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New Dance Order e os 25 anos de música eletrônica no Rock in Rio
Como o gênero passou de uma tenda para um palco de 22 metros de altura

Design do New Dance Order no Rock in Rio 2026 (divulgação)
Rock in Rio. 2001. Tendas foram colocadas na Cidade do Rock, num chão que misturava grama e terra. Uma delas já carregava na poeira o DNA do que se via nas pistas de dança pelo mundo afora. Era a raiz da música eletrônica sendo fincada no festival, cuja tagline era “Por Um Mundo Melhor”.

Dentro dessa poeira, não era possível ver, mas dava para sentir o PLUR, acrônimo para “Paz, Amor, União e Respeito”, conceito que surgiu na cultura rave e segue como um dos lemas do estilo de vida de quem frequenta a cena, em busca de uma comunhão.
Passados 25 anos, o Rock in Rio ainda dança em torno da mesma ideia. “Na música eletrônica existe esse lugar de cultura e de valores essenciais no mundo de hoje: pertencimento, conexão. Há, na pista de dança, um respeito às diferenças, uma cultura de paz, valores pelos quais, na minha visão, a música eletrônica se alastrou muito”, resume Claudio da Rocha Miranda Filho, curador artístico do palco.

O gênero continuou crescendo no festival daí em diante, marcando presença nas edições seguintes (2011, 2013, 2015, 2017), até chegar a 2019, quando pedia mais estrutura. “Já havia um amadurecimento grande do mercado, que demandava uma imponência maior, um gigantismo de palco, de estrutura, de storytelling”, explica o curador.
Na época, o público já circulava por experiências como Tomorrowland e Ultra no Brasil, e o próprio Lollapalooza vinha investindo pesado no seu palco eletrônico. “Foi o momento em que não dava mais para segurar, e trouxemos uma experiência à altura do Rock in Rio”, lembra. Nascia o New Dance Order, hoje na sua quarta edição, palco com 22,5 metros de altura, 56,5 metros de largura e uma tela gigantesca, com 502m² de painéis de LED.

O nome não é acaso. New Dance Order ecoa a “nova ordem mundial”, mas troca o mundo pela dança. Não é uma ordem imposta de cima para baixo: é a que nasce da pista, da conexão entre estranhos movendo-se no mesmo espaço. Além disso, faz de leve uma referência ao seminal grupo inglês New Order, um ícone da eletrônica dos anos 1980 até hoje.
“O melhor caminho para um curador é estar no espírito do tempo. Por razões como o meio de produção, a capacidade de capilarizar, de agregar outros gêneros, a eletrônica ficou muito forte e isso vem sendo representado até no Palco Mundo”, diz.
“A música eletrônica vem pelas entranhas, pela linguagem do mundo digital e tecnológico. Isso é natural para as gerações mais novas, Z e Alfa, mas há 20 anos não era assim. Colocando em perspectiva, é muito recente e é uma das razões pelas quais fizemos um estudo interno de algoritmos com as lideranças da empresa: a música eletrônica vem crescendo de forma expressiva em todos os estados. Isso começa a impactar o olhar dos executivos que tomam as decisões e os investimentos que chegam ao New Dance Order”, explica.

Os números confirmam a percepção de dentro do festival. Segundo o “Mapa da Música Eletrônica no Brasil”, estudo lançado pela União Brasileira de Compositores (UBC) em parceria com a Brazil Music Conference (BRMC), a música eletrônica brasileira ganhou relevância estratégica na indústria cultural e de entretenimento. Lá fora, o cenário é semelhante: dados da Luminate mostram que, entre todos os estilos analisados, a eletrônica foi a que apresentou maior expansão em 2026 nos Estados Unidos, com os streams sob demanda crescendo 18,9%.
Foi justamente pensando nesse zeitgeist que o New Dance Order estreou, em 2019, contando a história de um futuro distópico em 2085, dominado pela inteligência artificial, até que uma resistência humana passava a clamar por conexão real. Para construir esse universo visual, a curadoria recorreu a um estudo sobre os arquétipos de Carl Jung aplicados à experiência da rave: o Rebelde, o Celebrante, o Mago, a Tribo… todos ligados a pertencimento, transcendência e comunidade, contrapondo um mundo brutalista à força da natureza.
“Há uma camada de transcendência, de conexão, de ambivalência entre o eu e o outro, que é a eletrônica. Acho que isso torna mais viscerais esses valores que encantam e fazem a pessoa pensar: ‘entendi, estou aqui presente, pertencido, sou mais forte, quero melhorar o mundo, quero fazer melhor’”, reflete Miranda.

O crescimento do gênero também tem rosto brasileiro. “Sou de uma época em que a bandeirinha do artista internacional já dava um endosso: ‘olha, tem gringo no line-up’. Mas isso mudou de forma merecida. Assim como no surfe existe o Brazilian Storm, temos o nosso, muito bem representado, na música eletrônica”, diz o curador, citando o protagonismo brasileiro nos principais festivais e clubes da cena.
Por trás de todo esse crescimento, uma lógica cada vez mais estratégica: o line-up é planejado atento aos números de bilheteria dos maiores eventos do planeta. “As grandes bandas mais reconhecidas das últimas duas décadas já não resolvem sozinhas o jogo. Então é uma combinação de critérios, mas também há uma orientação de negócio por trás. Está muito mais no centro da estratégia da empresa do que ser apenas um ativo artístico isolado. A música eletrônica está no coração da estratégia do Rock in Rio, nesses 25 anos que comemoramos em 2026”, finaliza.
[Esta matéria faz parte da 24ª edição da Billboard Brasil. Compre a sua revista aqui.]
Ouça a playlist oficial da Billboard Brasil para o Rock in Rio
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