Coluna: Quando a música brasileira está no mundo: o Brasil no Grammy Latino
Entre estreias e lendas, o Brasil chega ao Grammy Latino com 69 indicações

Gabriel Fontenelle
Para quem gosta de música brasileira, receber a notícia das indicações do GRAMMY Latino, que saíram nessa quarta (16), é motivo de celebração à nossa cultura, ainda mais em uma edição em que o país soma 69 indicações ao longo das 60 categorias da disputa! Só dá Brasil!
Durante o período de elegibilidade – 1.º de junho de 2025 a 31 de maio de 2026 –, o Brasil demonstrou grande parte de sua força musical em meio a um ano em que a estética latina está em uma crescente no mundo moderno.
+ Leia mais: O que as indicações ao Latin Grammy 2026 revelam sobre a música brasileira
A disparidade de indicações é reflexo da nossa qualidade sonora em ascensão, além de um olhar forte para o nosso país, que está cada vez mais se tornando uma potência mundial na música.
Falando em potência mundial, o Brasil está presente nas quatro grandes categorias do evento:
A principal categoria, “Álbum do Ano”, conta com o aclamado “EQUILIBRIVM”, da Anitta, projeto brasileiro mais relevante dessa temporada.
A mistura de gêneros, de raízes brasileiras e do “candombaile” evidencia a força do álbum, que busca visitar o nosso país e convidar não só gringos, mas nós mesmos, a olhar para dentro do Brasil.

De Los Brasileiros e Alceu Valença a KBrum e Shakira, passando por Liniker e Maria Bethânia, dentre vários outros artistas, “EQUILIBRIVM” sem dúvidas já tinha um lugar garantido nessa categoria.
Mesmo que com excelência, Anitta tem pouca chance na categoria, diante de KAROL G, ROSALÍA e CA7RIEL & Paco Amoroso. Bora, Brasil!
Um grande feito este ano está nas mãos de Loulu Gilberto. A artista, filha mais nova de João Gilberto, está indicada na categoria “Gravação do Ano” pela faixa “O Amor Nos Encontrou”, além de marcar presença na categoria de “Melhor Artista Revelação”, e, pasme: tudo isso com seu álbum de estreia lançado no finalzinho do período de elegibilidade.
O álbum homônimo traz o som da MPB em uma grande homenagem ao pai, que faleceu em 2019.
A introdução ao álbum, com a faixa “João” – originalmente de Arnaldo Antunes –, findando em “Cavalo Marinho / Bicho Curutú”, busca não só realçar memórias e a presença ainda viva do pai, mas afirmar e criar um estilo próprio em cima de seu nome, com participações de Tom Veloso, Daniel Jobim e Maria Carvalhosa.
O sobrenome Veloso não está somente dentro do álbum de Loulu. Zeca Veloso também está indicado a “Melhor Artista Revelação”, além da artista Dora Sanches.
Vale ressaltar que essa categoria não premia artistas novos, mas sim aqueles que lançam “a gravação que estabelece primeiramente a identidade pública”, sejam eles novos ou não – isso justifica a indicação de Zeca com quase uma década de carreira.
Seu projeto mais recente e de estreia, “Boas Novas”, também compila a MPB, o samba e referências afro-baianas. Com participações dos irmãos Moreno e Tom Veloso, do pai, Caetano Veloso, de Xande de Pilares e de Dora Morelenbaum, o “Boas Novas” é um excelente projeto de estreia.
A voz, ao mesmo tempo sutil, forte e marcante de Dora Sanches é o ponto mais alto do seu projeto: “Seda de Casulo”.
O álbum tem um cenário claro: um passeio na orla que, para mim, soa como um sentar no banco no bairro da Ribeira, em Salvador. Fazendo referência a uma das faixas do álbum, esse projeto é um “Doce Delírio”! O “Seda de Casulo” também é um álbum de estreia… Tá na hora de o underground virar mainstream, né?
Para fechar as quatro grandes categorias, a faixa “Nilo”, de Zanna, está indicada a “Canção do Ano”.
Diferentemente de Gravação – que foca na masterização, produção, engenharia e mixagem da faixa –, ela preza pela excelência das letras, e “Nilo” não foge disso.
Dentro do álbum “Reflexo”, a faixa é uma bossa nova de estilo clássico, com a harmonia do samba e do jazz. Sabe aquela melodia sensual com sabor de paixão?
Pois então, Zanna parece fazer isso sem esforço. A carioca já abriu para Morcheeba e Herbie Hancock no Festival de Jazz de Montreux com sua banda e – não ironicamente – é a voz de algumas das linhas de metrô do Rio de Janeiro, São Paulo e aeroportos. De embarques e desembarques para a quarta indicação ao GRAMMY Latino!
Nas categorias Urban – um guarda-chuva dos gêneros “periféricos” (vá entender o que significa isso) –, a nossa popgirl brasileira, Luísa Sonza, está indicada ao lado de Sofía Reyes na música “Uñas Afiladas”, por “Melhor Interpretação Reggaeton”.
A música faz parte do quarto álbum da mexicana, mas pode garantir um gramofone para a nossa loirinha.
A faixa é sexy, forte, cheia de tesão. O funk também chegou junto: pela segunda vez na história, o gênero é representado, agora com “Relíquia Do 2T”.
Um dos hits brasileiros desse ano, indicado a “Melhor Canção Urban”, a faixa consolidou mais de 30 semanas consecutivas na Billboard Brasil Hot 100 e compete ao lado de artistas como Rauw Alejandro e Daddy Yankee. Vai ter baile em Las Vegas, sim!
Com Djavan na jogada, não tem jeito: o álbum “Improviso” está indicado a “Melhor Álbum Cantor Compositor”.
Esse álbum é mais um daqueles que nos deixam a Djavanear por aí… Ouvir uma das lendas da música brasileira é um privilégio; continuar a ouvir sua obra depois de 50 anos é dádiva.
Yamandú Costa, compositor e instrumentista genial, pode levar dois gramofones para casa. O indicado a “Melhor Álbum Instrumental” por “Peregrino” e a “Melhor Álbum de Música Folclórica” por “La Quinta Esencia” trabalha os arranjos musicais com poucos vocais e muito violão e guitarra de 7 cordas.
Na categoria Instrumental, os álbuns “Obra Viva De Hermeto Pascoal – Vol 1: Flautas”, de Andrea Ernest Dias, e “NOVA”, do Hamilton de Holanda, também concorrem. O próprio Hermeto, que é homenageado na sua Obra Viva, também é indicado a “Melhor Álbum de Música Clássica” com um álbum póstumo.
O jazz também é elucidado na categoria “Melhor Álbum de Jazz Latino/Jazz”, com “Verve”, de Lívia Mattos.
De estética “jazzística tradicional”, ele não tem nada: o álbum dialoga com as matrizes nordestinas do xaxado e do baião, ideia central da categoria ao afirmar Jazz Latino. Lívia é muito inteligente nesse álbum, conciliando uma estética de viagem épica; o Grande Sertão Veredas em letras.
Nas categorias destinadas somente à música em língua portuguesa, o show é todo nosso, dominando as cinco indicações:
Na categoria “Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa”, os brasileiros clamam a ancestralidade do país com álbuns como “Resistência!”, do Black Pantera, e “CARRANCA”, da Urias, além de Chico Chico, Detonautas e FOTO EM GRUPO.
O grande destaque aqui é a Urias, em seu projeto que reflete as influências afro-brasileiras em solo nacional.
O hit do álbum, “Voz do Brasil”, traz sample do programa de rádio obrigatório e encontra a originalidade no álbum mais coeso da cantora até então.
O “EQUILIBRIVM” volta a aparecer na categoria de “Melhor Álbum de Pop Contemporâneo”, junto com o fenomenal “Antes Que A Terra Acabe”, de Luedji Luna.
O diálogo intenso de Luedji em meio ao amor, desamparo e sobrevivência é impactante logo nos primeiros minutos do álbum. Essa obra exige compreensão e lenta digestão, porque você não vai querer ouvir ele rápido!
O gênero mãe, mais conhecido como samba, tem sua própria categoria. Leci Brandão, um dos maiores ícones do gênero, está indicada a “Melhor Álbum de Samba/Pagode”, ao lado de Xande de Pilares, Mosquito, Ferrugem e Teresa Cristina. O álbum que celebra os 50 anos de carreira de Leci visita faixas de diferentes autorias e é impressionante!
A nossa música urbana vem com projetos de peso. BUDAH emplaca seu “FREQUÊNCIA LUNAR”, meu novo vício.
O álbum não tem uma faixa sequer para pular, uma obra totalmente voltada para o hip-hop e a cena do rap brasileiro. Produção e letras boas, não poderia pedir menos que isso.
Ao lado de Emicida, com “Emicida Racional VL 2” e “Novo Testamento”, da AJULLIACOSTA, o sarrafo fica muito mais em cima, dois álbuns que valem muito um play certeiro.
As categorias de “Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa” e “Melhor Canção em Língua Portuguesa” são as únicas em que uma portuguesa aparece na competição, mas não é qualquer competidora: é a grande Carminho.
Na categoria de Canção, a portuguesa compete junto da ROSALÍA na faixa “Memória”, ao lado de artistas como Johnny Hooker, Criolo e Marisa Monte.
Na categoria de Álbum, a baianidade é representada por Psirico, com “Molho Lambão”, acompanhado também do grande “Dominguinho Vol. 2”, do trio João Gomes, Jota.pê e Mestrinho, queridinhos da categoria.
A produção e a composição são pontos altos do prêmio. O reconhecimento dos que trabalham nas famosas letras miúdas dos álbuns é importantíssimo, e é claro que o Brasil não saiu por baixo. “Produtor do Ano” conta com Julio Raposo, produtor do álbum “Força Da Juventude”, de Os Garotin, entre vários outros projetos e faixas.
Já Jenni Mosello volta na categoria de “Compositor do Ano”. O engraçado é que, na categoria de Álbum Pop, ela compete com o seu álbum contra o “EQUILIBRIVM”, da Anitta, tendo composto a faixa “Desgraça”, do álbum concorrente. Ironia? Talento!
O nosso queridinho do OSCARS também está no GRAMMY Latino! A excelente e bem trabalhada trilha sonora original de “O Agente Secreto” está indicada a “Melhor Música para Mídias Visuais”.
O audiovisual também foi reconhecido nas categorias de “Melhor Vídeo Musical”: seja ele na versão longa, com L7NNON por “Guerras Invisíveis”, ou na versão curta, com BK por “10 anos de Castelos & Ruínas”.
Uma coisa é fato: é um ano glorioso para o Brasil quando o assunto é música, porque, quando a música brasileira toca, o mundo escuta – e esse ano eles vão ouvir!
A entrega dos gramofones ocorre no dia 12 de novembro, em Las Vegas. Façam suas apostas. Eu já tenho meus favs.
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