‘JAŸ-Z in 8’: 11 revelações de Jay-Z nos primeiros episódios da série
Rapper conversa com Rick Rubin sobre Tupac, Biggie e 'The Black Album'

Jay-Z (Grosby Group)
Um dos principais elementos da obra de Jay-Z como rapper é a construção de narrativas por meio das letras. Mais de 30 anos depois do início de sua carreira, fãs continuam dissecando seus versos e encontrando novas interpretações. Agora, o próprio Hov participa desse processo ao lado de Rick Rubin na série documental “JAŸ-Z in 8”, já disponível na HBO Max dos EUA.
Uma première especial da produção foi realizada em 13 de setembro no Metropolitan Opera House, no Lincoln Center, em Nova York. O evento teve tapete vermelho e reuniu nomes como Jermaine Dupri, DJ Khaled, Fat Joe, Skylar Diggins e Neil deGrasse Tyson. Jay-Z também compareceu e conversou com veículos presentes na ocasião.
Questionado pela Billboard se havia sido difícil revisitar algum episódio de sua trajetória durante a produção, ele respondeu: “Nada foi difícil. Não foi difícil mesmo. Foi fácil. A conversa com Rick [Rubin] fluiu. Ele é supercurioso sobre a vida e a música. Compartilhamos o mesmo amor pela música. Foi uma conversa fácil”.
Na sessão, o público assistiu aos três primeiros episódios e viu Jay-Z aprofundar histórias por trás de músicas como “You Must Love Me”, “4:44”, “This Can’t Be Life” e “What More Can I Say”. Das críticas sobre o uso de versos de outros rappers à rivalidade entre The Notorious B.I.G. e Tupac Shakur, confira 11 pontos abordados nos primeiros capítulos de “JAŸ-Z in 8”.
1. Por que Jay-Z não leva a sério acusações de ‘roubar versos’
Jay-Z já abordou o assunto em “What More Can I Say”, deixando clara sua visão sobre usar versos de Biggie como forma de homenagear o rapper e o Brooklyn, bairro de origem dos dois. Na série, ele amplia a reflexão para o rap como um todo e argumenta que o gênero foi construído também a partir de referências e homenagens. Reaproveitar versos, reproduzir flows ou trabalhar com samples seriam diferentes maneiras pelas quais rappers reconhecem artistas que vieram antes deles. Para Hov, esse processo faz parte da própria linguagem do rap.
2. O que alguns veem como limitações de Tupac eram suas maiores forças
Durante uma das conversas com Rubin, Tupac Shakur entra em pauta. Jay-Z comenta a ideia recorrente de que Pac não estaria entre os rappers mais técnicos e apresenta outra leitura: justamente a crueza e a autenticidade de sua interpretação eram algumas de suas maiores qualidades. Segundo ele, Tupac conseguia partir de conceitos simples, como em “Dear Mama”, e transformá-los em músicas duradouras. Jay também questiona o hábito de avaliar o rap principalmente pela complexidade, defendendo que, muitas vezes, as ideias mais diretas são as que funcionam melhor.
3. Jay-Z planejava lançar apenas um álbum
O passado de Jay-Z no tráfico de drogas antes da fama já foi abordado diversas vezes ao longo de sua carreira. Na conversa com Rubin, ele conta que, naquele período, rappers chegaram a ser vistos como figuras pouco respeitadas por pessoas que ganhavam dinheiro nas ruas. Como o rap não era inicialmente seu principal plano profissional, Jay-Z pretendia lançar somente um álbum. O sucesso alcançado no fim dos anos 1990 mudou seus planos. Caso contrário, sua discografia poderia ter terminado em “Reasonable Doubt”.
4. Jay-Z vê ‘erros óbvios’ em ‘The Black Album’
Conhecido pela autoconfiança que atravessa boa parte de sua obra, Jay-Z também reconhece escolhas que hoje faria de maneira diferente. Uma delas envolve “The Black Album”, lançado em 2003 como seu então disco de “aposentadoria”. Para o rapper, “Encore” deveria ter sido o primeiro single, no lugar de “Change Clothes”. A faixa chegou a ser considerada para as rádios, mas houve divergência entre Jay e Kevin Liles, então presidente da Def Jam. Ele também acredita que “What More Can I Say” teria funcionado melhor como encerramento do álbum do que “My 1st Song”.
5. O streaming reduziu o peso da escolha de singles
A reflexão sobre “Encore” leva Jay-Z a discutir como o streaming alterou a dinâmica de lançamento. Para ele, a necessidade de “escolher” um single perdeu parte da importância. Um artista pode lançar um álbum inteiro e observar qual faixa conquista espontaneamente o público, inclusive uma música sem refrão tradicional capaz de chegar ao topo da Billboard Hot 100. Singles promocionais e faixas de trabalho continuam existindo, mas nem sempre são as músicas que acabam se destacando. Jay também considera que o streaming reduziu barreiras impostas por intermediários e ampliou o alcance do rap.
6. ‘Brooklyn’s Finest’ ampliou a maneira como Jay-Z compunha
A colaboração com The Notorious B.I.G. em “Brooklyn’s Finest” obrigou Jay-Z a encontrar novas soluções de composição. A produção seguia uma estrutura de quatro tempos, enquanto os dois rappers acabavam construindo trechos que exigiam adaptações para que as entradas funcionassem. Jay conta que escreveu conexões para indicar a Biggie os momentos corretos de entrar na música. Até então, ele também tinha pouca experiência escrevendo refrões, já que “Reasonable Doubt” recorria a outros artistas para essa função ou a estruturas mais simples, como em “Can I Live”. Jay afirma ainda que retirou do verso de Biggie uma referência a “Who Shot Ya” para evitar mais tensão com Tupac e a Costa Oeste.
7. A visão de Jay-Z sobre a rivalidade entre Biggie e Tupac
Segundo Jay-Z, Biggie e Tupac eram amigos próximos antes do rompimento entre os dois. Ele relata que Biggie desconfiava de algumas pessoas que passaram a integrar o círculo de Pac conforme a carreira do rapper crescia. Tupac teria contado a essas pessoas sobre a desconfiança, aumentando a tensão. Jay recorda ainda que Biggie chegou a evitar entrar em uma casa noturna com ele e Ty Ty porque alguns desses homens estavam no local. Após ser baleado em Nova York, Tupac responsabilizou Biggie pelo episódio. A relação se deteriorou e se tornou um dos conflitos mais conhecidos da história do rap. Jay-Z conta que, durante muito tempo, chegou a evitar viajar para a Costa Oeste por causa do clima criado pela rivalidade.
8. Instrumentos de corda despertam seu lado contador de histórias
Ao longo da carreira, Jay-Z trabalhou com diferentes produtores e estilos de instrumental. Algumas de suas músicas mais narrativas surgem quando ele revisita episódios do próprio passado. Na série, o rapper revela que instrumentos de corda costumam despertar sua vontade de construir esse tipo de faixa, funcionando como um gatilho para composições mais voltadas à narrativa.
9. O verso que Jay-Z considera uma das coisas mais conscientes que já ouviu
Ao falar sobre o próprio catálogo, Jay-Z destaca o refrão de “This Can’t Be Life”, parceria com Beanie Sigel e Scarface lançada no álbum “The Dynasty: Roc La Familia”, de 2000. A letra repete a ideia de que aquela realidade não poderia representar toda a vida, o amor ou o futuro de seus personagens. Para Jay, a simplicidade do refrão concentra diversas camadas sobre o estado mental em que ele se encontrava naquele período. Somada aos versos dos três rappers, a faixa ocupa um lugar especial em sua discografia.
10. ‘Eu corro em direção à pressão’
Mesmo após décadas de carreira, Jay-Z continua tratando apresentações ao vivo com atenção. Ainda assim, uma revelação feita na série chama atenção: ele costuma começar a reaprender as próprias letras apenas cerca de uma semana antes de subir ao palco. Diante de um catálogo extenso e da possibilidade de incluir músicas de surpresa no repertório, a estratégia cria uma pressão adicional. Para ele, isso funciona como combustível. “Eu corro em direção à pressão”, diz a Rubin.
11. As músicas que Jay-Z menos escuta
Dois momentos da sessão mostram Jay-Z menos confortável: as conversas sobre “You Must Love Me” e “4:44”. A primeira, lançada em 1997, aborda seu arrependimento pela maneira como tratou a mãe na infância, o episódio em que atirou no próprio irmão e sua relação com uma ex-namorada que o ajudava em transações de drogas. Já “4:44”, lançada 20 anos depois, é dedicada a Beyoncé e trata de sua infidelidade no casamento. Jay-Z afirma que são as músicas de sua discografia que menos escuta, justamente pela dificuldade de revisitar essas experiências. Ele valoriza ter alcançado o estado emocional necessário para escrevê-las, mas reconhece que ambas expõem algumas de suas versões mais vulneráveis.
“JAŸ-Z in 8” tem oito episódios e reúne Jay-Z e Rick Rubin em conversas sobre letras, experiências pessoais e processo criativo. Os dois primeiros capítulos estrearam em 18 de setembro nos EUA, com dois novos episódios previstos por sexta-feira até 9 de outubro.
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