‘Queria tocar baixo como Steve Harris. Acabei escoltando meu ídolo’
Luís Justo, do Rock in Rio, e a missão de ajudar o dono do Iron Maiden

“Muito antes de me tornar CEO e hoje conselheiro de um dos maiores festivais de música do mundo, eu queria estar em cima do palco. Engenheiro de produção por formação, executivo por profissão e hoje conselheiro de grandes empresas, foi ainda adolescente que encontrei no heavy metal uma de minhas grandes paixões. E, como acontece com muitos garotos fascinados por música, ouvir não era suficiente. Eu queria tocar.
Escolhi o baixo. E havia uma razão bastante objetiva para isso: Steve Harris. Fundador, compositor e baixista do Iron Maiden, Harris era um dos meus grandes ídolos. Comecei a estudar o instrumento e não demorou até formar minha primeira banda, uma cover justamente do Iron Maiden.
O primeiro show aconteceu onde tantas histórias musicais começam: no colégio. Diante de algumas centenas de alunos no tradicional sarau do Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro, vivi pela primeira vez a sensação de subir em um palco e tocar para uma plateia. Naquele momento, seria difícil imaginar que música, palco e multidões continuariam presentes em minha vida décadas depois. Só que em uma escala e posição completamente diferentes.
A primeira banda deu lugar a uma segunda experiência, dessa vez autoral. A Horizon já representava um passo adiante. Entre os integrantes estava o vocalista Renato Tribuzy, que anos depois construiria uma carreira reconhecida na cena do heavy metal. Ao mesmo tempo, outra parte da minha vida avançava rapidamente. Eu havia entrado na faculdade de Engenharia de Produção na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e começava a enxergar um caminho profissional diferente pela frente. Até que, em algum momento, os dois mundos passaram a disputar algo cada vez mais escasso: tempo.

De um lado, ensaios, shows e a possibilidade de levar a música adiante. Do outro, a formação acadêmica e o desejo crescente de construir uma carreira ligada à gestão e aos negócios. Foi preciso escolher. Deixei a banda e, por algum tempo, parecia que aquela decisão também significaria deixar a música para trás.
Um longo caminho de volta ao palco
A carreira profissional avançou rapidamente. Depois de passar pelo mercado financeiro, cheguei à Osklen, onde me tornaria CEO ainda jovem, com apenas 28 anos. Foram 11 anos em uma trajetória que me levou a liderar a gestão de uma das principais marcas brasileiras de moda. Aquele adolescente que dividia seu tempo entre os livros de cálculo e o baixo havia definitivamente largado os estúdios e escolhido o caminho executivo. Até que a música reapareceu.
Em 2011, fui convidado por um headhunter a assumir a liderança executiva do Rock in Rio e estar ao lado de um dos meus ídolos, agora não mais da música, mas dos negócios: Roberto Medina. Era uma reconexão improvável. Em vez de voltar para a música com um baixo nas mãos, eu voltaria olhando para o palco de uma outra perspectiva.
Nos anos seguintes, minha trajetória esteve diretamente ligada à gestão de alguns dos maiores festivais de música do país, como Rock in Rio, The Town e Lollapalooza Brasil. O músico havia dado lugar ao executivo. A paixão, porém, continuava exatamente no mesmo lugar. E talvez nenhuma história represente melhor esse encontro entre os dois mundos do que uma noite de Iron Maiden no Rock in Rio.

“Não, não sou eu”
Décadas depois de aprender a tocar baixo tentando reproduzir as ferozes linhas de Steve Harris, eu tinha diante de mim uma situação difícil de imaginar quando adolescente.
O dia era 4 de outubro de 2019 e o Iron Maiden era headliner do festival. Steve Harris, obviamente, estava lá. Mas havia outro Harris naquele Rock in Rio: George Harris, filho de Steve, tocava com sua banda, The Raven Age, em um dos outros palcos do festival.
Pouco antes da apresentação, chegou à organização uma informação: Steve queria assistir ao show do filho. Eu me ofereci para levá-lo de carrinho de golfe até o backstage. O plano parecia simples: Harris poderia acompanhar a apresentação discretamente, protegido pela estrutura do festival, no backstage do palco da Rock District, onde a banda se apresentava.
Só que, ao chegar lá, o baixista não quis assistir de trás do palco. Ele queria ver seu filho tocando guitarra, como qualquer pai: no meio do público. Só que havia um pequeno problema. Naquele mesmo dia, cerca de 100 mil pessoas estavam no festival, e a maior parte delas era formada por fãs enlouquecidos, circulando com camisas do Iron Maiden e esperando justamente para vê-lo encerrar a noite no Palco Mundo.
Colocar Steve Harris no meio daquela multidão não parecia exatamente uma boa ideia do ponto de vista de segurança. Mas ele insistiu, dispensou o segurança, colocou um boné – como se fosse uma capa de invisibilidade – e saiu em direção ao público acompanhado apenas por mim. Caminhamos até o meio da multidão e ficamos em frente ao palco assistindo ao show.
Até que aconteceu o inevitável. Um fã passou pelos dois, olhou para Steve e parou. Olhou novamente e, por alguns segundos, parecia tentar resolver uma equação impossível: aquele homem era absolutamente idêntico a Steve Harris. Mas Steve Harris não poderia estar ali, no meio da plateia, como um mero mortal assistindo a um show de uma banda pouco conhecida em um palco secundário.
O próprio baixista percebeu a dúvida, olhou para o fã e simplesmente balançou a cabeça, como quem dizia: “Não. Não sou eu.” O rapaz aceitou a explicação e foi embora. Steve Harris continuou assistindo ao filho no meio da multidão e, ao lado dele, estava justamente aquele garoto que, décadas antes, havia decidido aprender baixo porque queria tocar como ele.
O garoto que um dia tocou Iron Maiden para algumas centenas de colegas no sarau do colégio acabou ajudando a colocar o próprio Iron Maiden diante de uma multidão. E, naquela noite, no meio do público do Rock in Rio, esse círculo se fechou de uma maneira ainda mais improvável.
Ao redor de mim e de Steve Harris, milhares de fãs vivendo justamente aquilo que eu havia escolhido como profissão proporcionar: encontros inesquecíveis através da música. Talvez eu tenha deixado minha banda para trás, mas a música, definitivamente, nunca me deixou.”
*Luís Justo é conselheiro, palestrante e membro do conselho administrativo do Rock in Rio
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