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Opinião: o debate sobre o público do Rock in Rio esconde um problema maior

Sensação de vazio se espalhou antes de se ter contexto; público foi de 700 mil

Rock in Rio 2026

Rock in Rio 2026 (Divulgação)

Enquanto o mosh pit do Bring Me the Horizon chegava até as áreas mais distantes do gramado, e o camarote reservado para famosos recebia, no lugar de celebridades, um robô de segurança, fotografado por curiosos, os vídeos que circularam nas primeiras horas do Rock in Rio 2026 mostravam outra coisa: espaços vazios, câmeras em punho e gente documentando a ausência.

A imagem virou pauta antes de virar dado. Os dados contam uma história diferente da versão viral. Só restaram ingressos para os dias 4, 5 e 13 de setembro, quando se apresentam Foo Fighters, Avenged Sevenfold e Twenty One Pilots. Os dias 6, 7, 11 e 12 esgotaram ainda na pré-venda e venda geral. Um festival de cem mil pessoas por dia pode ter um palco cheio e outro vazio ao mesmo tempo, dependendo do horário e de quem toca. Isso não anula o desconforto de quem filmou o gramado às seis da tarde. Só explica por que a sensação de vazio nasceu ali, na hora errada, e se espalhou antes de qualquer contexto. No balanço final, divulgado após o encerramento em 13 de setembro, a organização anunciou público total de mais de 700 mil pessoas ao longo dos sete dias, com 49% vindo de fora do Rio de Janeiro.

Rock in Rio

Rock in Rio
O vocalista da banda Twenty One Pilots no Rock in Rio 2026: público colado na grade é uma constante no festival (Reprodução/X)

O ponto nunca foi saber se o Rock in Rio esvaziou. Era entender por que a percepção pegou tão rápido, e o que ela revela sobre um mercado que, nos números que não viralizam, está longe de encolher. O mercado fonográfico brasileiro faturou R$ 3,958 bilhões em 2025, alta de 14,1%, e subiu para a oitava posição no ranking global da IFPI. O dinheiro na música brasileira está crescendo. Só não está necessariamente crescendo dentro de uma sala com paredes, luz e som ao vivo.

Aqui entra a primeira hipótese. Em 2025, o mercado regulado de apostas movimentou mais de R$ 36 bilhões no Brasil, com mais de 25 milhões de apostadores. Segundo o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), o mercado clandestino representa até 51% das apostas no país, movimentando cerca de R$ 40 bilhões por ano. Parte da imprensa especializada já levantou essa hipótese em outras coberturas do próprio festival: existe uma disputa de atenção e de orçamento entre dois tipos de estímulo.

Um pede presença física, deslocamento, fila, tempo contínuo, e devolve em troca uma experiência coletiva que não se repete. O outro pede um toque na tela e devolve resposta em segundos, sozinho, quantas vezes o dia permitir. Não é que uma dopamina seja mais válida que a outra. É que elas competem pelo mesmo bolso e pela mesma hora livre, e uma delas escala infinitamente, enquanto a outra depende de lotação física.

Mercado aquecido

Rock in Rio
Zaynara, Gaby Amarantos e Joelma no WME Awards 2025, realizado no BTG Pactual Hall (Mariana Smania/Divulgação)

A segunda hipótese é menos comentada e, para quem vive dentro do circuito, mais grave. Especialistas do setor descrevem os palcos pequenos e médios como o departamento de pesquisa e desenvolvimento da música ao vivo: é ali que o artista aprende a se apresentar, que uma base de fãs se forma antes de qualquer contrato grande, que o público aprende a comparecer. Ao mesmo tempo, São Paulo vive um ciclo de investimento inédito no topo dessa mesma cadeia. A Suhai Music Hall recebeu investimento próximo a R$ 100 milhões e tem capacidade para mais de 9 mil pessoas. O Mercado Pago Hall e o BTG Pactual Hall entraram na disputa por grandes nomes internacionais. O topo da pirâmide nunca teve tanto capital.

O problema é o que acontece embaixo. Um festival com a estrutura e o histórico do Rock in Rio absorve uma tarde de gramado vazio sem que isso ameace sua existência. Uma casa pequena não tem essa gordura. Uma terça-feira fraca, repetida algumas vezes, fecha a casa, e ela some sem virar notícia, sem vídeo, sem debate no X. Fecha uma porta, dispensa uma equipe, e desaparece do circuito antes que alguém perceba que ali também se formava público.

Formação de público

É esse elo que está sumindo: o caminho que levava um fã de uma casa pequena, com duzentas pessoas, para um hall novo, com nove mil, e, daqui a alguns anos, para o Rock in Rio, com cem mil por dia. Sem a base, o topo continua recebendo investimento, mas cada vez mais importando um público que já vinha formado em outro lugar, ou de outro tipo de estímulo.

Isso não é abstrato para quem administra um espaço pequeno. Na Bona, por exemplo, a ideia sempre foi fazer as pessoas se sentirem em casa, mas também dar ao artista o tempo e o palco para formar público antes de qualquer holofote maior, e assim manter a cadeia inteira de pé. Em 2025, a casa realizou 280 apresentações, com formatos acústicos como um dos carros-chefes. É um tipo de trabalho que não aparece em ranking nenhum, e talvez seja exatamente por isso que ele desapareça primeiro.

A pista do Rock in Rio esvazia por algumas horas e volta a lotar quando o horário nobre chega. A porta da casa pequena fecha uma vez e não abre mais. Entre essas duas cenas está o intervalo em que se decide se o Brasil vai continuar formando público, ou apenas consumindo espetáculo que já veio pronto.