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Entrevista: Rodrigo Ogi assume alter ego produtor em ‘Loopcínio Rodrigo, Vol. 1’

Rapper detalha experiência como beatmaker, pesquisa de samples e convite dos MCs

Rodrigo Ogi (Divulgação)

Rodrigo Ogi (Divulgação)

Rodrigo Ogi passou boa parte da carreira conhecido pela escrita, mas seu novo disco o coloca do outro lado da rima. Lançado em 16 de setembro, “Loopcínio Rodrigo, Vol. 1” é o primeiro álbum em que o paulista se apresenta integralmente como beatmaker. O trabalho reúne 16 MCs de diferentes gerações e regiões do país sobre beats produzidos por ele. Entre os convidados estão Aori, Elo da Corrente, Matéria Prima, Fleezus, Bia Hoffman, Thalin, SoulRa, Jota Ghetto e Janvi.

A produção, porém, não começou agora. Ogi conta que mexe com beats desde o início dos anos 2000 e chegou a produzir faixas do Contrafluxo e de “Crônicas da Cidade Cinza”, de 2011. A mudança foi de escala. Depois de voltar a se dedicar com mais intensidade à produção durante “Manual para não desaparecer”, álbum lançado com niLL em 2025, passou meses praticamente concentrado nos beats.

Ogi vira Loopcínio Rodrigo em novo disco

Loopcínio Rodrigo, nome escolhido para essa nova identidade junta o loop, matéria prima da produção baseada em samples, ao nome de batismo de Ogi e homenageia Lupicínio Rodrigues.

À Billboard Brasil, Ogi explica por que decidiu não rimar no projeto, discute a exposição de samples na internet, detalha sua curadoria de MCs, antecipa o segundo volume e conta como Loopcínio Rodrigo também estará presente em seu próximo álbum solo.

Billboard Brasil: Você já tinha experiências pontuais com produção, mas agora assina um trabalho inteiro como beatmaker. Como foi fazer um álbum inteiro apenas na produção?

Rodrigo Ogi: Eu já mexia muito no Fruity Loops desde 2001, 2002, numa época em que não tinha tutorial para nada. Você tinha que ir à casa dos amigos que tinham o programa, ficar lá o dia inteiro e voltar com anotações. Mas eu sempre fui meio preguiçoso quanto a isso.

Só que eu estava com vontade de fazer um trabalho todo feito por mim. Fiz o disco com o niLL no ano passado, “Manual para não desaparecer”, e ali entraram duas faixas que eu produzi. Desde setembro do ano passado, quando esse disco saiu, entrei de cabeça nesse lance de produção e beatmaker de novo. Fiquei praticamente até maio deste ano produzindo sem parar, horas por dia. Quando eu não tinha show e não estava com meu filho, ficava nisso. Não saía.

Imagino que seja como aprender uma nova língua…

Teve vezes em que fiquei 14 horas sentado aqui, nesse lugar de onde estou falando com você agora, fazendo isso. Pesquisando sample, cortando, vendo tutorial de como fazer alguma coisa e acrescentando nos beats.

Separei umas seis que realmente gostaria que estivessem no meu próximo disco solo, que vai sair no ano que vem, só que tinha várias outras aqui. Aí tive o estalo de convidar uma galera e fazer um disco como beatmaker. Pensei: “Acho que umas dez pessoas vão aceitar e está ótimo”. Quando vi, acabei fazendo 24 faixas, cara. Dividi em dois álbuns de 12. As primeiras saíram nesse volume 1 e as outras vão sair no volume 2 ainda este ano.

Em “Loopcínio Rodrigo”, você não assume o microfone. Por que era importante separar o MC do beatmaker neste projeto?

Esse disco eu só entrei como beatmaker. Não faço nada de rima. O povo ficou me pressionando: “Você não vai fazer nenhuma? Pelo menos uma?”. Eu falei: “Não. Nesse disco aqui vai ser só a minha parte como beatmaker e a curadoria dos MCs e das MCs que eu admiro”.

As pessoas fizeram as letras agora, nesses tempos atuais. Então os assuntos estão conversando com o que está acontecendo no mundo, mas essa parte não passa pela minha caneta. Nesse disco eu quis entrar só como beatmaker mesmo.

O nome “Loopcínio Rodrigo” evidentemente parte de Lupicínio Rodrigues, mas também transforma o “Lupi” em “loop”. Como essa referência chegou à identidade que você pretende usar como produtor?

Eu conheci Lupicínio Rodrigues acho que no final dos anos 1990, quando comecei a pesquisar música mesmo. Até então, na minha adolescência, eu era muito vidrado só em rap. Rap era o que existia na minha vida. E o nome Lupicínio sempre me soou muito bem. Nunca tinha ouvido outro nome daquele. Ele sempre ficou me rondando ali, a imagem dele, o nome. Eu estava procurando um outro nome como beatmaker, tinha pensado em alguns, mas não achava nenhum tão bom.

Um dia pensei em Loopcínio, como loop, de cortar loops, que é o lance do sample e de produzir, e Rodrigues. Aí um amigo meu, acho que foi o Matéria Prima, falou: “Por que você não usa Loopcínio Rodrigo, já que você chama Rodrigo?”. Surgiu esse nome e agora vou adotar como beatmaker para sempre. Até no meu próximo projeto, em que vou produzir e escrever, vai ser a minha escrita com a produção do Loopcínio Rodrigo.

No disco existe uma crítica ao chamado “X9 de sample”, quando a alguém expõe a origem de um trecho. O que você pensa dessa prática, Ogi?

Eu nunca usei WhoSampled. Quando descobria algum sample, era nessa pesquisa sobre música. Eu escutava e falava: “Nossa, fulano usou essa faixa. Olha que legal”. Tanto no rap norte-americano quanto no rap nacional. E guardava aquilo. Isso é muito legal porque, quando você tem essa sede, acaba conhecendo um monte de música e fazendo essas descobertas.

O grande lance de ficar caguetando sample é que isso pode ser prejudicial, principalmente para o artista independente. Você vai lá e mostra o sample que o artista independente usou; a gravadora vem atrás. Isso já aconteceu comigo. Tive que dar 80% da música. Não teve acordo. Até aliviaram um pouco porque viram que éramos artistas independentes, mas mesmo assim 80% da música foi para eles porque usei um sample que foi flagrado.

Ninguém está dizendo que quer usar o sample de graça. Mas seria interessante que existisse uma negociação justa e mais fácil para que isso acontecesse.

Ogi, a seleção de vozes do álbum aproxima artistas de diferentes gerações. Como você construiu essa curadoria e de que maneira ela se relaciona com sua própria pesquisa sobre o rap brasileiro?

Todos os artistas que estão nesse projeto estavam muito no meu radar. Eu estava vendo o que eles estavam fazendo. Alguns me chamaram a atenção agora e outros eu já conhecia de longa data, já tinha feito coisa junto. Procurei mesclar uma geração mais antiga com uma geração mais atual. Todo mundo que está nesse trabalho é gente cujo trabalho eu estava acompanhando de perto.

O Aori, por exemplo, nunca parou de fazer música. Existe uma coisa de a gente ter uma percepção muito a partir das nossas bolhas. Eu acompanho praticamente tudo o que acontece no rap. O Aori está lançando coisas há bastante tempo e lançou disco este ano também. Gostaria de ter contado com mais pessoas, mas pensei: “Não vai dar”. Então vai ter volume 3, volume 4. Já tenho várias outras pessoas no radar que quero convidar.

Você já concluiu também as 12 faixas do segundo volume. O que pode adiantar sobre a continuação de “Loopcínio Rodrigo”?

O volume 2 tem Kamau, Rashid, Rodrigo Brandão, Janvi, que estava no primeiro e também está no segundo, Marina Peralta e Majis.

A Majis é uma menina muito talentosa. Um dia um amigo meu postou um vídeo de um show em Maringá. Olhei e falei: “Mano, quem é essa menina? Olha o que ela está fazendo no palco, olha a presença dela”. Aí ele falou que era a Majis. Fui atrás, fiz o convite e comecei a conhecer o trabalho dela. Ela é excelente.

Ao mesmo tempo, você prepara um novo disco de Rodrigo Ogi para 2027 com produção de Loopcínio Rodrigo. Como pretende fazer essas duas identidades se encontrarem?

Eu já escrevi o roteiro desse disco todo. Agora estou roteirizando as faixas. Decidi fazer dessa maneira, anotando todas as ideias que quero que estejam nas músicas e fazendo uma conversar com a outra.

Não posso falar o nome do disco ainda, porque já tenho na cabeça, mas vai ser esse meu lance de storytelling, contando toda a trajetória. E, dessa vez, todo produzido por mim. Então vai ser isso: a minha escrita com a produção do Loopcínio Rodrigo.

“Loopcínio Rodrigo” também recupera skits e uma ideia de álbum construído como unidade, justamente quando o streaming estimula o consumo isolado de faixas. Manter essa estrutura é também uma forma de resistir à lógica atual do mercado, Ogi?

Sim. Eu sempre amei essas coisas de skit, de interlúdio. Nesse disco eu já estava com muitas funções, então falei: “Cara, já estava tendo essas conversas com o Ronald Rios, e ele é muito bom nisso. Faz isso para mim, escreve essas skits”.

Ele veio lindamente e vai fazer também as do volume 2. Aí puxei a minha veia de dublador para fazer vários personagens, convidei algumas pessoas próximas para dar uma força com outras vozes. Acho superimportante porque traz uma atmosfera a mais para o disco, cria uma ligação e deixa ele mais coeso. O Ronald ouviu o álbum já mixado, propôs o conceito e escreveu os skits.

Isso se perdeu completamente. Se você olhar os skits, na maioria das vezes eles vão ter poucos views. Mas acho importantíssimo que tenham. Mesmo que o mercado esteja dessa maneira, prefiro trabalhar ainda desse jeito, de forma coesa. Procuro não seguir muito as tendências. “Ah, mas aí o disco acaba não chegando tanto.” Uma hora vai chegar, o público vai conhecer. Prefiro isso a me adequar a muitas coisas que são feitas. Então esse lance dos skits vai aparecer muito ainda nos meus discos. Não vou deixar de fazer nunca.