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Péricles

Péricles (@dopamineblur)

Péricles canta Motown no Rock in Rio 2026: o improvável que parecia natural

Sambista de Santo André cantou Marvin Gaye, Stevie Wonder e Boyz II Men

Péricles provou que pagode e Motown bebem na mesma fonte. Ele subiu ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026 e fez o improvável parecer natural: um sambista de Santo André, no ABC Paulista, cantando Motown como se tivesse nascido em Detroit.

A ideia nasceu do meu amigo Zé Ricardo, VP artístico e curador do Rock in Rio, depois de ver Péricles cantando “Stand By Me” em outro show. Foi um lance de visão e sensibilidade — propor algo que nem a gente sabia que precisava. Quem acompanha a carreira do “Pericão” conhece bem esse lado soul, R&B e funk que sempre esteve nele.

O canto sofisticado, cheio de influências americanas, é uma das marcas registradas do cantor — não à toa, é conhecido como o “rei da voz”. A homenagem à Motown apenas colocou esse universo em primeiro plano, e o resultado surpreendeu até quem já esperava algo grande, como eu.

Péricles entrou confiante, vestindo uma capa estampada com os rostos dos grandes mestres da Motown, e abriu com “Ain’t No Mountain High Enough”, hino da soul music gravado em 1967 por Marvin Gaye e depois, em 1970, por Diana Ross. Ele atacou melismas e notas com uma propriedade que não se aprende da noite para o dia — é domínio de quem ouviu muito, conhece o repertório e tem intimidade com a linguagem.

Péricles
Péricles (@dopamineblur)

O setlist foi uma sequência de grandes hits: “I Want You Back”, “My Girl”, “How Sweet It Is”, “I Heard It Through the Grapevine”, “Cruisin'”, “Let’s Get It On”, “For Once in My Life”, “Superstition”, “Super Freak”, “All Night Long” (de Lionel Richie) e “ABC”. Um roteiro que percorreu diferentes momentos da música americana sem perder a coerência. O ponto alto para mim veio com “End of the Road”, do Boyz II Men — uma canção que eu amo e que me deixou completamente paralisado. Foi inesquecível.

A banda tinha pouco de samba e muito de soul: o baixo robusto de Jorge Ailton, os sopros, os quatro backing vocals liderados por Jany Rocha, construindo camas perfeitas para a voz de Péricles brilhar. O grande maestro e pianista Maurílio Piraçoara conduziu tudo com muita energia e precisão — músicos brasileiros interpretando um repertório americano com arranjos originais, muito bem tocados e com excelência. O PA estava impecável: limpo, com pressão e clareza. A parte técnica ficou à altura da parte artística.

Péricles também abraçou a estética do projeto. Depois de tirar a capa de herói, revelou um terno brilhante que reforçava ainda mais sua elegância. O figurino dele e da banda remetia aos grandes shows de soul dos anos 70.

Entre um “thank you”, um “clap your hands” e muitos “come on”, ele parecia completamente à vontade naquele universo, e fez questão de conduzir a apresentação toda em inglês, como um americano nato. Mas o que mais impressionou foi a entrega: Péricles sorria, dançava, interpretava, brincava com a plateia, que se emocionava e se surpreendia a cada nova música.

Havia também uma história importante por trás desse repertório. Péricles já contou que a trajetória da Motown — a gravadora que lançou grandes ícones negros da música americana e se tornou uma instituição — ajudou a inspirá-lo a criar o próprio selo. Ele fez questão de marcar essa ponte entre o pagode romântico dos anos 90 e o soul da Motown: “São linguagens diferentes, mas que compartilham influências, apelo melódico, letras românticas e uma vocação enorme para embalar histórias de amor”, disse.

Péricles
Péricles (@dopamineblur)

É justamente aí que o show ganha outra dimensão. Não se trata de um artista abandonando sua identidade para experimentar algo completamente diferente, mas de revelar, com mais liberdade, uma parte da identidade que sempre esteve ali. E a arte é isso: o artista experimentando, arriscando e se superando. Péricles aceitou uma proposta ousada, saiu do formato hiper popular pelo qual é mais conhecido e mostrou que sua voz e sua musicalidade cabem em muitos outros lugares.

Péricles entregou um show envolvente, bem feito, animado e muito bem dirigido. A conexão com o público, a escolha do repertório e a força da interpretação fizeram toda a diferença. Sem exagero, foi um dos melhores shows do Rock in Rio que já assisti em todos os tempos.

Agora fica a pergunta: quando sai a turnê “Péricles Canta Motown”?

Veja a opinião sobre o show de Péricles