Samuca e a Selva lançam ‘Pra Gente Se Acabar’ e admitem possível fim
Quinto disco tem Silvia Machete, Abacaxepa e a avó de 93 anos do vocalista

Samuca e a Selva (Divulgação)
Samuca e a Selva lançaram nesta quarta-feira (23) “Pra Gente Se Acabar”, quinto álbum de estúdio do coletivo paulista. O disco tem 13 faixas, participações de Carlos Dafé, Silvia Machete e Abacaxepa, e chega com um peso extra: depois de mais de 11 anos de estrada, o fim da banda está em discussão.
O título tem mais de um sentido. É a expressão brasileira que chama para a festa e a entrega total, mas também fala de despedida. Segundo o Samuca e a Selva, manter dez músicos na estrada se tornou quase inviável.
“O tempo avança, novas prioridades da vida adulta vão surgindo e o mercado muda drasticamente, favorecendo em inúmeros aspectos os artistas solo e fazendo com que as bandas, principalmente as de grandes formações, entrem, pouco a pouco, num processo de extinção”, diz Samuel Samuca, vocalista e fundador do grupo.
“Tem sido difícil manter um coletivo horizontal deste tamanho e a gente, em meio a orgulho e cansaço, tem se perguntado sinceramente se ainda faz sentido”, completa.
O fim não está decretado, mas está em pauta. E o disco amplia a conversa para um luto maior, o do próprio mundo. Crise climática, guerras, pandemias, o avanço da extrema-direita, a inteligência artificial sem controle e o individualismo formam o pano de fundo das músicas.
“É um projeto sensível que ensaia sobre a grande merda que é o fim e a grande beleza que há em enfrentá-lo, escolhendo dançar e se entregar ao máximo à vida enquanto ela ainda existe, ainda que em meio ao caos”, resume Samuca. “É sobre honrar a nossa trajetória, que é tão bonita e, ao longo da última década, se confunde com a nossa própria existência.”
No som, o Samuca e a Selva seguem misturando ritmos da música popular brasileira com elementos latinos e de jazz, com referências que vão de Marku Ribas a Sade. As letras falam de saúde mental, especulação imobiliária, paixão, saudade e angústia. Além de Samuca, o guitarrista Allan Spirandelli e o baixista Léo Malagrino assinam composições.
A produção é de Marcos Maurício, parceiro da banda em “Madurar” (2016), disco de estreia indicado ao Prêmio da Música Brasileira, e em “Ditados Populares Dançantes” (2022), que entrou na lista dos 50 melhores álbuns da APCA. Pela primeira vez, Samuca assina a coprodução.
A faixa-foco é “O Tempo Leva”, um boogie brasileiro que trata o tempo como cura e calma diante do ritmo acelerado do mundo. Samuca divide os vocais com Carlos Dafé, de 78 anos, conhecido como Príncipe do Soul e principal referência da música.
Em “Teia de Aranha”, quem aparece é Silvia Machete, vencedora do Prêmio da Música Brasileira em 2025 e 2026. Já a lambada “Flor do Mistério”, parceria de Samuca com Felipe El, tem as vozes do trio Abacaxepa, formado por Bruna Alimonda, Carol Cavesso e Rodrigo Mancusi. O Samuca e a Selva também fazem os backing vocals de todo o disco.
A participação mais surpreendente abre o álbum. Na faixa bônus “Bença”, quem canta é Dona Deborah, avó de Samuca, de 93 anos.
“Minha avó é uma das vozes mais lindas que eu conheço e é a pessoa que me inspirou a cantar. Cantar é a vida dela e ela canta para fazer tudo”, conta o vocalista. “Era um sonho antigo colaborar com ela num trabalho nosso, e ter ela abrindo esse disco é mais do que simbólico. É uma bênção mesmo.”
“Menos produto, mais arte” foi o lema do coletivo ao longo dos 11 meses de trabalho, que começaram com uma longa conversa entre todos os integrantes.
“A gente sentou e conversou sério, todo mundo do Samuca e a Selva e o Marcos (Maurício), por umas seis horas. Ali todo mundo trouxe sua disponibilidade, suas demandas, vimos o Matheus (Prado) se despedir para focar nos seus projetos pessoais, o que abriu espaço para a chegada de Dominique Vieira, nova percussionista da banda, e pactuamos que, mesmo diante de todas as dificuldades que estávamos enfrentando, principalmente as financeiras, íamos dar um jeito de produzir um trabalho que, primeiramente, nos orgulhasse e que fosse capaz de deixar um legado”, conta Samuca.
“Não era para o mercado. Era para a gente e para quem gosta da gente. E quem não tem dinheiro caça com tempo e esmero. E foi assim que fizemos. Gravamos todo o disco na casa do Marcão e foram muitas madrugadas em claro, tocando, retocando, ouvindo referências e pensando em cada detalhe, num processo minucioso, artesanal.”
A capa é uma pintura a óleo do artista plástico SANTVS, com elementos que misturam fé e medo, sagrado e profano. As fotos são de Kim Costa e a identidade visual, de Laercio Lopo, diretor de arte da banda desde 2023.
O álbum ainda ganha 13 visualizers, um para cada faixa, com personagens de um grande baile apocalíptico. A direção criativa é de Bruna Massarelli e Júlio Viela, com direção de Manoel Marques da Costa. Os vídeos serão publicados no canal do Samuca e a Selva no YouTube.
“Nossa ideia era retratar recortes de um grande baile que, na verdade, é uma representação da própria sociedade, misturando elementos de virtude e decadência, medo e esperança, luxo e pobreza, principalmente a da alma”, disse Bruna.
Formado em São Paulo, o Samuca e a Selva reúne músicos que passaram por projetos como Nômade Orquestra e Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. Na carreira, soma uma indicação ao Prêmio da Música Brasileira, duas presenças na lista de melhores álbuns da APCA e parcerias com Criolo, Liniker, Luedji Luna e CATTO.
O futuro segue em aberto, mas sem drama. “Olhar de frente e assumir essa possibilidade do fim pra gente, sem grilos, e ao mesmo tempo topar esse projeto foi uma espécie de ritual que nos uniu como nunca e tirou um peso enorme das nossas costas”, diz Samuca.
“Temos todo esse ciclo do lançamento e vamos desfrutar muito e também conversar muito, entre nós, com os fãs, com outras bandas ao nosso redor. Pode ser que, com união, as coisas mudem para melhor e a vida nos surpreenda. Deixemos rolar.”
A faixa-título, que encerra o disco, deixa o recado final: “E se, por fim de tudo, é o final da gente, mesmo assim, eternamente, sobreviverá a canção”.
Ouça ‘Pra Gente Se Acabar’, de Samuca e a Selva
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