Quando a música já não basta: o novo valor dos shows ao vivo
Leia a coluna sobre o mercado musical

André Gress: leia a coluna sobre música (Divulgação)
Nunca tivemos tanto acesso à música — e talvez nunca tenhamos desejado tanto estar fisicamente diante dela. Segundo o relatório anual de 2025 da Live Nation Entertainment, aproximadamente 159 milhões de pessoas passaram pelos shows promovidos pela companhia no mundo naquele ano, contra 151 milhões em 2024 — um crescimento de 5%, impulsionado principalmente pelos mercados internacionais.
Mais do que demonstrar a força econômica do setor, números como esses ajudam a enxergar uma mudança de comportamento. Se a música se tornou global, instantânea e disponível a qualquer momento, o show passou a ter o desafio de oferecer aquilo que uma tela não consegue reproduzir: presença, pertencimento e a sensação de participar de algo que só existe naquele instante. O novo luxo do entretenimento ao vivo talvez seja justamente esse: ser irrepetível.
É por isso que o palco deixou de ser apenas o lugar onde a música acontece e passou a fazer parte da própria linguagem do artista. Cenografia, iluminação, vídeo, figurino, movimento, efeitos, arquitetura e tecnologia já não precisam existir como camadas independentes; quando existe direção, elas podem construir juntas uma narrativa. Um exemplo recente veio da Ásia: no fim de 2025, a artista taiwanesa Jolin Tsai abriu sua nova turnê no Taipei Dome diante de cerca de 40 mil pessoas com uma serpente cenográfica de aproximadamente 30 metros integrada à performance.
O elemento ganhou repercussão internacional pela escala e pelo impacto visual, mas o que me interessa nele é algo além da imagem que viraliza: uma ideia artística transformada em experiência física. E essa discussão se torna ainda mais importante em um momento em que ferramentas de inteligência artificial ampliam exponencialmente nossas possibilidades de criação.
Quanto mais recursos temos para produzir imagens e universos visualmente impactantes, maior é a responsabilidade de perguntar por que eles existem dentro daquele espetáculo. Tecnologia deve ser ferramenta, não conceito. O belo pelo belo rapidamente se torna substituível; uma escolha criativa conectada à narrativa, à identidade e ao momento de carreira de um artista ganha significado. Antes de perguntar qual será o cenário, o tamanho do LED ou o próximo efeito, deveríamos começar por outra pergunta: o que queremos fazer o público sentir?
Essa transformação também ajuda a explicar por que grandes espetáculos passaram a extrapolar a própria indústria da música. No Brasil, Copacabana talvez seja hoje um dos exemplos mais claros desse fenômeno. Segundo dados da Prefeitura do Rio, o show de Madonna reuniu 1,6 milhão de pessoas em 2024 e teve movimentação econômica posteriormente estimada em R$ 469,4 milhões.
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No ano seguinte, a apresentação de Lady Gaga levou 2,1 milhões de pessoas à praia e, de acordo com estudo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico em parceria com a Riotur, teve impacto estimado em mais de R$ 600 milhões na economia carioca. Mais de 500 mil turistas chegaram à cidade entre os dias 1º e 3 de maio daquele ano, segundo dados consolidados da rodoviária e do aeroporto internacional. A dimensão foi tamanha que apresentações internacionais desse porte passaram a integrar o calendário de eventos da cidade no mês de maio, com previsão de continuidade pelo menos até 2028.
Quando isso acontece, o show deixa de ocupar apenas um palco e passa a ocupar uma cidade. Hotelaria, gastronomia, transporte, turismo, comércio e serviços passam a fazer parte de uma experiência que começa antes da primeira música. Investir no entretenimento ao vivo, portanto, deixou de ser somente uma escolha estética; tornou-se também uma decisão estratégica capaz de gerar impacto cultural, turístico e econômico.
Talvez o movimento mais interessante, porém, seja perceber que essa sofisticação está deixando de pertencer a um gênero musical específico. Os próprios números globais ajudam a demonstrar essa expansão: no relatório de 2025, a Live Nation aponta que mais da metade de seu público anual já veio de mercados fora dos Estados Unidos pela primeira vez, além de registrar crescimento de dois dígitos de audiência nos principais tipos de espaços de seus mercados internacionais. No Brasil, experiências recentes também apontam nessa direção.
Na “Equilibrivm Tour”, Anitta expandiu o universo de seu novo trabalho para além do palco: em São Paulo, por exemplo, a programação da Vila Equilibrivm ofereceu ao público atividades antes da apresentação, entre práticas de movimento, meditação e experiências de bem-estar relacionadas ao conceito dessa nova fase da artista. É um exemplo interessante porque a experiência não começa na primeira música — o público entra no universo conceitual do projeto antes mesmo de o artista subir ao palco.
Tenho vivido essa discussão também na prática, na direção criativa do show que Priscila Senna prepara para o Rock in Rio. Quando começamos a desenhá-lo, a pergunta não era como transformar uma artista construída a partir do brega pernambucano em uma artista pop para ocupar um palco dessa dimensão, mas como fazer sua história crescer junto com o palco.
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O conceito “No alto da minha história” nasce justamente dessa trajetória: músicos ocupam diferentes alturas, uma estrutura metálica traz para a cena referências da arquitetura popular e símbolos de Pernambuco convivem com novas construções musicais e visuais. A escala muda, mas a identidade permanece no centro. E talvez esteja justamente aí uma das oportunidades para gêneros como forró, sertanejo, pagode, funk e brega: incorporar direção criativa, dramaturgia, tecnologia e novas linguagens sem reproduzir os códigos de outro gênero. Sofisticar uma experiência não pode significar uniformizá-la.
Por isso, não acredito que o futuro dos shows pertença necessariamente a quem tiver o maior palco, o maior LED ou o efeito mais caro. Os dados mostram um mercado de música ao vivo em expansão; o desafio criativo, porém, será transformar essa demanda em experiências que tenham identidade. Tecnologia envelhece, estruturas são reproduzidas, ferramentas se tornam acessíveis e tendências visuais rapidamente se espalham. Identidade, não.
Talvez seja essa uma das grandes oportunidades para os artistas e para o mercado brasileiro nos próximos anos: entender que investir em experiência não significa simplesmente fazer mais, mas encontrar uma maneira própria de fazer.
Uma experiência inesquecível pode nascer de uma estrutura monumental, mas também de uma luz, de um silêncio, de um take planejado, de uma história bem contada ou de uma relação genuína com o público. Em uma época em que praticamente tudo pode ser revisto por uma tela, talvez o maior valor do entretenimento ao vivo seja continuar oferecendo uma coisa que não pode ser repetida: a sensação de poder dizer “eu estava lá”.
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