5 Takes com Marcelo Ferraz: conheça o produtor que bota a voz no centro de tudo
Na série 5 Takes, ele abre os bastidores da produção musical brasileira

Marcelo Ferraz
Marcelo Ferraz é produtor musical, engenheiro de mixagem e masterização, A&R e empresário. Vencedor de um Grammy e dois Grammys Latinos, integra o trio de produtores Los Brasileros e é hoje um dos profissionais mais requisitados do pop nacional.
Em 2026, na 27ª edição do Grammy Latino, recebeu cinco indicações: Álbum do Ano e Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa por “EQUILIBRIVM“, de Anitta; Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa por “BRava“, de Jenni Mosello, e “MARINADA, Vol. 1“, de Marina Sena; e Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa por “Frequência Lunar”, de Budah.
Em agosto do mesmo ano, foi um dos 50 profissionais homenageados na primeira edição do Brasil Power Players. Baseado em São Paulo, construiu uma carreira que une produção artística, desenvolvimento de talentos e excelência técnica. Seu trabalho é reconhecido por preservar uma identidade brasileira e autêntica, com acabamento à altura do mercado internacional.
A voz como protagonista
Como engenheiro de mixagem, tem no tratamento das vozes uma de suas principais assinaturas. Cantoras e cantores o procuram especialmente pela forma como coloca a interpretação no centro da música: para Marcelo, todos os elementos da produção e da mixagem existem para servir à voz e à emoção da canção.
Começou a trabalhar com música ainda adolescente e cresceu dentro de estúdios fixos e móveis. Muito jovem, já era responsável pelos sistemas de Pro Tools de algumas das maiores gravações ao vivo do país — de Acústicos MTV a grandes discos e especiais.
Em 2007, conheceu Chorão e passou a mixar seus especiais para a televisão. Dois anos depois, produziu o primeiro álbum da banda Cine ao lado de Pedro Dash e Dan Valbusa, hoje seus parceiros no Los Brasileros.
Grammys na estante
Em 2016, foi contratado como produtor exclusivo da Universal Music e cofundou o selo Head Media. Atuando também como A&R, participou do desenvolvimento de artistas como Jão, Vitão e Carol Biazin.
Com o Los Brasileros, produziu “Mercúrio”, faixa do álbum “Mañana Será Bonito”, de Karol G, projeto que venceu o Grammy de Melhor Álbum de Música Urbana, em 2024, e conquistou Álbum do Ano e Melhor Álbum de Música Urbana no Grammy Latino de 2023.
Por essas e por outras, começamos com ele a seção 5 Takes, trazendo profissionais do mercado para compartilhar seus segredos com a Billboard Brasil em cinco perguntas – uma extra como faixa bônus.

Take 1 — A voz é o centro do universo
Billboard Brasil: Você tem no tratamento das vozes uma de suas principais assinaturas. Na prática, como isso se traduz? O que você faz, ou deixa de fazer, para que a voz esteja sempre no centro?
Marcelo Ferraz: Quando eu digo que a voz é o centro do universo, é porque a voz é um instrumento único. Ela encanta. Cada pessoa tem a sua, do seu jeitinho, com a sua personalidade. Então o meu trabalho é preservar a emoção que o cantor tem na hora em que está cantando e traduzir aquilo para o speaker. Não existe regra para isso. É uma questão de sensibilidade.
Às vezes, a melhor voz de uma música é a voz guia, porque é ali que está a emoção. Acontece muito de o artista querer regravar depois que está tudo pronto, num estúdio melhor, com um microfone melhor. Mas uma voz gravada num quartinho de casa, com eco e tudo o que vem junto, a gente trata: ela não vai ter o som tão perfeito quanto a de um estúdio com um microfone de dez mil dólares, só que o que importa mais é o take, é a emoção que passou ali. Nem sempre o som perfeito é o som que emociona.
A partir disso, a lógica se inverte: em vez de encaixar a voz na base, eu contorno os outros instrumentos em volta dela, abrindo os espaços e as frequências certas para que ela apareça, dentro da proposta da música, claro. E o critério do quanto intervir é só a necessidade. É saber não estragar uma voz que já está boa, e saber fazer o que for preciso para deixar uma voz emocionante com o que a gente tem. Se forem precisos 30 plugins e 30 auxiliares para o negócio acontecer, eu faço. Quem manda é o resultado, não o caminho.
Take 2 — A escola dos Acústicos MTV
Você começou adolescente, trabalhando com Pro Tools em Acústicos MTV e grandes gravações ao vivo. O que essa experiência te ensinou que você ainda aplica hoje? E o que já não faz sentido no estúdio atual?
O estúdio em que eu comecei era o que mais fazia esse tipo de gravação no país. Todo fim de semana tinha uma. Um dia eu estava gravando Charlie Brown Jr. com o Lampadinha produzindo, um baita engenheiro e produtor de rock. No fim de semana seguinte, eu estava com o Reinaldo Barriga e o Rodrigo Vidal na engenharia, gravando Chitãozinho e Xororó, música rancheira. Na outra semana eu estava com o Moog Canazio gravando a Simone no Theatro Municipal do Rio. Na seguinte, num Acústico MTV da Sandy, com o Flávio Senna. Essa vivência de acompanhar produções de estilos completamente diferentes, uma atrás da outra, trocando e vivendo aquilo, me ensinou muito sobre música.
Durante a semana, eu estava no estúdio acompanhando os overdubs e as finalizações desses projetos, ou discos gravados em estúdio mesmo. Fim de semana na estrada, semana no estúdio. Foi ali que eu fui desenvolvendo o meu próprio jeito de fazer, com os melhores professores do país: os produtores e engenheiros que construíram a história da música brasileira.
O maior aprendizado do ao vivo é que a imperfeição é o que faz a música soar bonita. Eu aprendi tanto o como fazer quanto o como não fazer: as pessoas que tentavam regravar demais, polir tudo, os discos não funcionavam. Ao vivo precisa ser ao vivo. Isso eu carrego até hoje, e talvez valha ainda mais agora, quando o recurso é infinito e a tentação de corrigir tudo é muito maior.
Take 3 — Chorão, a Cine e o primeiro grande sucesso
Em 2007 você conheceu Chorão e passou a mixar seus especiais de TV; dois anos depois, produziu o primeiro álbum da Cine. Como foram esses dois momentos e o que eles abriram na sua carreira?
Minha história com o Chorão é a história clássica do menino de 8 anos que começou a ouvir Charlie Brown Jr. na escola. Um tio meu me deu o “Preço Curto… Prazo Longo”, depois veio o “Transpiração Contínua Prolongada”, e eu amei aquilo. Ganhei um violão, e o primeiro riff que eu aprendi foi de “O Coro Vai Comê”. Eu era skatista, pirava no Chorão, queria ser o Chorão.
Muitos anos depois, o estúdio móvel onde eu trabalhava foi contratado para gravar um ao vivo deles. E não tinha engenheiro. Quem fez a engenharia fui eu: um moleque, um sonhador, fã daqueles caras desde criança. Gravei, e o Chorão ouviu e falou: “Tá um puta som isso aqui, mano. Quem vai mixar?” Aí olhou para mim: “Você. Você vai mixar.” E eu: “Eu?” A partir dali, passei a mixar as coisas dele, fui engenheiro de muitos projetos e discos, produzi com eles. Teve um dia em que o Chorão estava no sofá do meu estúdio ouvindo uma mixagem minha. Eu pensei: zerei o game.

A Cine veio em 2009. O Danilo procurou a mim e ao Pedro para produzir, e o Pedro acabou entrando na banda. Fizemos um EP, a banda começou a despontar, e eu achei aquilo incrível. Levei o projeto para o meu pai, Santiago Ferraz, que tinha o estúdio onde eu trabalhava na época e também era empresário da música, com muito mais experiência de mercado do que eu. Falei: “Pai, vamos investir nesses caras.” E ele topou. A gente investiu junto, virou meio que empresário da banda e gravou o disco. Eu já tinha muito relacionamento com a Universal e apresentei a banda para eles.
A Universal gostou, a Mix FM chegou junto, e foi questão de tempo. “Garota Radical” foi para o primeiro lugar e a Cine virou um fenômeno teen. Foi o nosso primeiro artista que deu certo.
Take 4 — Desenvolver artista é diferente de descobrir artista
Em 2016 você foi contratado pela Universal e cofundou o selo Head Media. Como concilia o trabalho em uma major com a operação de um selo próprio? E o que significa, na prática, “desenvolver um artista”?
Na verdade, as duas coisas sempre correram em paralelo. A gente foi contratado pela Universal justamente para fazer o que já fazia: estar na rua, no estúdio, criando coisa nova e trazendo um olhar que o executivo de uma multinacional muitas vezes não tem, porque ele está transitando em outros lugares. A gente está onde as coisas acontecem, no estúdio, nos rolês. Esse era o papel. Quando veio o selo, ele foi só uma extensão do que a gente já estava fazendo.
Desenvolver artista sempre foi uma das nossas características mais fortes, e é o que eu mais gosto de fazer. Pegar o disco de um artista grande é legal, mas construir um artista do zero, potencializar o que ele já tem e extrair o melhor dele, é outra coisa. E a gente não descobre ninguém. A gente desenvolve junto. É olhar para o artista e entender quem ele é, onde pode chegar, o que quer ser.
O Jão chegou até a gente com propostas de major, mas ele estava buscando visão, um olhar diferenciado. Ele dizia: “Eu quero ser o maior artista pop do Brasil.” Juntos, a gente foi entender quem ele era. Levou mais de seis meses para chegar numa música em que a gente olhou e falou: “Essa está boa.” Perfeição é uma coisa que não existe na música. São as imperfeições que tornam as coisas perfeitas. Foi desenvolver, testar, entender o que funciona e o que não funciona, saber desapegar, saber jogar fora. Do primeiro show no Largo da Batata, para umas 80 pessoas, até lotar o Allianz Parque.

O Vitão foi outro fenômeno e chegou por um caminho totalmente diferente. Ele entrou no nosso estúdio como assistente, e a gente começou a ouvir as músicas que ele tocava no violão. Foi aquela história clássica: “De quem é essa música?” “É minha.” “Então vamos gravar.” A partir dali, o processo foi o mesmo: entender quem ele queria ser, onde queria chegar, e potencializar isso.
A Carol Biazin chegou com outro olhar. Ela já tinha cantado sertanejo, pop, várias coisas, e no começo não sabia muito bem o que queria fazer, se era mais R&B, se era outra coisa. Todo artista é um universo, e ela era uma artista muito potente, com muito a dizer. Então foi muito legal ir descobrindo a estética dela junto, permitindo que ela navegasse por vários estilos em busca de se conhecer. Olhar para dentro para depois sair para fora. Cada artista chega de um jeito, mas o trabalho é sempre esse.
É uma troca e um aprendizado dos dois lados. Parte dele é tirar o artista da zona de conforto. Mas, antes de tudo, é ter paciência para ele virar quem ele é.

Take 5 — Karol G, Los Brasileros e as cinco indicações
Como foi produzir “Mercúrio” para o projeto da Karol G? E o que as cinco indicações ao Latin Grammy de 2026 representam para o momento atual da sua carreira?
A “Mercúrio” foi uma surpresa. Essa relação com a Karol G veio por meio do Feid, que é outro artista grande. Ele estava procurando músicas com uma vibe mais brasileira, e a gente mandou para ele uma faixa praticamente pronta. Ele nunca respondeu nada. Aí, num Grammy Latino, um ano antes, ele estava se apresentando e chamou a gente no camarim: “Olha aquela música lá.” Mostrou ela já gravada e falou: “Quem vai gravar é a Karol. Mostrei para ela, ela pirou, vai entrar no próximo disco.”
Depois disso, silêncio de novo. Até que, numa sexta-feira à noite, ligaram: o disco tinha que ser entregue na semana seguinte, e ela queria mudar o tom. A gente correu para o estúdio na casa do Dan, regravou o violão, fez os ajustes finais, e naquele mesmo fim de semana ela gravou a voz, a música foi mixada e já foi embora. Foi maravilhoso. A música é incrível, e a gente se sente muito honrado de fazer parte daquele disco.
As cinco indicações deste ano representam o reconhecimento de um trabalho feito com muito amor e muita entrega. Um disco como o “EQUILIBRIVM” fala de mais do que música: tem propósito, tem espiritualidade, fala de se libertar das crenças limitantes e da intolerância religiosa. A Jenni Mosello é uma das maiores compositoras do Brasil; a indicação é merecidíssima e me enche de orgulho.

A Marina Sena é uma potência; às vezes parece que o mundo é pequeno para o tamanho dela. E a Budah é uma mulher revolucionária. Num gênero que por muito tempo foi dominado por homens, ela chega com voz, com estética e com um olhar completamente próprio, abrindo caminho não só no rap, mas na música brasileira como um todo. Estar indicado ao lado dela, pelo “Frequência Lunar”, tem um significado muito grande para mim. Estar ao lado dessa galera, saber que eu pude somar nesses projetos e poder celebrar esse momento juntos é muito especial.
Faixa bônus — Mixar os Stones e emocionar quem está em casa
Você mixou transmissões de Rock in Rio em Lisboa e Madri e do Lollapalooza, em shows de Metallica, Linkin Park e Rolling Stones. O que muda em relação ao trabalho de estúdio?
A mixagem para TV é um trabalho bem delicado. Quem banca a transmissão é a televisão, e a televisão tem uma estética própria, não muito artística, mais técnica, mais jornalística. Quando eu sou contratado por um artista, vou justamente para manter a estética dele e traduzir o que ele é. A minha missão é fazer com que quem está em casa se sinta como se estivesse no festival. Isso vem da minha formação no ao vivo: o objetivo é emocionar também quem está assistindo pela tela, e não entregar uma coisa correta e sem emoção.
E às vezes um show abre portas que você nem imagina. Eu mixei o No Doubt no Rock in Rio de Las Vegas, e quem estava lá acompanhando pela banda era o Guy Charbonneau, do Le Mobile, o maior estúdio móvel de gravação ao vivo dos Estados Unidos. Ele gostou do trabalho e me chamou para gravar com eles o disco ao vivo dos Rolling Stones, o “Sticky Fingers Live”, no Fonda Theatre, em Los Angeles. Eu fiz a engenharia de Pro Tools ao lado dele e do Bob Clearmountain. Aquele menino que operava Pro Tools nos Acústicos MTV estava ali, gravando os Stones.
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