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SD9 homenageia Ronaldo em ‘Fenômeno’ para cantar a própria volta por cima

Em novo álbum, rapper usa a recuperação de R9 como metáfora de vida

SD9 usa Ronaldo como inspiração no álbum ‘Fenômeno’ (Divulgação)

SD9 usa Ronaldo como inspiração no álbum ‘Fenômeno’ (Divulgação)

Em 2002, SD9 tinha 10 anos, morava em Bento Ribeiro, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e acordava cedo para a Copa do Mundo do Japão. Na sua vida particular já havia um Ronaldo, seu pai. Na televisão, outro Ronaldo, o R9, voltava de uma sequência de lesões para marcar oito gols e trazer o pentacampeonato para o Brasil.

Foi naquele Mundial que o moleque virou fã. Vinte e quatro anos depois, essa história reaparece em “Fenômeno”, segundo álbum de estúdio do rapper, lançado em 22 de setembro pela Exódia Entertainment. A data também carrega sua pequena superstição: Ronaldo Nazário nasceu no dia 18 de setembro de 1976, mas foi registrado quatro dias depois, no dia 22.

“Quando vejo ele ganhar a Copa do Mundo depois de todo mundo ter falado que ele não ia nem voltar mais a jogar bola, eu viro realmente fã do Ronaldo”, conta SD9 à Billboard Brasil. “Para mim, esse é o herói. Não é o Superman. É ele.”

O futebol sempre foi terreno fértil para a música brasileira. Jorge Ben Jor povoou sua obra de centroavantes, camisas 10 e gols de placa em faixas como “Fio Maravilha” e “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”. O Skank transformou o sonho de jogar bola em “É Uma Partida de Futebol”. Em 2006, Marcelo D2 escreveu com Bruno Meriti “Sou Ronaldo”, homenagem encomendada ao mesmo Fenômeno, por exemplo.

SD9 entra nessa linhagem. “Fenômeno” acompanha o caminho entre a lesão e o retorno. No lugar do tendão rompido do centroavante, o rapper coloca feridas acumuladas em três décadas de vida: relações interrompidas, amigos perdidos, violência, machismo, impulsos que aprendeu a reconhecer tarde.

A Copa do Mundo, dentro dessa narrativa, deixa de ser uma taça. É chegar ao outro lado com alguma compreensão sobre o homem que se tornou.

“Eu trago a lesão do joelho para a minha vida e trago a Copa do Mundo para a minha vida também. A Copa do Mundo é você conseguir se entender como um homem na sociedade que você vive, entender o bairro em que você cresceu, por que a rua te moldou daquele jeito.”

De Bento Ribeiro a Bonsucesso

Há geografias que ajudam a explicar essa escolha. Ronaldo cresceu em Bento Ribeiro. SD9 passou parte da infância no mesmo bairro e assistiu ali ao Mundial que transformaria o camisa 9 em seu ídolo definitivo. Pouco depois da Copa, mudou-se com a família para Bonsucesso, na região da Leopoldina. É esse o lugar que ele aponta quando precisa responder de onde veio.

Foi onde fez os amigos que ainda mantém, aprendeu a circular sozinho pela rua e viu de perto tráfico, prisão e violência. Também foi onde comportamentos que hoje questiona pareciam fazer parte da ordem natural das coisas.

“Foi aqui que eu aprendi a ser sujeito homem”, diz. “Foi aqui que eu perdi amigos, que eu vi a violência, o tráfico, a maldade do ser humano. Eu sou cria daqui.”

Durante muito tempo, essa experiência chegou às músicas sem pedir licença. Em “40°.40”, SD9 levou para o disco uma escrita mais crua, próxima da temperatura da rua que descrevia. Em “Fenômeno”, ele continua olhando para o mesmo território, mas mudou o lugar de onde observa. Aos 34 anos, começou a perguntar o que aquela educação deixou nele.

A resposta não é confortável. O disco passa por machismo, sexo, agressividade e pela dificuldade de mostrar fraqueza. SD9 se recorda das relações que perdeu e de situações em que reagiu como havia aprendido a reagir. Também pensa nos amigos que tiveram destinos diferentes do seu.

Um deles, citado no álbum, morreu antes dos 30 anos. Pouco antes, havia dito ao rapper que não queria ser preso novamente. A lembrança atravessa a conversa quando SD9 tenta explicar por que já não consegue escrever exatamente como escrevia.

“Teve um momento em que eu virei e falei: ‘Está tudo errado’. Crescemos errado. Perdi várias mulheres maneiras por causa disso, perdi oportunidades, me queimei com pessoas porque eu era explosivo. Tudo por causa de uma mentalidade de ignorância.”

Não há no discurso uma conversão instantânea. Ele próprio rejeita a ideia de posar como exemplo de homem “desconstruído”. Conta que fez terapia, que pretende voltar e que a música colocou diante dele pessoas, ideias e ambientes que não conhecia quando era adolescente. Filmes como “Cidade de Deus”, “Cidade dos Homens”, “Carandiru”, “Estômago” e “Moonlight” também entraram nesse processo de observar de fora situações que conhecia por dentro.

Essa distância aparece em “Fenômeno”. SD9 continua reconhecendo os códigos da rua (e deixa claro que eles ainda fazem parte de quem é), mas já não quer que sejam a única resposta possível.

“Hoje eu quero passar outras paradas para as pessoas. Quero que o menor entenda. Eu vi muitos amigos não mudarem. Hoje eu sou um artista. Minhas referências são artistas de profundidade e eu também busco ser um artista de profundidade.”

 

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Quando o MC olha pela janela da primeira classe

SD9 conta uma história recente para medir a distância percorrida. Na volta de Londres, pegou um voo de primeira classe, com conexão em Dubai. Bebeu champanhe durante a viagem, viu caviar passar pela cabine e aproveitou uma experiência que, até pouco tempo atrás, parecia pertencer à vida de outras pessoas.

Em algum momento, no entanto, pensou em Bonsucesso.

“Eu estava ali ouvindo música, comendo, bebendo, mas a todo tempo lembrava daqui”, conta. “Tem gente que nunca vai ter acesso a isso que eu estou tendo. Nunca.”

A cena poderia caber numa música de ostentação. Na memória de SD9, virou incômodo. O rapper que viajava entre Londres, Dubai e Rio era o mesmo que acabara de passar anos escrevendo sobre pessoas que permaneceram no bairro, sobre um amigo que morreu jovem e sobre as circunstâncias que separam uma trajetória da outra.

Doc McKinney entra em campo

A mudança de perspectiva pedia outra sonoridade. SD9 voltou a trabalhar com CESRV, parceiro de uma trajetória construída em torno do encontro entre grime e funk, mas começou as sessões com uma espécie de proibição: o novo álbum não deveria soar como “40°.40”. Tampouco poderia se acomodar na fórmula que os dois já dominavam.

As gravações passaram por dois períodos de imersão, no fim de 2025 e em meados de 2026. A ambição era conservar o público que acompanhou SD9 na cena do grime brasileiro e, ao mesmo tempo, abrir as janelas. Surgiram refrões mais melódicos, referências a piseiro e arrocha e citações à música brasileira, entre elas Jorge Ben Jor e Djavan.

Nesse processo, um produtor acostumado a trabalhar em outra escala entrou em campo. Doc McKinney, colaborador de longa data de The Weeknd, tornou-se amigo de SD9 depois de conhecê-lo no Brasil.

O canadense tem créditos em “House of Balloons” e “Thursday” e foi produtor e produtor executivo de “Starboy”, trabalho que venceu o Grammy de melhor álbum urban contemporary em 2018.

Em “Fenômeno”, McKinney não ocupa a cadeira de produtor. SD9 o descreve como mentor: alguém a quem mostrar as faixas, ouvir sugestões e permitir interferências na hora em que uma música parecia pronta.

“Malícia” guarda um bom exemplo. A canção levou SD9 a um tipo de gravação vocal que ele pouco havia experimentado. McKinney ouviu e pediu mais. Vieram novas vozes, novas camadas e outras tomadas.

“Ele foi meio que um mentor para mim nessa fase de criação. Deu os toques finais na gravação. Em ‘Malícia’, eu gravei não sei quantas vozes porque ele me fez gravar muitas vozes. Eu nunca tinha feito uma música pop nesse sentido, quando o bagulho é realmente feito para ser pop.”

Não se trata de abandonar os fãs e o respeito que ele tem na cena do grime, mas de descobrir até onde SD9 pode ir. O próprio rapper usa uma pergunta provocativa no álbum: que MC ele precisa ser para virar milionário? A resposta sonora passa por mostrar que sabe fazer uma música mais acessível sem vestir a fantasia de outro artista.