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Quem é que tá pagando para a cultura acontecer?

Com IA gerando metade dos uploads diários, colunista debate quem financia

Indústria da música cultura

Indústria musical (Lee Campbell/Unplash)

Todo mundo quer descobrir o próximo grande artista — eu já falei sobre isso em outro vídeo. Mas quem é que está financiando os lugares onde esse artista pode surgir na cultura?

A indústria da música passou as últimas décadas construindo uma infraestrutura extraordinária de distribuição. Hoje, como todo mundo sabe, qualquer pessoa consegue lançar uma música com muita velocidade e facilidade. E com a inteligência artificial, ficou ainda mais fácil: metade das músicas que chegam diariamente às plataformas já são geradas por IA generativa. Esse dado a gente já conhece. Nunca foi tão fácil produzir e distribuir música.

Mas a cena musical não nasce dentro de uma plataforma. Ela precisa de casas de show, produtores, curadores, contratantes, jornalistas, festivais, estúdios, encontros e, principalmente, público. Precisa de vida offline — não tem jeito.

Uma matéria recente do “Music Business Worldwide” propõe que a indústria precisa parar de se enxergar apenas como um negócio de gravações e começar a pensar como um negócio de infraestrutura cultural. Acho que essa ideia levanta uma pergunta importante: quem está financiando essa infraestrutura?

Porque o mercado sabe investir quando o artista já tem números — sabe comprar catálogo, distribuir música, vender ingresso, monetizar audiência. Mas quem investe antes dos números? Quem sustenta os pequenos palcos, os projetos independentes, os espaços de descoberta? Quem ajuda uma cena a existir antes que ela se torne comercialmente interessante?

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Indústria musical (Reprodução/Bing)

Tenho pensado muito nisso através do “Sou Sessions”, por exemplo. As músicas apresentadas ali podem chegar prontas às plataformas, mas o encontro entre artistas, músicos, produtores, marcas e público não acontece sozinho. Ele precisa ser criado, produzido e financiado. E é muitas vezes nesse ambiente que a música deixa de ser apenas um arquivo e passa a representar uma cena, uma comunidade, um movimento — um momento cultural.

A gente vê isso na prática quando grandes artistas, que sabem muito bem o que têm a dizer e têm uma definição clara de propósito, conseguem criar movimentos culturais relevantes. Assim foi historicamente, e é esse tipo de artista que vai crescer e vai acontecer — porque artista precisa fazer movimento na cultura.

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Acho que esse vai ser um dos grandes desafios da indústria nos próximos anos. A gente construiu uma máquina muito eficiente para distribuir e monetizar música, mas agora precisa construir uma estrutura igualmente eficiente para gerar contexto, descoberta e, sobretudo, pertencimento. Porque não adianta só colocar milhões de músicas no mundo todos os dias — alguém precisa criar os lugares onde algumas delas passam a significar alguma coisa.

Se todo mundo quer encontrar o próximo grande artista, talvez seja hora também de investir nos espaços onde ele pode nascer.

Veja o vídeo de Rodrigo Lampreia sobre cultura

Indústria musical
Indústria musical (blocks na Unsplash)