Grammy amplia critérios para a categoria Artista Revelação
Mudança permite que artistas concorram por mais um ano ao prêmio

Quando Chappell Roan subiu ao palco em 2025 para receber seu Grammy de Artista Revelação e fazer um apelo contundente para que as gravadoras oferecessem salários dignos e assistência médica aos artistas de seus elencos, ela fez uma pausa antes de enfatizar: “especialmente aos artistas em desenvolvimento”, um termo cada vez mais abrangente na indústria atual.
“Há muita coisa disputando a atenção das pessoas”, afirma Justin Eshak, copresidente e co-CEO da Island Records, que em 2026 se tornou a primeira gravadora em décadas a conquistar vitórias consecutivas na categoria, com Roan seguida por Olivia Dean. “É raro alguém conseguir se destacar em 12 meses. Leva de quatro a cinco anos para isso acontecer.”
A Recording Academy também percebeu essa tendência. Em junho, entre uma série de mudanças e novas categorias que entrarão em vigor na 69ª edição do Grammy Awards, a academia anunciou uma alteração significativa nos critérios de elegibilidade para Artista Revelação: o número de vezes que um artista pode ser inscrito para avaliação passou de três para quatro.
“Não é a primeira vez que o nosso comitê de premiações e indicações decide analisar mais profundamente a categoria de Artista Revelação”, afirma Ruby Marchand, diretora global de premiações e indústria da Recording Academy. Um grupo de trabalho específico para a categoria, criado no ano passado, “se reuniu várias vezes e chegou a convocar uma reunião especial com artistas de todos os gêneros, dentro dos limites do grupo de trabalho, para discutir diferentes pontos de vista. Queríamos garantir que a comunidade criativa estivesse totalmente envolvida”.
A mudança pode ter impacto significativo na lista de possíveis indicados deste ano. Ella Langley, uma das prováveis candidatas, impulsionada pelas 24 semanas consecutivas, até o fechamento desta edição, no topo do Billboard Hot 100 com “Choosin’ Texas”, não poderia concorrer na categoria antes da alteração. O mesmo valeria para Megan Moroney, impulsionada pelo álbum “Cloud 9”, que chegou ao topo do Billboard 200, e para o Geese, banda de rock de Nova York que passou por grandes palcos ao redor do mundo, de festivais importantes ao “Saturday Night Live”.
“Essa categoria, em última instância, trata do impacto sobre a cultura”, afirma Zena White, diretora de operações da Partisan Records, gravadora do Geese. “Não deveria ser sempre uma questão de número de vendas, quantidade de streams ou volume de execução nas rádios, porque a cultura é muito mais complexa do que isso.”
Marchand observa que a Recording Academy também revisou a descrição da categoria. O texto deixou de buscar artistas que alcançaram “proeminência” e passou a procurar aqueles que obtiveram “impacto cultural e comunitário significativo na indústria e no cenário musical”.
Ao explicar a decisão de acrescentar um ano à janela de elegibilidade, a academia destacou a ideia de que o desenvolvimento de um artista é um processo em constante evolução, especialmente em um momento em que os ouvintes descobrem e consomem música de maneiras cada vez mais variadas.
Mais do que nunca, artistas podem precisar de mais tempo e de mais lançamentos antes de alcançar o nível de impacto previsto na nova descrição da categoria.
Não faltam exemplos desse perfil entre os artistas que disputam indicações neste ano. Slayyyter abriu shows para Charli xcx em turnê já em 2019 antes de finalmente alcançar maior projeção com o álbum de dance pop “Wor$t Girl in America”, lançado nesta primavera.
Don Toliver conquistou no início do ano seu primeiro número 1 no Billboard 200 com seu quinto álbum de estúdio. Sete anos depois de o single de estreia, “3 Nights”, aparecer na parada Bubbling Under Hot 100, Dominic Fike vive agora seu maior sucesso musical até o momento, às vésperas do lançamento de um novo álbum em outubro.
Já Role Model deu sequência a uma explosão viral em 2025, que aconteceu quase uma década depois do início de sua carreira, com sua primeira entrada no Hot 100, graças ao single “High Hopes 3000”, faixa principal de seu álbum mais recente.
“Sei, pela experiência de quase duas décadas trabalhando com desenvolvimento de artistas, que um artista nunca está realmente desenvolvido”, afirma White, rindo. “Estamos mudando como pessoas e, portanto, nossas emoções também mudam. A maneira como colocamos nossa linguagem no mundo e como as pessoas recebem isso também está mudando.”
A mudança nos critérios amplia consideravelmente o grupo de possíveis indicados em uma das categorias que se tornaram mais importantes da noite para os artistas, tanto no curto quanto no longo prazo.
Na última década, em particular, vencedores que estavam fora do universo pop tiveram resultados imediatos. Na semana seguinte à vitória de Chance the Rapper como Artista Revelação, em 2017, ele registrou 38,5 milhões de reproduções oficiais sob demanda de suas músicas, segundo a Luminate, um aumento de 103% em relação à semana anterior.
Samara Joy, cantora de jazz que levou o Grammy na categoria em 2023, registrou aumento de 343% nas reproduções semanais oficiais sob demanda. Seu álbum “Linger Awhile” também estreou no Billboard 200 e chegou pela primeira vez ao primeiro lugar da parada Jazz Albums.
Jamie Krents, presidente e CEO da UMe e da Verve Label Group, afirma que a vitória abriu “literal e figurativamente, muitas portas” para Joy, contratada da Verve.
“Coisas como oportunidades no cinema, uma enxurrada de artistas querendo fazer duetos com ela, grandes produtores querendo trabalhar com ela, fazer música para filmes e ofertas para atuar na Broadway”, relembra Krents. “Todo tipo de oportunidade que você imaginaria que esse tipo de prestígio poderia abrir, abriu.”
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Artistas com uma presença mais forte no pop e com seguidores consolidados antes da premiação também se beneficiam. Os streams de Roan e Dean aumentaram após suas vitórias, com altas de 70% e 39%, respectivamente, nas reproduções oficiais sob demanda na semana seguinte.
Mas, talvez mais importante, desde que o Grammy passou a incluir apresentações de todos os indicados a Artista Revelação na transmissão principal, há dois anos, o reconhecimento na categoria se tornou ainda mais valioso.
“São essas coisas que realmente impulsionam esses artistas”, afirma Eshak. “A indústria pode reconhecê-los porque temos uma perspectiva diferente da do restante do mundo. Mas hoje existem pouquíssimos eventos capazes de reunir uma cultura inteira. E o Grammy, pelo menos na música, é um deles.”
“Receber uma indicação e poder se apresentar é uma oportunidade incrível.”
White acrescenta: “Nosso trabalho como gravadora é pegar um artista e fazer com que ele alcance o maior número possível de pessoas. Você consegue fazer isso muito mais quando aparece no evento principal, de qualquer maneira”.
Além disso, à medida que a preparação para a maior noite da música fica cada vez mais cheia de eventos da indústria, os indicados têm oportunidades de literalmente entrar em salas às quais poderiam não ter acesso de outra forma.
A festa do Spotify dedicada aos indicados a Artista Revelação oferece aos concorrentes um palco adicional há uma década. Celebrações tradicionais, como o Clive Davis Pre-Grammy Gala e o MusiCares Person of the Year, também dão a alguns dos concorrentes outra plataforma de exposição.
“Uma indicação é, de certa forma, sua entrada para um fim de semana inteiro”, afirma Krents.
“Artista Revelação se tornou o que domina a semana”, diz Eshak. “Temos as grandes categorias que aparecem na transmissão, mas o que acontece nos bastidores é uma celebração dos novos artistas. Isso é incrível para o negócio porque nosso trabalho, como gravadoras que atuam diretamente com os artistas, é identificar, contratar e ajudá-los a chegar ao próximo estágio.”
Mas, à medida que a janela de elegibilidade da categoria aumenta, também cresce a ideia de que “novo” não está necessariamente relacionado apenas ao sentido temporal da palavra.
Nos últimos anos, os indicados incluíram Sabrina Carpenter, Jelly Roll e Khruangbin, todos artistas que já lançavam músicas oficialmente havia mais de uma década quando receberam suas indicações.
Também não existe um limite máximo de produção musical para determinar a elegibilidade. Na verdade, há apenas um mínimo: os artistas precisam ter lançado pelo menos cinco faixas ou um álbum para serem considerados.
Embora a indústria pareça, em geral, apoiar a mudança nos critérios deste ano, Krents acrescenta que caberá à própria premiação explicar adequadamente ao público como a categoria funciona.
“Acho que às vezes isso fica confuso para os fãs, porque eles podem pensar: ‘Como essa pessoa pode ser Artista Revelação se eu tenho três ou quatro discos dela?’”, afirma. “Mas a realidade é que as pessoas estão seguindo caminhos muito tortuosos até encontrar seu sucesso definitivo.”
Também não existem planos atuais para alterar o nome da categoria. Outras premiações, como o MTV Video Music Awards, o BRIT Awards e o Juno Awards, passaram ao longo dos anos por diferentes versões de títulos equivalentes, de “artista feminina mais promissora” e “artista masculino mais promissor” a “artista para ficar de olho”.
Para Marchand, porém, a força da marca construída em torno do nome atual é valiosa demais, mesmo que um termo como “revelação” ou “breakthrough” possa representar melhor o prêmio.
“O grupo de trabalho discutiu isso muito, muito, muito profundamente”, afirma. “Havia uma sensação, especialmente nas conversas com os criadores de música que puderam aconselhar o grupo de trabalho, de que Artista Revelação, como categoria, possui um significado e um valor específicos.”
“Ela representa o que significa alcançar esse nível de impacto, da maneira como ele é descrito agora, sem precisar alterar o nome da categoria. Havia um verdadeiro conforto em reconhecer que existe algo realmente significativo e icônico dentro da estrutura da nossa premiação.”
Esta matéria foi publicada na edição de 3 de outubro de 2026 da Billboard.
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].
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