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Coluna: Eu queria chegar. E queria outras mulheres comigo

Silvanny Sivuca conta como se tornou a primeira mulher preta diretora de shows

Silvanny Sivuca para a coluna "Eu queria chegar. E queria outras mulheres comigo"(Divulgação)

Silvanny Sivuca (Divulgação)

Quantas vezes você viu uma mulher preta na direção musical de um grande show?

Eu queria que essa pergunta não chamasse tanta atenção, mas ela ainda ajuda a explicar o que significou, para mim, assumir a direção musical do show da Luísa Sonza no Rock in Rio 2026, com uma banda formada inteiramente por mulheres.

Era o meu sexto Rock in Rio. Eu tinha experiência, tinha trabalho, tinha uma história que me sustentava até ali. Mesmo assim, sentar naquela cadeira pela primeira vez mexeu comigo de um jeito diferente.

+ Leia mais: Luísa Sonza no Rock in Rio: pop, coragem e o incômodo que move a arte

Porque eu sei o quanto caminhei. E, quando olhava para o lado, sabia que cada uma daquelas musicistas também tinha percorrido um caminho longo e difícil para estar ali.

Não podemos diminuir o fato de que a indústria da música, nos palcos e nos bastidores, ainda é majoritariamente ocupada por homens.

Pontuar isso não tem a ver com criar disputa ou rivalidade; tem a ver com reconhecer a realidade e valorizar a trajetória de mulheres que superaram muitas barreiras para ocupar esse espaço.

Antes de subir ao palco, mandei um vídeo para minha esposa, Ana. Ela conhece a mulher que existe junto da diretora musical.

A mãe, a percussionista, a educadora. Conhece o trabalho que continua em casa, a cabeça que demora a desligar, o quanto eu me envolvo com aquilo que faço.

Dividir aquele momento com ela fazia parte de chegar até ali. Tenho a sorte de trabalhar em espaços onde me sinto respeitada e acolhida. Encontrar esse mesmo ambiente no trabalho com a Luísa, aliado à responsabilidade de assumir a direção musical, fez com que a minha entrega fosse especialmente intensa.

Escolher uma banda é uma responsabilidade enorme. É decidir com quem você vai dividir um processo que exige preparo, convivência, confiança e capacidade rápida de resolver problemas juntas.

Eu queria musicistas que tocassem muito e que estivessem realmente disponíveis para essa construção. Gente capaz de ouvir a outra pessoa com a mesma atenção com que ouve o próprio instrumento.

Reunimos um time de peso: Amanda Barbosa na bateria, Tamires Silveira nos teclados, Juliana Vieira na guitarra e Beatriz Lima no baixo.

E a presença da Bia traz um significado que precisa ser dito: ela estava grávida. A gente sabe quantas mulheres deixam de ser chamadas para trabalhar no momento em que anunciam uma gravidez.

Eu, como mãe e como diretora, levo isso muito a sério. A Bia estava ali pela musicista brilhante que é. O nosso papel era acolher o momento dela e garantir respeito, estrutura e espaço dentro de todo o processo. Ela tinha toda a competência para entregar, e nós queríamos construir esse show com ela.

O espaço das mulheres na música também se constrói nos bastidores

Eu queria mulheres ocupando esses lugares. Existe muita profissional competente no mercado. Quando uma mulher tem uma oportunidade desse tamanho, o mercado é obrigado a olhar: ela vira referência, é lembrada para outras bandas, considerada para outras direções.

Para mim, essa transformação tem nome, instrumento, ensaio, contrato e crédito. Tem trabalho.

E a responsabilidade era enorme. Abrir o Palco Mundo carrega um peso muito grande.

A Luísa já vinha de apresentações marcantes, como no festival Coachella, mas sabia que o Rock in Rio pedia algo único.

Pela importância histórica daquele momento, a própria Luísa fez questão de ter novos arranjos para praticamente todo o setlist.

Assumir essa construção ao lado dela elevou ainda mais a magnitude do desafio. Com as novas versões estruturadas, eu precisava do foco total do time de musicistas para colocar tudo aquilo de pé.

Durante os 19 ensaios, assumi uma postura de liderança muito presente. Cobrava o máximo de cada uma, mas consciente de que a música é parte de uma engrenagem muito maior.

Luísa Sonza se apresenta no quarto dia do Rock in Rio 2026, no Palco Mundo, no Rio de Janeiro (@LALI_MOSS)
Luísa Sonza se apresenta no quarto dia do Rock in Rio 2026, no Palco Mundo, no Rio de Janeiro (@LALI_MOSS)

Ser diretora musical não é só olhar a partitura; é ter visão macro e entender que cada detalhe técnico reflete diretamente no resultado final. Um espetáculo desse porte tem um limite muito estreito entre tudo funcionar com precisão e o caos se instalar. Se os processos não são claros e organizados, a tensão toma conta do projeto.

A Luísa é quem fica na linha de frente e quem recebe o primeiro impacto de tudo o que acontece ali, da energia do público às cobranças e críticas. Por isso, eu tinha plena consciência de que a minha missão, assim como a de toda a banda, era blindar a artista.

Essa blindagem se dava pela excelência profissional e pela entrega técnica de alto nível.

Quando o lado musical funciona com precisão absoluta, isso gera uma tranquilidade imediata para todo mundo: para a Luísa, para o balé, para a equipe técnica e para nós mesmas.

Essa segurança tira o peso das costas de quem está no palco e dá o espaço necessário para a artista focar unicamente em fazer o que faz de melhor.

O trabalho do Flávio Verne na direção artística exigia uma produção musical que respondesse com a mesma força. Havia uma proposta cênica muito clara, e a nossa função era traduzir essa visão em som, em diálogo constante com a Luísa e com toda a equipe.

Quando vi aquelas mulheres no palco, senti um orgulho imenso porque conhecia cada hora de dedicação daquele processo. Senti orgulho do time que construímos e me permiti sentir orgulho de mim também.

Da mulher preta que esteve à frente daquela direção musical, conduzindo cada detalhe com rigor técnico, respeito e cuidado. Nós mostramos, na prática e no som, a potência do que acontece quando mulheres competentes ocupam o lugar que é delas por direito.