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O Brasil lota estádios, mas quem financia o que acontece embaixo do palco?

Colunista debate bets, patrocínio cultural e a contradição da indústria ao vivo

Show de BK' no Nubank Parque em São Paulo

Show de BK' no Nubank Parque em São Paulo (@bmaisca)

No Brasil dos shows, o palco nunca foi tão forte, mas o que existe embaixo dele? O Brasil é o segundo maior mercado de shows ao vivo do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo o levantamento da PwC. Essa semana tivemos mais algumas provas do tamanho que a música ao vivo alcançou por aqui.

No sábado (19), por exemplo, o BK’ reuniu 50 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo. Foi o primeiro rapper brasileiro a realizar um show solo no estádio. E a gente também acabou de sair do Rock in Rio, em que artistas brasileiros dividiram os maiores palcos do país com alguns dos principais nomes da música mundial e entregaram alguns dos shows mais celebrados do festival.

Fora que, nas últimas semanas, eu tenho reparado que têm acontecido shows pelo Brasil todo. Tem dia que em São Paulo, por exemplo, tem dois estádios lotados e um festival acontecendo, tudo ao mesmo tempo. Em cima do palco, a música brasileira parece viver nos seus momentos mais fortes.

Mas será que o que existe embaixo desse palco também cresceu na mesma velocidade? Uma pesquisa da Serasa com o Mapa dos Festivais mostra que 83% do público se planeja financeiramente para ir a shows e festivais. Mesmo assim, 33% já contraíram uma dívida por causa disso e 14% chegaram a deixar uma conta básica em aberto só para não perder o evento.

Show de BK' no Nubank Parque em São Paulo
Show de BK’ no Nubank Parque em São Paulo (@bmaisca/Henrique Augusto)

Tem muito artista e produtor cultural tentando fazer essa indústria bilionária funcionar e tem público se endividando pela paixão de estar nela. E agora existe uma outra contradição nessa história, as bets.

A Paula Lavigne levantou essa discussão numa coluna recente na “Folha de S.Paulo”. Na coluna diz que as casas de apostas se tornaram grandes patrocinadoras da cultura brasileira. Seus nomes estão em festivais, palcos, áreas VIPs e transmissões. No curto prazo, esse dinheiro ajuda sim a financiar cultura, mas a Paula levanta uma provocação importante.

Enquanto as bets ocupam os palcos, podem também estar ajudando a esvaziar as plateias. Porque o dinheiro que poderia ir para um ingresso, cinema, um festival, outra forma de lazer e cultura, também está indo para as apostas.

Segundo o estudo do Instituto de Estudos para a Política de Saúde, citado pela Paula, os custos sociais associados ao jogo problemático são estimados em quase 40 bilhões de reais por ano. E ainda existe outra camada nessa discussão. A cultura não entrega ao patrocinador apenas exposição, ela entrega legitimidade.

+ Leia mais: Opinião: o debate sobre o público do Rock in Rio esconde um problema maior

Quando uma marca aparece associada a um artista que você ama ou a um festival que faz parte da sua vida, ela passa a ocupar outro lugar no imaginário. E essa é uma das críticas centrais da Paula. A cultura pode estar ajudando a tornar as bets familiares, desejáveis e normais.

A discussão fica ainda mais delicada quando esse patrocínio passa por uma lei de incentivo à cultura. Porque o pequeno artista, muitas vezes, não está escolhendo entre uma marca e outra; ele está escolhendo entre aceitar aquele dinheiro ou simplesmente não conseguir realizar o seu projeto cultural. Isso pode ser a contradição do Brasil dos shows hoje.

Temos artistas capazes de colocar 50 mil pessoas no estádio, temos grandes festivais, público, repertório, uma potência cultural gigantesca. Mas ainda temos uma indústria vulnerável suficiente para que quem está embaixo do palco, muitas vezes, não tenha o poder de escolha sobre quem financia aquilo que acontece em cima dele.

E a cultura não é apenas entretenimento; muitas vezes é o lugar para onde a gente foge quando o resto da vida pesa. É o show que, durante ali duas horas, tira a nossa cabeça do boleto, do trabalho, do trânsito, da notícia ruim, das angústias normais da vida que todo mundo passa.

Existe uma ironia enorme quando esse espaço de escape passa a depender de uma indústria que, para parte da população, pode produzir justamente mais endividamento e sofrimento. O Brasil já provou que sabe lotar shows, festivais e estádios. Talvez o próximo salto seja construir uma indústria tão forte embaixo do palco quanto aquilo que já acontece em cima dele.

Veja o vídeo de Rodrigo Lampreia sobre shows no Brasil