O Outkast dividiu o rap em antes e depois – e tudo começou no álbum de estreia
Estreia da dupla em 1994 mudou a forma como o resto dos EUA ouvia o rap do Sul

Outkast (Grosby Group)
O rap de Atlanta pode ser dividido em duas fases: antes e depois do Outkast. Antes da dupla, a cidade não tinha um lugar definido no mapa musical dos EUA. Quando o assunto surgia, muita gente simplesmente a colocava no mesmo balaio do resto do Sul.
Acima da linha Mason-Dixon, a fronteira que historicamente separa o Norte do Sul do país, o rap sulista não passava de música cheia de graves para rebolar, feita para tocar em clubes de striptease ou em churrascos animados. É claro que outros nomes ganharam projeção nacional, como o Arrested Development, com suas mensagens positivas, e os Geto Boys, com seus retratos sombrios da vida na periferia. Mas não era nisso que se pensava primeiro quando se falava do Sul.
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Então surgiu o Outkast.
A dupla foi formada na adolescência por dois amigos, Antwon “Big Boi” Patton e André “André 3000” Benjamin, ambos hoje com 51 anos. Os dois afiaram as rimas em batalhas no refeitório da escola e criavam músicas nas horas vagas. Chamaram a atenção do lendário coletivo de produção Organized Noize e assinaram com a gravadora LaFace Records em 1992.
O resto você já sabe. Vieram álbuns clássicos que ajudaram a redefinir o som da cidade mais populosa da Geórgia. Mas tudo começou com a estreia, “Southernplayalisticadillacmuzik”.
Lançado em 1994, o disco se empenha em mostrar que jovens negros de todo o país enfrentam os mesmos problemas e que gangstas e playas existem em todas as formas e estilos. Foi uma obra reveladora na época e segue potente mais de três décadas depois. O rap inteiro tem uma dívida com o Outkast.
Confira abaixo como classificamos as 17 faixas do álbum do Outkast.
17. ‘Club Donkey A (Interlude)’
A cultura dos clubes de striptease de Atlanta é lendária, mas em 1994 pouca gente fora da cidade a conhecia. Esta esquete curta dava ao ouvinte um vislumbre de como era frequentar uma das muitas casas noturnas famosas de lá.
16. ‘Flim Flam (Interlude)’
As esquetes do álbum se passam, em tese, em Atlanta, mas esta cena poderia acontecer em qualquer bairro periférico dos EUA. É aí que está a genialidade de “Southernplayalisticadillacmuzik”: dois jovens contando histórias que conectam com você, seja qual for o lugar que você chama de casa.
15. ‘Welcome to Atlanta (Interlude)’
O interlúdio reforça a ideia de que a Atlanta retratada pelo Outkast é diferente daquela vivida pela geração anterior. Um piloto de avião aponta lugares e figuras da cidade aos passageiros antes do pouso. Ele cita nomes que talvez fossem desconhecidos para quem não era da região, como a “Robbing Crew” e a notória R.E.D. D.O.G., unidade antidrogas da polícia de Atlanta cuja sigla vem de Run Every Drug Dealer Out of Georgia (algo como “expulse todo traficante da Geórgia”). Também aparecem nomes mais conhecidos do grande público, como a LaFace Records e o Organized Noize.
14. ‘True Dat (Interlude)’, Outkast
Antes de virarem Outkast, André e Big Boi usaram os nomes 2 Shades Deep e, depois, Misfits. Quando descobriram que o segundo já tinha dono, adotaram o nome que carregam até hoje. Mas o que ele significa? Segundo Big Rube, integrante da Dungeon Family, Outkast quer dizer Operating Under The Krooked American System Too Long (“operando sob o sistema norte-americano torto por tempo demais”). E, se você achava que significava outra coisa, Rube tinha umas palavras bem diretas para você.
13. ‘Peaches (Intro)’, Outkast
Seria de imaginar que um artista quisesse que a primeira voz de seu disco de estreia fosse a dele, mas não em 1994. Nas, hoje com 53 anos, e Notorious B.I.G. (1972-1997) abriram seus primeiros álbuns com introduções sem a participação deles, que apresentavam a proposta do projeto e a identidade de cada um. O Outkast seguiu o mesmo caminho. A introdução traz a voz de Dee Dee Hibbler, mulher de Ray Murray, cofundador do Organized Noize, convidando o ouvinte para um álbum “estiloso como uma corrente herringbone e justo como a bunda de um mosquito”.
12. ‘Player’s Ball (Reprise)’
Sleepy Brown, vocalista do Organized Noize, remixou o primeiro single do disco para criar uma versão ainda mais suave e com clima de player. É uma forma estranha de encerrar o álbum, e “D.E.E.P.” teria sido um desfecho melhor. Mas a gente nunca recusaria a chance de ouvir Brown cantando sobre uma batida mais leve de funk, aqui no sentido norte-americano do gênero.

11. ‘Funky Ride’
Praticamente uma esquete dentro do álbum, a faixa ajudou a apresentar Sleepy Brown ao grande público. Também mostrou a versatilidade do Organized Noize quando o coletivo tinha liberdade total para criar.
10. ‘Hootie Hoo’
Construída sobre uma linha de baixo simples e uma bateria de balançar a cabeça, a faixa deixa espaço aberto para a dupla entregar algumas de suas melhores rimas no disco. Não chega a ser uma “música” convencional, mas virou clássico cult entre fãs de hip-hop.
9. ‘Ain’t No Thang’
A faixa dá uma amostra dos refrãos grudentos que a dupla criaria mais tarde. Ao mesmo tempo, destoa de boa parte do álbum: Big Boi e André passam a música inteira detalhando as várias maneiras como pretendem roubar e matar seus inimigos.
8. ‘Call of Da Wild’
Sobre uma batida que sempre soou inspirada em Dr. Dre, hoje com 61 anos, metade do Goodie Mob (T-Mo e Khujo) ajuda o Outkast a listar as formas como as ruas levam os jovens a abrir mão do futuro em troca do crime.
7. ‘Claimin’ True’
O Outkast nunca foi um grupo de gangsta rap, mas nesta faixa a dupla chega perto, com histórias sobre bocas de fumo e facas escondidas na meia a caminho da escola. Ainda assim, a versão do Outkast para o reality rap tem várias camadas, já que os dois alertam o ouvinte sobre os perigos da vida descrita na música.
6. ‘Myintrotoletyouknow’
A verdadeira introdução do álbum começa com Big Boi avisando o pessoal da rua para andar armado. Enquanto isso, o Organized Noize faz jus ao nome com uma batida que é uma bela cacofonia. Nada de música para rebolar ou graves pesados aqui, apenas reality rap inteligente. André solta um dos versos mais famosos da carreira quando diz: “See that rap s–t is really just like sellin’ smoke/ If you got some fly shit, yo’ n—as gonna always toke/ Dope is not what I be slangin’ on this track”. Jaz-O usaria um sample desse trecho em “Rap Game/Crack Game”, de Jay-Z, hoje com 56 anos, faixa do álbum “In My Lifetime, Vol. 1” (1997). A influência do disco foi longe.
5. ‘D.E.E.P.’
O ingrediente secreto de “Southernplayalisticadillacmuzik” é a honestidade. Entre rimas de ostentação e ideias recicladas da Five Percent Nation, movimento religioso muito influente no rap da década de 1990, a dupla insere verdades que deixam tudo mais próximo da realidade. Os versos de André mostram até onde os dois estavam dispostos a ir em profundidade e crueza.
4. ‘Crumblin’ Erb’
O Organized Noize entrega aqui possivelmente a batida mais suave que tinha criado até então. Com Sleepy fazendo sua melhor imitação de Curtis Mayfield (1942-1999), o Outkast desacelera e oferece ao ouvinte uma visão panorâmica de seu mundo, com um baseado na mão.
3. ‘Southernplayalisticadillacmuzik’
Se “Player’s Ball” não tivesse sido imposta como primeiro single, a escolha seria esta. A faixa-título funciona como um manifesto da dupla, que explica e demonstra sua essência: rimas espirituosas e flows ágeis, produção com groove de funk e relatos da vida nas ruas de dois jovens que não são assassinos, mas que é melhor não provocar.
2. ‘Git Up, Git Out’
Clássico da Dungeon Family, a faixa junta o Outkast à outra metade do Goodie Mob, CeeLo Green, hoje com 52 anos, e Big Gipp. Eles trocam rimas sobre a luta para vencer na vida quando se é adolescente e há pouca ou nenhuma perspectiva além do tráfico. Um dos grandes trunfos do álbum é a capacidade da dupla de parecer ter decifrado a vida e, ao mesmo tempo, admitir que tudo ao redor estava uma bagunça completa.
1. ‘Player’s Ball’
A faixa saiu primeiro como música de Natal, numa coletânea festiva da LaFace Records. Big Boi e André deixam de lado as tradições natalinas para mostrar como os playas de Atlanta comemoram o aniversário de Jesus. Sleepy Brown desliza sobre a produção funky do Organized Noize, e a música chegou à 37ª posição do Billboard Hot 100. Como primeiro single do disco, foi a canção que levou o Outkast ao estrelato.
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].
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