Os últimos urros do Sepultura –alguns deles, no Rock in Rio
Grupo de thrash metal que revolucionou o gênero está em turnê de despedida

O quarteto brasileiro de thrash metal Sepultura (Rodrigo Simas/Divulgação)
No dia 26 de março de 2022, o trio inglês de rock progressivo Genesis fez sua derradeira apresentação na O2 Arena, em Londres. Ao final da performance, o vocalista e baterista Phil Collins anunciou para a plateia: “É isso aí, na semana que vem vamos todos procurar empregos decentes.”
Os integrantes do quarteto Sepultura, que anunciou sua turnê de despedida no dia 08 de dezembro de 2023, ainda não têm muita ideia do que farão da vida. Mas certamente a opção não inclui um emprego formal. O vocalista Derrick Green e o baterista Greyson Nekrutman – o “novato” do grupo, que entrou em abril de 2024 – estudam projetos musicais.
O baixista Paulo Xisto Jr. já toca ao lado do grupo americano Cultura 3 e quer passar mais tempo em sua cidade natal, Belo Horizonte, além de cuidar de seu bar em Amsterdã. Andreas Kisser, por seu turno, possui atividades que causam cansaço só de ouvi-lo falar.
O guitarrista do quarteto tem um conjunto paralelo, o De La Tierra, com o qual pretende dar continuidade; é criador do PatFest, festival que celebra a vida de sua ex-mulher, Patricia Perissinotto Kisser (que se foi em 2022, vitimada por um câncer), e que apoia causas ligadas a cuidados paliativos e conversas sobre o fim da vida; tem outro projeto no qual une música e artes plásticas; e ainda estuda violão com o virtuoso Douglas Lora.
“Quero me aprimorar no violão, estou estudando o estilo brasileiro”, diz Kisser, em entrevista exclusiva à Billboard Brasil.
O Sepultura se despede dos palcos no dia 7 de novembro, no Suhai Music Hall, em São Paulo, numa apresentação que tem como convidados especiais os grupos Metal Allegiance, Krisiun e Sacred Reich, além da presença de ex-integrantes como Jairo Guedz, que em 1987 saiu do quarteto e foi substituído por Andreas Kisser, e Jean Dolabella, baterista que integrou o grupo de 2006 a 2011.
“A ficha ainda não caiu, sabe? Temos alguns shows pela frente, quero aproveitar cada um deles”, diz Paulo Xisto Jr.
“Não tem motivo para melancolia, nem tristeza, porque a gente está fazendo justamente aquilo que planejou. São 42 anos de uma história única e fantástica”, completa Kisser.
E bota história nisso. Surgido em Belo Horizonte em 1984 pelas mãos dos irmãos Max e Iggor Cavalera (vocal/guitarra e bateria, respectivamente), o Sepultura é o maior nome da história do rock pesado brasileiro.
São alguns milhões de discos vendidos (os números são incertos) e participações em alguns dos maiores festivais de rock pesado ao redor do mundo, entre eles o Wacken Open Air, na Alemanha, o Download, no Reino Unido, e o Monsters of Rock, em Donington. Eles estão, ao lado de Carmen Miranda e Tom Jobim, entre as maiores referências do Brasil no exterior e são a principal influência de bandas celebradas como Slipknot, Korn e Gojira.
OS TIJOLOS DA SEPULTURA
A trajetória do Sepultura é uma combinação de talento, criatividade e, acima de tudo, perseverança. Quem os conhece desde o início da carreira lembra que mal tinham dinheiro para adquirir instrumentos decentes.
“Max cobria a guitarra com um cobertor porque não tinha condições de comprar um estojo”, diz Fernando Furtado, ex-empresário do Skank, que se lançou na música no mesmo período.
A formação inicial, além dos irmãos Cavalera, contou com o baixista Paulo Jr. (que se mantém firme até hoje) e Wagner Lamounier, que assumia as funções de vocalista e guitarrista. Ele foi então substituído por Jairo Guedz, enquanto Max cuidou dos vocais e da guitarra.
O line up com Max, Iggor, Paulo e Jairo lançou o EP “Bestial Devastation” (dividido com o Overdose) e “Morbid Visions”, que saíram em 1985 e 1986. Guedz largou o grupo pouco antes das gravações do que seria o segundo álbum “cheio” do Sepultura, “Schizophrenia”, de 1987.
Em seu lugar, entrou Andreas Kisser. Nascido em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, o músico passou a morar na casa dos irmãos Cavalera e sofreu um bullying básico dos novos amigos. Uma das diversões deles era colocar os pôsteres do Metallica, pelos quais Andreas tinha tanto carinho, de cabeça para baixo. Mas houve quem fizesse pior.
“O Borivoj Krgin, do site Blabbermouth, um dos nossos principais incentivadores, veio nos visitar. A gente fez um churrasco e ele, bebaço, rasgou dois pôsteres meus. Quase bati no cara”, lembra o instrumentista.
Max e Iggor Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Jr. tiveram uma trajetória ascendente e marcada por discos excepcionais: “Chaos A.D.”, de 1993, e “Roots”, de 1996, que mudaram a trajetória do heavy metal no mundo. Em 16 de dezembro de 1996, contudo, Max anunciou sua saída da banda. Ele não concordou com a não renovação de contrato do grupo com Gloria, que também era sua mulher.
A história do Sepultura pós-Max e posteriormente pós-Iggor (que saiu em 2006) é feita por momentos igualmente gloriosos. O americano Derrick Green estreou oficialmente como vocalista do quarteto em 15 de agosto de 1998. Sua entrada, óbvio, deu um novo direcionamento musical para o quarteto, até mesmo porque suas origens estão mais fincadas no punk rock do que no heavy metal.
“Quando se troca qualquer elemento de uma banda, ocorre uma mudança. O próprio Sepultura mudou muito quando o Andreas Kisser entrou”, diz o vocalista. “Creio que dei uma perspectiva diferente para o grupo, especialmente nas letras. Elas fogem dos temas de sempre e abordam certos assuntos sob um novo ângulo”, reflete Green.
“Todo mundo que entrou nessa banda mudou a banda. Quando eu entrei, mudou drasticamente. Quando o Derrick entrou, mudou drasticamente. Quando o Jean Dolabella entrou, mudou. Quando o Eloy [Casagrande, que substituiu Jean em 2011 e saiu nos primeiros meses de 2024] entrou, mudou. O Sepultura sempre foi isso”, completa Andreas. “O presente é feito com os ingredientes que você tem no momento. Não adianta você querer fazer um bolo de cenoura porque você tinha cenoura; agora você tem ameixa. Vou fazer um bolo de ameixa”, resume o músico.
Os discos dessa fase do Sepultura são grandiosos, muitos deles inspirados na literatura. O ponto de partida de “Dante XXI” é “A Divina Comédia”, obra-prima do escritor italiano Dante Alighieri. “A-Lex”, o disco seguinte, tem como tema o personagem de “Laranja Mecânica”, o sádico líder de uma gangue imaginada pelo escritor inglês Anthony Burgess — que, em 1971, virou um filme espetacular dirigido por Stanley Kubrick, com Malcolm McDowell no papel principal. “Quadra”, de 2020, é um disco conceitual e se tornou o álbum mais vendido deles desde “Against”, de 1998.
DRUMS BLOODY DRUMS
O quesito bateria merece atenção, visto que eles trocaram de socadores de bumbos, peles e pratos tanto quanto o Pearl Jam. Iggor Cavalera saiu em 2006, sendo substituído por Jean Dolabella; este, por sua vez, foi embora no final de 2011, dando lugar a Eloy Casagrande. Que trocou o Sepultura pelo Slipknot no início de 2024, sendo substituído por Greyson Nekrutman (isso sem falar em Roy Mayorga e Bruno Valverde, baterista do Angra, que fizeram substituições pontuais).
“É uma situação peculiar: não estava entrando apenas para aprender um repertório específico. Foi algo como: ‘Aqui estão 28 músicas de todas as fases da banda, porque estávamos celebrando toda a nossa trajetória’ ”, diz o músico. “Tive de me adaptar a três estilos de bateria diferentes”, detalha Nekrutman.
“Toquei com os melhores do estilo: Lars Ulrich, do Metallica, Charlie Benante, do Anthrax, Mike Portnoy, do Dream Theater. Cada baterista que entrou na banda trouxe alguma coisinha diferente. E a gente nunca chegou a falar: ‘Ó, você não pode fazer isso porque o Iggor não fazia isso’. Sempre deixamos muito aberto, muito espontâneo”, diz Andreas.
“Greyson trouxe uma pegada dele. Essa influência do jazz, ele improvisa bastante. Muda algumas coisas aqui, outras permanecem e assim vai”, resume Andreas (o baterista, por exemplo, cita as mudanças em “Choke”, onde faz uma batida diferente cada vez que toca a canção).
Nekrutman se adaptou que gravar vídeos tocando sucessos do samba e pop locais, entre eles “Cheia de Malícia”, do Raça Negra. “Eu estava morando em São Paulo e, sabe, ficava na casa de um amigo e ele dizia: ‘Hey, ouça isto, ouça aquilo.’ Eu escutava a música e pensava: ‘isso é demais’ ”, recorda o batera.
A GENTE TINHA MÚSICA
A entrada do novo integrante animou o Sepultura a gravar um novo repertório. Em 2025, eles participaram do 70.000 Tons of Metal, cruzeiro que traz algumas das principais atrações do rock pesado do mundo inteiro. O navio parte de Miami, passa pela Jamaica e finda sua viagem em Miami. Foi ali que eles tiveram a ideia de alugar o Criteria Studios, que viu nascer alguns dos principais discos da história do showbiz, entre eles “Hotel California”, dos Eagles, e parte da trilha de “Os Embalos de Sábado à Noite”, protagonizada pelos Bee Gees.
“A gente entrou no estúdio com umas demos que eu tinha, coisas que escrevi na pandemia. Entramos sem saber o nome do disco, nome de faixa, quando ia sair. Não tinha capa, não tinha nada, tinha música. Pô, foi a melhor coisa que a gente fez, cara. E ainda por cima foi financiado por nós, o projeto é nosso”, orgulha-se Andreas.
“The Cloud of Unknowing”, o tal disco, é composto de quatro canções, com autoria dividida entre os integrantes da banda. Mas “Beyond the Dream” tem co-autoria de Sérgio Britto e Tony Bellotto, dos Titãs. Derrick Green, contudo, é o sujeito por trás de muitas letras do EP – caso de “All Souls Rising”, a faixa de abertura.
“Uma das minhas maiores inspirações foi um livro que ganhei quando trabalhava em Nova York. Eu trabalhava como leão de chácara num bar. Meu chefe me deu um livro para ler, chamado ‘All Souls Rising’. Era sobre a revolução no Haiti. Foi algo intrigante, porque eu nunca tinha aprendido sobre isso na escola; eu simplesmente não sabia nada a respeito”, diz Green.
“Senti que havia uma união em torno do desejo de romper com os laços da escravidão e do colonialismo; e essa sensação era algo que, na minha visão, nós, como povo, deveríamos realmente abraçar coletivamente. E eu estava pensando nos EUA de modo geral – em como há tantas pessoas profundamente divididas, e em como isso impacta tantos outros lugares que enfrentam a mesma situação. Vemos pessoas assumindo posições radicais de esquerda e direita, perdendo de vista tudo o que temos em comum e as muitas coisas que queremos mudar”, completa o vocalista.
“As letras praticamente conversam uma com as outras. ‘Beyond the Dream’, a balada com o Sérgio e o Tony fala da com a finitude e a nossa história, porque fomos aonde nunca havíamos sonhado. ‘The Place’ fala dessa dessa retórica de novo, dessa narrativa de imigrantes tomando o lugar dos outros e não sei o quê, mais especificamente de imigrantes latinos que estão nos Estados Unidos e agora querem que fechem fronteira para não ir mais latinos”, enumera Andreas.
O PESO DO ROCK IN RIO
Uma das passagens do Sepultura antes da despedida será no Rock in Rio. Eles tocam no dia 5 de setembro e terão como companheiros de palco grupos como Avenged Sevenfold e Bring Me the Horizon. Um dos atrativos é que o setlist será baseado inteiramente na fase em que Derrick Green passou a integrar a banda.
“O Rock in Rio sempre abriu espaço para a gente fazer show único, especial, com Zé Ramalho, Les Tambours du Bronx, Orquestra Sinfônica Brasileira… E esse é mais um deles, de apresentar algo que só vai acontecer ali. É uma coisa que a gente nunca fez na nossa carreira: fazer só um setlist com as coisas desde que o Derrick entrou na banda. E está sendo sensacional”, resume o guitarrista.
O festival, aliás, foi uma das etapas da consagração do Sepultura. Eles debutaram em 1991, numa noite que teve ainda Megadeth, Judas Priest, Queensrÿche e Guns N’ Roses. Ali, foi também a primeira vez em que executaram “Orgasmatron”, releitura do clássico do Motörhead.
“O Sepultura sem o Rock in Rio não seria o Sepultura. Você pode estudar a vida inteira, mas se você não passar no palco do Rock in Rio, alguma coisa está faltando”, resume Andreas.
O período pós-Rock in Rio coincidiu com a carreira internacional. Mas, segundo Paulo Jr., às vezes a ficha demora para cair.
“Quando você vê seus ídolos te respeitando, a gente fala: ‘caralho, o negócio mudou, a chave virou’. Tocamos com Metallica, Black Sabbath, Yes…”, enumera. “A gente conheceu os caras do Rush pela primeira vez em 2003, no Brasil. Falei que tinha uma banda chamada Sepultura. Aí o guitarrista Alex Lifeson virou e falou: ‘caralho, vocês são famosos!’. Poxa, meu ídolo conhecia a minha banda!”, recorda, feliz.
O Sepultura rodou o mundo. “Eu acho que fomos a primeira banda a excursionar pela antiga Cortina de Ferro, fomos para lá em 1992. Ficamos duas duas semanas ou 20 dias lá dentro, viajando de trem, coisa que nem pensava, eu nem sonhava em acontecer”, recorda-se. Paulo lembra ainda que a vida de rockstar nem sempre é um mar de rosas. Principalmente na hora de experimentar a heterodoxa culinária de certos países. “Na China eu travei várias vezes. Vinha umas coisas esquisitas e eu recusava. Na Índia, o Jean não escutou a recomendação dos guias em comer nos locais em que diziam ser seguros e teve uma intoxicação.”
42 ANOS DE CARREIRA
As apresentações derradeiras do quarteto estão sendo gravadas. A ideia é fazer um pacote com disco e vídeo, com libreto e compilação das performances mais impressionantes. “Uma coisa meio “Alive”, do Kiss, que escutei muito”, comenta Andreas.
E como estão sendo os preparativos para os momentos finais? “Não estou pensando muito não. Estou de boa, tranquilo”, diz Paulo. “A ficha só vai cair de verdade depois, então estou tentando resolver da melhor forma possível. E curtir, né? A gente ainda tem uns dez shows aí pela frente”, completa o baixista.
“É uma maneira bonita de encerrar 42 anos de carreira”, completa Andreas. “Uma das coisas que mais me influenciaram foi o Cream [trio de blues rock que tinha Eric Clapton em sua formação], que fez uma turnê de despedida e avisou todo mundo. É uma atitude muito ética, resume o guitarrista.
Derrick Green, por seu turno, analisa o período em que ajudou a construir a história do Sepultura.
“Sou muito grato por termos nos mantido fiéis às nossas convicções e por muitas pessoas terem focado realmente na música da banda, em vez do drama em torno dela ou de outros elementos que não importam de verdade. É uma conquista enorme e algo de que nos orgulhamos muito”, emociona-se o vocalista. “Estamos vivendo o nosso melhor momento, o que torna muito difícil parar. Mas estou muito animado para reunir tudo isso enquanto criamos este último álbum com a ajuda de tantos fãs que estiveram lá e criaram aquela energia”, conclui.
O Sepultura pode estar dando adeus aos palcos, mas jamais será esquecido. E sobre os tais “empregos decentes”, uma curiosidade: na mais recente turnê européia, a música que tocava nos altos falantes após cada apresentação era “Easy Lover”, produzida por… Phil Collins!
[Esta matéria faz parte da 24ª edição da Billboard Brasil. Compre a sua revista aqui.]
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