Jota Quest homenageia Tim Maia em disco com ‘mais som, mais retorno, mais tudo!’
'Dance Enquanto é Tempo' será estreado na apresentação deles no Rock in Rio

Jota Quest homenageia Tim Maia (Divulgação)
O Jota Quest ainda se chamava J. Quest (em homenagem a Johnny Quest, lendário personagem do desenho animado) quando, em 1998, seus integrantes foram retirados do palco pelos seguranças do festival Planeta Atlântida.
Era uma apresentação de Tim Maia e os mineiros queriam conferir de perto o mestre da soul music brasileira.
“Deixa o pessoal do Jota Quest se divertir à vontade”, trovejou Tim que, profeticamente, acertou a nomenclatura pelo qual o quinteto mineiro de música pop, funk e soul seria chamado.
O afago do cantor carioca rendeu um papo rápido e a ideia de uma colaboração em conjunto, que nunca chegou a acontecer.
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No dia 15 de março daquele ano, Tim Maia morreu de falência múltipla de órgãos. Tinha 55 anos e uma trajetória marcada por “mais grave, mais agudo, mais retorno e mais tudo”. O sonho de trabalhar com o soulman, no entanto, nunca foi deixado de lado.
“Quando o Tim morreu, a gente ficou órfão. Tínhamos acabado de encontrar com ele no hotel”, diz o vocalista Rogério Flausino para a Billboard Brasil. “E desde aqueles tempos pensamos em criar um tributo para ele”, diz.
Pois, no dia 27 de agosto, o quinteto soltou “Jota Quest e Tim Maia: Dance Enquanto é Tempo”, que traz 15 releituras do papa do soul nacional e uma curiosidade: o funk “Seroma”, construído à base de depoimentos de Tim. Hoje, 6 de setembro, sobem ao palco do Rock in Rio, onde dividem os holofotes com Calvin Harris, Nelly, Black Eyed Peas e o Barão Vermelho.
Flausino e baixista PJ contam que a homenagem começou a ser gestada durante as férias – merecidas, diga-se – de “Jota25”, turnê que celebrou as bodas de prata do conjunto.
“Foram 300 shows em 30 meses de turnê”, lembra o vocalista.
Durante a parada estratégica, o baixista passou a fazer experimentos com o repertório de Tim Maia. Primeiro com “Estrela do meu Show”, uma canção que havia saído somente em compacto. Depois, “Acenda o Farol”, um dos sucessos do LP “Tim Maia Disco Club”, de 1978.
A partir das duas canções, o combo mineiro passou a selecionar e produzir músicas do repertório do cantor.
Um dos desafios iniciais foi ganhar o aval de Carmelo, filho de Tim Maia que cuida do espólio do cantor e compositor carioca. O Jota Quest tocou, então, “Acenda o Farol”, primeiro single do projeto, que traz vocais de Tim num dueto “sobrenatural” com Rogério.
“Ele [Carmelo] começou a chorar assim que escutou a canção”, diz o vocalista. “Inicialmente, a gente pensou que ele havia achado ruim, mas o Carmelo disse que foi uma das poucas vezes em que ele se emocionou com uma regravação de uma canção do pai”, conta Flausino.
Funk e pulgas
O repertório de “Dance enquanto é Tempo” coroa também as três décadas de lançamento do disco de estreia do conjunto.
Uma das pontas de lança do boom do pop mineiro nos anos 1990, eles se distanciaram de seus contemporâneos – por exemplo, Skank e Pato Fu – por fazerem algo mais ligado à black music. Com todos os predicados aos quais têm direito.
O Jota possui uma sólida seção rítmica – o baixista PJ e o baterista Paulinho Fonseca –, um guitarrista que alterna a munheca suingada com a postura de guitar hero (Marco Túlio), um cantor carismático (Rogério Flausino) e um tecladista de timbres elegantes (Márcio Buzelin).
“Nos seus trinta anos de carreira, podemos falar, com certeza, que o Jota Quest é o grupo brasileiro que melhor soube viver o hedonismo pregado pela música pop. São cinco cabeças diferentes, mas que caminham na mesma direção, sem que algum deles busque algum tipo de liderança”.
“Vivendo na estrada, ininterruptamente, por todos esses anos, a banda conseguiu público fiel com seu trabalho que une a canção popular à soul music brasileira dos anos 70. O trabalho com o repertório do Tim Maia, aprovado e acompanhado pela família, pode ser considerado uma volta ao começo, quando a banda chegou para animar a festa”, diz Fernando Furtado, ex-empresário do Skank e um dos primeiros entusiastas da musicalidade dos soulmen mineiros.
O disco de estreia do quinteto trazia, além de releituras de Tim Maia (“Dance enquanto é Tempo”, que, como Rogério bem definiu, é um “lado Z” do cantor) e Hyldon (“Dores do Mundo”), boas canções da própria leva do conjunto – caso do soul “Encontrar Alguém” e do funk “Há Tempo Tempo”.
Foram, aliás, tempos de dureza. “A van que levava a gente para o estúdio fazia bicos de transporte de animais. Um dia ficamos cheios de pulga”, entrega Rogério.
O Jota Quest representa também uma mudança de pensamento do showbiz mineiro daquele período.
Por muito tempo, o estado ficou conhecido pela melancolia e bucolismo das composições do Clube da Esquina.
Por mais históricas que fossem, elas deram a impressão de que todo mundo que surgia por ali fazia o mesmo tipo de som.
“A gente ia levar nossa fita demo e os executivos das gravadoras nos chamavam de montanha. Achavam que só sabíamos falar de cachoeira”, desabafou Samuel Rosa numa entrevista para a revista BIZZ, em 1994. Mas a nova geração tinha outras prioridades.
“A década de 1990 foi um período, culturalmente, fértil em Belo Horizonte. A influência do eixo Rio/SP perdeu força e, a cada mês, surgia um novo espaço de shows. Na primeira metade dos anos 90, tocavam 4 ou 5 bandas diferentes por fim de semana”.
“E uma característica que unia toda essa gente era a vontade de desenvolver e gravar material próprio. E, principalmente, em português. Enquanto isso, nos outros estados, tínhamos aquelas bandas cantando em inglês ou fazendo covers”, prossegue Fernando Furtado, que enaltece o entusiasmo da imprensa pelo novo som de Minas.
“Existia, fora de BH, uma vontade de conhecer o que estava sendo feito na cidade. [Os jornalistas] Sérgio Martins, Otávio Rodrigues, Carlos Eduardo Miranda, Lauro Lisboa Garcia, Pedro Só e Carlos Albuquerque abriram essa porta. Antes de vocês, ninguém tinha interesse no que estava sendo feito em Belo Horizonte”, elogia.

Botecos da esquina
A nova geração de astros mineiros, contudo, trazia outras referências: o punk, o pós-punk, a soul music e o rock brasileiro dos anos 1990, que se uniram às raízes do Clube da Esquina.
PJ, por exemplo, era um fã de rock pesado e da música gótica inglesa que se apaixonou pelo funk. Rogério Flausino foi educado com discos de MPB, mas na adolescência se bandeou para o rock nacional.
“Renato Russo, Cazuza e Lulu Santos se tornaram meus heróis”, diz.
Mas a cena belo-horizontina dos anos 1980 já havia dado os seus primeiros passos em direção contrária à de Milton Nascimento e companhia. Um dos principais grupos daquele período era o Sexplícito, de onde saiu o guitarrista John Ulhoa, do Pato Fu.
Isso sem falar do Sepultura, nossa capa desta edição, que não apenas consagrou uma nova maneira de se fazer heavy metal, como assumiu uma posição desafiadora em relação aos tradicionais autores mineiros.
“A gente um dia foi no Clube da Esquina, tomou uma cerveja e saiu para vomitar”, diziam os músicos (curiosidade: eles ensaiavam ao lado da casa de Lô Borges. Um dia a mãe do cantor ligou para o filho, dizendo que uns sujeitos estavam “matando a música”).
Belo Horizonte tem ainda outra particularidade. É a cidade com o maior número de bares do país, onde, na maioria deles, consome-se música ao vivo como poucas.
“Quando voltei à cidade [PJ nasceu em Belo Horizonte, mas foi criado em Brasília], pensei que estava na Disney. A noite era muito forte, tinha muito lugar para tocar. E o mineiro sempre gostou de música ao vivo”, diz PJ.
Uma tese reforçada por Henrique Portugal, ex-tecladista do Skank, que ainda lembra de como esses grupos garantiram uma audiência fiel.
“O público da capital mineira era apaixonado por bandas locais”, diz.
A estratégia de cativar os locais, aliás, não se resumiu a Belo Horizonte.
“O estado de Minas Gerais é muito grande, temos mais de 800 municípios. Durante os anos 1980, vários artistas do pop/rock nacional faziam e ainda fazem muitos shows pelo interior do estado. Isso acabou criando um circuito de casas noturnas para shows desse estilo de música, que existem há mais de 30 anos”.
“Quando chegaram os anos 1990, o ecossistema musical necessário para o desenvolvimento de uma banda estava montado. Locais de shows estruturados, rádios que tocavam esse estilo de música e um público do interior que consumia o que estava fazendo sucesso na capital do estado. Essa mistura ajudou o Jota Quest a ganhar experiência, musculatura financeira e se preparar para o sucesso nacional”, contextualiza Portugal.
O Jota Quest, frise-se, tem uma das apresentações de mais alto nível do pop nacional.
São diversos hits, que golpeiam a plateia em performances que às vezes passam de duas horas de duração – somente Lulu Santos e Skank chegam a esse nível de excelência.
“A melhor qualidade da banda é que eles são uma família. Dá para perceber isso o tempo todo, e essa consistência marca a trajetória deles”, diz Jerry Barnes, baixista do Chic, lendário grupo de funk/soul/disco que trabalhou em dois álbuns do Jota Quest: ”Funky Funky Boom Boom”, de 2013, e “Pancadélico”, de 2015.

O grupo tem ainda uma qualidade instrumental como poucas bandas do gênero no país.
Quem atesta isso é Paul Ralphes, produtor que trabalhou com eles no remix de “Encontrar Alguém” do primeiro disco e produziu quatro faixas de um projeto gestado em 2019 – mas que se limitou a quatro faixas por causa da pandemia.
“Como os 5 membros da banda são compositores, isso cria um ambiente em que todos ficam bastante envolvidos no processo de gravação”.
“A combinação mais soul/groove da rhythm section, junto com as guitarras e violões mais pop/rock e, obviamente, o timbre da voz do Rogério, criam a sonoridade distinta do Jota. A qualidade das composições e flexibilidade de trabalho como uma banda ao vivo, ou em cima de grooves mais programados são dois dos elementos mais fortes da banda”, comenta Ralphes.
A consistência e excelência musical que sempre marcaram a trajetória do quinteto se fazem presente em “Dance enquanto é Tempo”.
O disco marca a estreia de PJ na produção, sucedendo um time de hitmakers da categoria de Dudu Marote, Liminha e Paul Ralphes, entre outros. Uma escolha natural, visto que foi ele quem deu o pontapé no projeto ao trabalhar o repertório em sua casa, em Salvador.
“Eu disse: ‘Galera, não vamos chamar ninguém, porque já que está ficando legal, deixa o projeto fluir. E estava muito fácil de fazer as coisas: não houve um momento em que travou o baixo, a bateria ou guitarra”, jacta-se o baixista e agora produtor.
Uma das qualidades do disco é que ele não apenas honra o repertório do Tim Maia como posiciona a importância do Jota Quest na soul music brasileira.
Uma das provas está justamente na escolha dos convidados do disco – entre eles Tony Tornado (que cantou no trabalho de estreia do quinteto, de 1996), Thiaguinho, a rapper e cantora Negra Li, a vocalista Jamah, Mãeana (cujo vocal delicado abrilhanta “I Don’t Know what to Do with Myself”) e o saxofonista Milton Guedes, autor de um belo solo em “Rational Culture”.
“Eles são as pessoas certas para fazer esse trabalho, essa homenagem tem tudo a ver com a onda original deles. Então foi bom participar, principalmente desse clássico”, diz Guedes.
Há de se perceber também que o Jota Quest não se limitou a releituras ortodoxas, ainda que tenha mantido a pulsação soul/funk do cancioneiro original. Mas há um toque pessoal.
“Gostava Tanto de Você”, que era um soul com batida de samba, ganhou ainda mais esse acento “sambístico”.
“Descobridor dos Sete Mares” tem um trabalho excepcional de guitarra de Marco Túlio e um rap sob medida de Negra Li.
“Na hora que ela cantou o lance falando do Tim Maia, falei: ‘Que golaço, virou um hit’’’, comemora Flausino.
“Dance enquanto é Tempo”, mais que um tributo, celebra a tradição do soul nacional.
Escute “Dance enquanto é Tempo”, do Jota Quest
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