram: “Grava um disco em português, a gente quer tocar música nova sua aqui”. Fui sendo motivado por um pouco de tudo isso. Foi um encontro.

Após tantos anos aumentando seu vocabulário harmônico, hoje é mais difícil encontrar um acorde complicado ou perceber que a música fica melhor sem ele?

Quando aparece um acorde complicado para mim, eu guardo. Eu não tenho técnica de compositor. Não estudei composição. Quem estudou composição acorda às 11h e estabelece: “De 11h a 13h vou desenvolver uma parte de alguma coisa”, porque existem técnicas de composição. Eu sou compositor popular. Antes, eu usava aquelas fitinhas pequenas que os repórteres usavam. Tinha fitas diferentes para guardar estilos diferentes.

Hoje uso o telefone e faço pastas de áudio. Tem as “jazzísticas”, as “metidas a complicadas” — esse é o nome de uma pasta — e tem as “acessíveis”. Vou guardando tudo. Eu não tinha há muito tempo músicas com essa pegada mais pop, com refrão. Eu não conseguia fazer um refrão há muito tempo. Muito tempo mesmo, muitos anos. Um refrão nesse idioma pop.

“Toc-Toc” é praticamente um disco a quatro mãos com Michel Limma. Como funciona essa parceria?

Isso foi muito legal. O Michel trabalha comigo ao vivo, é meu diretor musical há uns dez anos. A gente tem um entrosamento musical muito grande. Ele é um cara muito organizado. No disco passado, por exemplo, ele escreveu as partituras para todos os instrumentos. Eram os arranjos que eu tinha feito, só que eu não escrevo. Ele organizou tecnicamente. Então rola um match total. E é um cara muito musical, toca piano muito bem, órgão, todas as teclas.

Eu voltei um pouco à ideia de “Um Contrato com Deus”, que foi um disco gravado a quatro mãos com o Bombom, que produziu e arranjou comigo. Só que ali a ideia era fazer uma base electro-funk e colocar cordas, metais. Tinha um tratamento barroco em cima. Era um barroco pop. Neste, não. Tem uma sonoridade crua, moderna, de pop, muito de certos timbres dos anos 1980: teclado, bateria, synth bass. Todas as músicas têm synth bass, independentemente do estilo.

‘Tem uma neurose do casal importada para dentro da canção’

Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)
Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)

Edna Lopes volta a dividir as letras com você. Escrever com alguém tão próximo deixa as canções mais ou menos íntimas?

Tem uma química total porque a gente está junto há 36 anos e convive muito. Faz tudo junto, almoça junto, janta junto, viaja junto. Por isso mesmo, por essa intensidade de intimidade, quando a gente cria uma coisa junto tem um quebra-pau danado. Eu falo: “Não, essa frase está horrível”. Às vezes sai um comentário meu mais grosseiro e a Edna fica chateada. Ou ela fala uma coisa mais rígida. Mas isso faz parte do processo, porque senão a gente não conseguiria fazer. Tem uma neurose do casal importada para dentro da canção.

Cantar em português ainda significa escolher principalmente o mercado brasileiro?

Não necessariamente. Assim como existe esse boom da música city pop japonesa — e eu até fiz uma compilação para a revista americana Wax Poetics muitos anos antes desse boom —, as pessoas estão curiosas pelo som do português. Assim como houve, nos anos 1960, o boom da bossa nova, existe uma retomada dessa curiosidade pela cultura brasileira no mundo. Eu vejo isso nas minhas redes. Tem um número maior de rádios europeias tocando a música, demanda de entrevistas de rádios americanas também.

O disco estava pronto desde o Carnaval. Ele ganhou alguma coisa ficando guardado por tantos meses?

Para ser super sincero, demorou esse tempo todo por conta do selo alemão. Eles têm uma logística de distribuição para fazer o disco chegar à Europa, Estados Unidos, Japão, às lojas de vinil e CD. É uma logística específica. Você diz: “Está pronto desde fevereiro”. Tem que ter uma paciência de Jó. Por mim, tinha saído em março. Fresco. Estava absolutamente tudo pronto, capa, tudo. Não estou reclamando, veja bem, mas é um hábito diferente para a gente no Brasil.

‘A novidade nunca é o que me interessa’

Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)

Em 2023, você disse que não tinha interesse em inteligência artificial. Três anos depois, com músicas e vozes geradas por IA já circulando no streaming, mudou alguma coisa?

O desinteresse permanece porque não é o ambiente cultural que me interessa. A novidade nunca é o que me interessa. Nunca é. Estou sempre olhando para trás e descobrindo novidades do passado, dos anos 1930, 1940, o que for. Mas eu não estou com essa preocupação toda com a inteligência artificial. Penso que está sendo feito um mau uso por enquanto, mas isso vai ter um desdobramento para uso no estúdio, que dizem que vai facilitar nossa vida. Mixar um disco vai ficar mais rápido.

Não dá para ser ludita, né?

Isso é como negar o elevador, negar o automóvel, negar o telefone celular, negar a internet. Acho que a IA está meio como uma deep web hoje, uma terra de ninguém. Mas acredito que as coisas acabam encontrando algum bom senso.

Você está prestes a virar personagem de quadrinhos em “As Aventuras de Ed Motta: Aplausos e Enigmas”. Para alguém tão ligado à HQ, como foi se ver dentro de uma?

Para mim é uma coisa inimaginável. Minha mulher faz quadrinhos e eu nunca consegui fazer um roteiro. Não tenho facilidade. Consigo fazer uma letra de música, mas não consigo fazer um negócio com vários personagens, vários desdobramentos. Então o PH Tirre e o Manoel Magalhães, que são os autores, vieram com essa ideia exatamente no estilo, na estética que eu mais gosto, que é a chamada linha clara. Para mim foi uma dádiva, um bálsamo. Virar personagem de quadrinhos, estilizado, quase como um cartoon meu, é muito legal. É uma celebração dos meus 55 anos.

Você já contou que, quando garoto, pensou em ser jornalista de música e cinema. Você teria um programa de entrevistas?

É uma coisa muito trabalhosa. Já fui procurado para fazer. Eu não teria vida, porque teria que pesquisar cada convidado. Perfeccionista como sou, não conseguiria fazer um negócio superficial. Teria que estudar aquela pessoa de trás para frente. Aí como ficam as minhas outras coisas? A música, os shows… Quando eu escrevia quinzenalmente na “Folha de S.Paulo”, tive que parar. No início era excitante. Pensava: “Puxa, que legal, vai ser um negócio meio Proust, um Proust popular”. Eu escrevia absolutamente sobre tudo que comia e bebia. Chocolate, vinho, qualquer coisa era analisável. Depois virou uma neurose.

Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)
Ed Motta (Divulgação/Jorge Bispo)

Faixas de ‘Toc-Toc’, de Ed Motta

  1. “Eu Quero Ser Feliz” (Ed Motta/Edna Lopes)
  2. “O Desejo Está Nu” (Ed Motta/Edna Lopes)
  3. “Toc-Toc” (Ed Motta/Edna Lopes)
  4. “Glamour Hotel” (Ed Motta/Leoni)
  5. “Casa de Frente pro Mar” (Ed Motta/Edna Lopes)
  6. “O Grande Plano” (Ed Motta/Edna Lopes)
  7. “A Marina Acende” (Ed Motta/Edna Lopes)
  8. “Beth” (Ed Motta/Edna Lopes)
  9. “Não Tem Contradição” (Ed Motta/Edna Lopes)
  10. “Um Dia de Sol” (Ed Motta/Edna Lopes)
  11. “Voltei Pra Mim” (Ed Motta/Edna Lopes)