‘The Blueprint’, de Jay-Z: as 15 faixas classificadas
Veja análise de um dos discos mais importantes do hip-hop

Jay-Z (Grosby Group)
Nunca consegui me identificar com as pessoas que dizem ter ido à loja comprar “The Blueprint”, de Jay-Z, no dia em que as Torres Gêmeas caíram, 25 anos atrás. Isso porque eu já havia comprado o álbum um dia antes, na segunda-feira, 10 de setembro, na Eclipse Records, no centro de Paterson, Nova Jersey.
Infelizmente, a loja não existe mais, mas eles eram conhecidos por vender álbuns muito aguardados um dia antes do lançamento oficial; bastava entrar e perguntar se já tinham em estoque o projeto específico que você queria.
Lembro-me de entrar no carro imediatamente e colocar o CD para tocar, sem nem engatar a marcha, até que a faixa “U Don’t Know” tivesse explodido minha cabeça.
Passei o resto daquele dia com amigos, ouvindo o álbum várias vezes — especialmente porque era a primeira vez que ouvíamos o restante de “Takeover” depois que ele havia apresentado uma prévia no Summer Jam, no início daquele ano, passando para outra música logo após citar o nome de Nas. Sua decisão de declarar guerra ao rapper do Queens desencadeou “Ether”, mas, antes que pudéssemos chegar a esse ponto, o mundo parou logo no dia seguinte por outros motivos.
Quando acordei na terça-feira, 11 de setembro, pensei que iria para a aula na faculdade comunitária local, durante a minha primeira semana como calouro. Entrei na cozinha e vi minha avó, que morava no segundo andar, lavando a louça nervosamente, enquanto a TV na sala estava ligada no noticiário.
Quando ela me viu, disse que alguém havia bombardeado as Torres Gêmeas. De certa forma, não dei muita bola e disse que aquilo era notícia velha, pois terroristas já haviam bombardeado as Torres alguns anos antes. Mas então entrei na sala e vi a fumaça saindo do primeiro prédio atingido; enquanto eu estava ali assistindo à cobertura ao vivo, vi o segundo avião se chocar contra a outra torre.
Passei o resto do dia conversando com a família e os amigos sobre o que havíamos testemunhado e ouvindo aquele álbum. Às vezes, esqueço o quanto esse projeto específico está entrelaçado àquele dia. É uma prova de como coisas como a música podem ajudar você a escapar das duras realidades do mundo.
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“The Blueprint” é a obra-prima de Jay-Z. Se fosse lançado em 2026, todas as músicas entrariam no Top 40. É o projeto de Jay-Z que mais se aproxima de “Thriller”, de Michael Jackson, pois qualquer faixa do álbum poderia ter sido um single. Naquela altura, o rapper do Brooklyn já havia conquistado o mainstream e estava ávido para ser coroado o “Rei de Nova York” — título que, na época, equivalia a ser o Rei do Rap.
Com este projeto, ele não apenas consolidou sua posição, mas assumiu o trono, mesmo tendo acabado por perder a disputa contra Nas. Independentemente do que você pense sobre “Jigga Man”, é preciso reconhecer que este não é apenas um dos álbuns mais decisivos de sua carreira, mas também um dos mais fundamentais da história do rap. O disco desencadeou sua rivalidade com Nas e, essencialmente, nos apresentou Ye (anteriormente conhecido como Kanye West), responsável pela produção de algumas das faixas mais impactantes do álbum.
Para celebrar seu 25º aniversário, classificamos todas as faixas de “The Blueprint”. Confira nossas escolhas abaixo.
Ouça ‘The Blueprint’ de Jay-Z
15. “Jigga That N—a”
Produtor(es): Trackmasters
Se fosse lançada hoje, essa música seria um single com um videoclipe bem produzido e chamativo. Ela tem a cara das rádios — e, embora alguns fãs torçam o nariz para ela, a faixa bombou durante a apresentação dele no Yankee Stadium. Eu estava lá, cantando com todo mundo. No entanto, admito que essa música é meio irrelevante no panorama, e são faixas como essa no “Blueprint” que me fazem colocar “Reasonable Doubt” em uma posição mais alta na minha lista pessoal de álbuns do Jay-Z.
14. “Izzo (H.O.V.A.)”
Produtor(es): Ye (anteriormente Kanye West)
O JaJay-Zy usando a camisa do Sprewell no videoclipe continua sendo icônico, mas eu enjoei dessa música ao longo dos anos. Consigo apreciar o sample do Jackson 5 e o apelo contagiante da canção, mas, às vezes, eu pulo essa faixa. Eles também passavam o clipe o tempo todo na TV; talvez seja por isso que eu geralmente não dou muita bola para ela.
“Izzo” foi o primeiro single deste projeto e o primeiro sucesso de Jay-Z a entrar no Top 10 da Hot 100 como artista principal — além de ter sido a grande estreia de Ye como produtor. Então, não quero simplesmente descartá-la, mas é assim que me sinto em relação a ela.
Mas ele manda muito bem nessa faixa. Ele nos deu frases memoráveis, como:
“Use to dribble down in V.A.” (Costumava driblar na Virgínia), “Show ’em how to move in a room full of vultures/ Industry shady, it need to be taken over” (Mostre a eles como agir numa sala cheia de abutres / A indústria é suja, precisa ser tomada), “I’m overcharging n—as for what they did to the Cold Crush” (Estou cobrando caro dos caras pelo que fizeram com o Cold Crush)”.
“N—as acting like I sold you crack/ Like I told you sell drugs/ No, Hov did that, so hopefully you won’t have to go through that” (Caras agindo como se eu tivesse vendido crack para vocês / Como se eu tivesse mandado vender drogas / Não, o Hov fez isso, então espero que vocês não tenham que passar por isso) e, claro, “I’ve seen hoop dreams deflate like a true fiend’s weight” (Vi sonhos de brilhar no basquete murcharem como o peso de um viciado de verdade).
Ok, talvez ela não esteja tão batida assim, afinal.
13. “All I Need”
Produtor(es): Bink!
Ainda acho incrível que essa música não tenha sido lançada como single. Ela tem todos os ingredientes, assim como “Jigga That N—a” e “Hola’ Hovito”. A produção e o refrão são feitos para tocar no rádio e nas pistas. Ele deveria produzir clipes para essas músicas agora, mesmo que com atraso. Acho que teria sido legal para a comemoração do aniversário. Enfim, não vou insistir obsessivamente nessa tecla sobre “All I Need”. Só saiba que ela passa no “teste do carro” e fez uma multidão — em um show com ingressos esgotados — cantar junto. Um salve para o Bink!. Ele é um dos produtores mais subestimados que existem.
12. “Girls, Girls, Girls, Pt. II”
Produtor(es): Ye (anteriormente Kanye West)
Gosto mais da versão do Just Blaze, mas esta ainda é uma sequência de respeito. Jay-Z se diverte com os jogos de palavras e não apela tanto para estereótipos como na primeira versão — e temos aqui uma produção que, embora inicial, já traz a marca registrada do Kanye: dá para ouvir o som dele batendo nos pads do MPC que usou para criar a faixa. É uma maneira simplesmente genial de manipular aquele sample.

11. “Breathe Easy (Lyrical Exercise)”
Produtor(es): Just Blaze
Nunca é demais lembrar o quanto o streaming nos fez perder. Meus amigos e eu descobrimos essa faixa por puro acaso. Estávamos fumando dentro do meu Honda Accord cupê ano 89 (cor verde-mar), depois de ouvir o álbum inteiro, e jogando conversa fora enquanto decidíamos qual seria o próximo CD — quando, de repente, ouvimos o início dessa música. Lembro que piramos quando ele disse que era o “Trinidad of the Game” — mas essa frase envelheceu muito mal, já que, algumas semanas depois, B.
Hop deu uma surra histórica no nosso porto-riquenho favorito da época. Vale lembrar que ele fez algo parecido no “Vol. 3”, ao incluir “Jigga My N—a” e “Girl’s Best Friend” no final da faixa bônus “Anything”. Foi um single de rua bacana e um easter egg que ouço até hoje, sabendo cada palavra de cor.
10. “The Ruler’s Back”
Produtor(es): Bink!
As pessoas não dão ao Bink o crédito que ele merece quando se trata deste álbum. Aqui, ele e Jay-Z dão a largada com uma das introduções mais triunfantes do produtor, prestando homenagem a Slick Rick ao criar sua própria versão da faixa clássica de mesmo nome. Ela não entra no meu top 5 de introduções do Jay-Z, mas foi a escolha perfeita para começar este álbum em particular — e acabou sendo profética, já que ele não deixou o trono do rap desde então.
9. “Hola’ Hovito”
Produtor(es): Timbaland
Sempre gostei dessa faixa. Olhando para trás, vejo que é mais uma daquelas músicas do projeto que, hoje em dia, teriam virado single e ganhado videoclipe. A fórmula para um sucesso do início dos anos 2000 está toda ali: a batida animada de Timbaland, o refrão contagiante, Jay-Z no auge da forma rimando em espanhol… Quer dizer, o que mais se poderia pedir? Essa música fazia o Yankee Stadium vibrar da mesma forma que agitava as boates antigamente, com todo o público gritando “Hola Hovito” em uníssono — mesmo vestindo camisas de colarinho e sapatos sociais.
8. “Girls, Girls, Girls”
Produtor(es): Just Blaze
A cultura do cancelamento faria a festa com essa música se ela fosse lançada hoje, devido a todos os estereótipos nos quais ela se apoia. Na verdade, se bem me lembro, ele mal a apresentou na segunda noite da série de shows no Yankee Stadium. Deixando de lado o humor datado, acho que o Just Blaze não recebe o devido reconhecimento pela sonoridade cheia de soul dessa batida.
Sempre achei que ela é uma das melhores dele. O refrão também é muito bom e, quer saber? Alguns desses versos ainda têm graça. “Mami’s a narcoleptic, she’s always sleepin’ on Hov” (“A gata é narcoléptica, ela está sempre dormindo em cima do Hov”) sempre me arranca uma risada. Podem me processar.
7. “Blueprint (Momma Loves Me)”
Produtor(es): Bink!
Ora, ora, ora, o que temos aqui? Mais uma batida que aposto que algum ouvinte casual acha que foi o Ye quem fez. O Jay-Z fez esse tipo de outro no “The Black Album”, alguns anos depois, na faixa “My 1st Song”, em que ele também manda saudações para várias pessoas durante os versos.
O mais legal dessa música — e isso é algo que você não vai vivenciar a menos que tenha uma cópia física — é que ela tem cerca de 11 minutos de duração, porque as duas faixas seguintes foram escondidas no final dela. Sempre vou adorar a maneira como o Bink! incorporou aqueles órgãos e como isso faz a faixa soar como uma música gospel.
6. “Renegade” (part. Eminem)
Produtor(es): Eminem
O maior truque que o diabo já pregou foi convencer as massas de que o Eminem superou o Jay-Z nesta faixa. Não me leve a mal, o Slim Shady mandou muito bem — especialmente considerando que ele também produziu a música —, mas alguns fãs subestimam seriamente a performance do Jigga Man aqui.
Na primeira estrofe, ele desafia os críticos do rap, apontando que eles não entendem as provações e dificuldades que alguém como ele enfrentou para chegar onde está; já na segunda estrofe, ele rima sobre a situação precária em que cresceu. Vocês, idiotas, realmente ouvem a música ou apenas passam por ela superficialmente?
5. “Never Change”
Produtor(es): Ye (anteriormente Kanye West)
A galera da quebrada curte demais essa música. Deixando de lado a história da perda dos 92 tijolos (eu acredito nele), a produção sombria aliada à sinceridade detalhada em sua voz faz desta faixa uma favorita de quem vivenciou as coisas e situações às quais ele se refere. “Never Change” é um hino da periferia; não sei como definir de outra forma. Versos como “We all fish, better teach your folk / Give him money to eat, the next week, he’s broke / ‘Cause when you sleep, he’s reachin’ for your throat” (Todos nós pescamos; é melhor ensinar o seu pessoal / Dê dinheiro para ele comer e, na semana seguinte, ele estará quebrado / Porque, enquanto você dorme, ele está tentando te estrangular).
“Streets robbed me, wasn’t educated properly” (As ruas me roubaram, não recebi a educação adequada) e “Chains are cool to cop, but more important are lawyer fees” (Correntes são legais de comprar, mas mais importantes são os honorários de advogados) estão entre as melhores e mais memoráveis linhas que ele já gravou.
E preciso destacar o trabalho do Ye no refrão. Qualquer dia desses, talvez eu até tatue o trecho “I’m still f—kin’ with crime, ’cause crime pays / Out hustlin’, same clothes for days / I never change, I’m too stuck in my ways, I’ll never change” (Ainda estou metido com o crime, porque o crime dá dinheiro / Na correria, com a mesma roupa por dias / Eu nunca mudo, estou muito preso aos meus hábitos, nunca vou mudar) no estilo de um Manuscrito do Mar Morto.
4. “Heart of the City (Ain’t No Love)”
Produtor(es): Ye (anteriormente Kanye West)
Quando as pessoas mencionam a marca deixada por Kanye neste álbum, penso nesta música e em “Never Change” antes de qualquer outra.
A sensação de Jay-Z de não receber a reverência que merece não é novidade. Ele era visto por muitos como o melhor rapper vivo naquela época, mas não por todos; por isso, ele ainda carregava uma certa mágoa — e essa música o mostra entrando na cabine de gravação, soltando um suspiro e se perguntando por que alguns fãs e colegas não o apoiavam como realmente deveriam. Sua interpretação despojada sobre o sample magistral de Bobby Bland, trabalhado por Ye, faz desta uma das muitas faixas de destaque em um álbum clássico.
3. “Song Cry”
Produtor(es): Just Blaze
Mais uma vez: por que deixamos as pessoas agirem como se este fosse um álbum do Kanye — e como se, não fosse por ele, o disco não fosse tão aclamado quanto é hoje? Just e Bink! estão presentes em todo o projeto, ao lado do produtor de Chicago. Estou convencido de que alguns de vocês, idiotas, não leem os créditos do álbum.
Esta foi uma novidade para Jay-Z; ele já havia participado de remixes de R&B no passado, mas nunca tinha nos entregado um hino sobre desilusão amorosa — mesmo que a intenção fosse voltar logo depois de ter feito besteira. Esta faixa não é tão séria quanto algumas das outras, mas sempre senti que ela seguia a mesma linha de trabalhos mais vulneráveis dele, como “You Must Love Me” e “Soon You’ll Understand”. A vulnerabilidade com um toque de humor sobre a bela produção de Just Blaze…
2. “Takeover”
Produtor(es): Ye (anteriormente Kanye West)
Você precisava estar lá quando as notícias do Summer Jam chegaram. Ele não apenas expôs Prodigy (descanse em paz) de forma infame no “telão do Summer Jam” e desafiou Nas — então o soberano “Rei de Nova York” —, como também trouxe ao palco Michael Jackson, cuja música ele sampleou na faixa seguinte.
É muito difícil explicar o impacto sísmico desse momento se você não o vivenciou em tempo real. Ele não apresentou a música inteira durante o show, então aquela foi a primeira vez que todos o ouviram atacar Nas diretamente no último verso. Foi um ato de guerra que desencadearia uma batalha épica entre a Roc e Queensbridge, mudando ao mesmo tempo o curso da história do rap como a conhecemos.
Dito isso, não posso deixar de mencionar o quão pesada é essa batida. Tenho certeza de que o sample que Ye fez do clássico “Five to One”, do The Doors, colocou a lendária banda de rock no radar de muitos fãs de rap que, até então, não conheciam o trabalho e a influência deles. As manipulações de sample mais brilhantes são justamente essas — simples, porém eficazes — e essa continua sendo uma das faixas mais memoráveis tanto no catálogo de Ye quanto no de Jigga. “Takeover” está no panteão das maiores músicas de diss de todos os tempos, e lá permanecerá.
1. “U Don’t Know”
Produtor(es): Just Blaze
Essa é uma daquelas músicas do tipo “lembro exatamente onde eu estava e o que estava fazendo”. Eu ainda estava sentado no meu carro, em frente à loja de discos, quando cheguei a essa faixa. A batida — talvez a melhor de Just Blaze —, a confiança com que ele rimava, as letras que acabariam se tornando profecia… tudo isso explodiu minha cabeça.
Era minha música favorita do álbum na época, continua sendo minha faixa predileta, e vê-la ecoar ao vivo no Yankee Stadium foi um momento que jamais esquecerei. Jay-Z colocou tudo na mesa e mostrou o caminho das pedras para a galera, justamente quando começava a alcançar novos patamares no mundo dos negócios.
Deixando de lado as minhas próprias convicções políticas, é sempre impressionante ver como ele conquistou tudo o que conquistou enquanto navegava pelo meio de onde veio. Ele me fez acreditar de verdade que eu estava ganhando dinheiro como ele, a ponto de eu falar como se tivesse contrato com a Def Jam e uma marca de roupas que faturava milhões por ano.
Vale acrescentar também que acho fascinante o fato de que a maioria das músicas mais memoráveis do Jigga não são aquelas lançadas como singles. Essa faixa nem sequer tem uma página própria na Wikipédia — como se não fosse uma das 10 melhores músicas do catálogo dele.
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].
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