‘Tanto Tempo’, de Bebel Gilberto, finalmente chega ao vinil no Brasil, e merece
Disco que inventou a bossa eletrônica faz 26 anos e sai pela primeira vez em LP

Capa de Tanto Tempo, de Bebel Gilberto
Tem disco que envelhece. Tem disco que vira trilha de sala de espera de dentista. E tem disco que, um quarto de século depois, continua soando como se tivesse sido lançado na semana passada. “Tanto Tempo”, de Bebel Gilberto, integra esse último time. Com produção moderna sobre cama retrô, trata-se de um dos álbuns mais importantes da música eletrônica nacional.
A notícia que motiva este texto é ótima. O lançamento de outubro do clube Três Selos Rocinante é justamente “Tanto Tempo”, numa edição de colecionador em vinil roxo translúcido, com textos exclusivos, pôster, adesivos e foto. É a primeira vez que o disco sai em LP no Brasil. Até agora, por aqui, ele só existia em CD. O título está disponível para quem tem a assinatura do clube Três Selos Rocinante.
Demorou 25 anos. Mas antes tarde.
O disco que ensinou o mundo a dançar bossa

“Tanto Tempo” saiu em 2000 pela Crammed Discs, por meio do selo Ziriguiboom. Não foi exatamente uma estreia, porque Bebel já tinha gravado antes, mas foi o disco que a apresentou ao mundo. Que mundo. O álbum passou de 1 milhão de cópias vendidas e recebeu duas indicações ao Grammy. No Pitchfork, ganhou a resenha que deu nota 8.4 ao disco. Uma façanha, considerando que o site é famoso por ser econômico com notas acima de 8.
Números à parte, o que me interessa é o gesto. Na virada do milênio, a música eletrônica brasileira ainda era vista lá fora como curiosidade, e “Tanto Tempo” mudou essa conversa. Pegou a invenção mais delicada que o Brasil já exportou, a bossa nova, e a vestiu com batidas, texturas e programações sem perder um grama de elegância. Ali nasceu o que o mercado passaria a chamar de bossa eletrônica, e uma prateleira inteira de lojas de disco pelo mundo surgiu por causa dele.
Suba, o coração do disco
Não dá para falar de “Tanto Tempo” sem falar de Mitar Subotić, o Suba. Sérvio radicado em São Paulo, era conhecido como “o mais brasileiro dos sérvios”. Quem a apresentou a Bebel foi o produtor e A&R Béco Dranoff, que ela conheceu ao chegar a Nova York. A química foi imediata, e em 1999 os dois se trancaram no Wah Wah Studio, em São Paulo, para construir o disco.
As gravações terminaram em outubro daquele ano. Antes da mixagem final, em Bruxelas, Suba morreu asfixiado pela fumaça de um incêndio em seu apartamento-estúdio. Foi uma perda brutal, daquelas que interrompem uma história no meio da frase. Meses depois, para honrar o que Suba tinha deixado, Bebel, Béco, Antoine Midani e Marc Hollander foram a Bruxelas e terminaram a mixagem com o engenheiro Vincent de Bast.
Sempre ouvi “Tanto Tempo” como um disco feito em São Paulo, e esse é um dado importante. A leveza carioca da bossa está toda ali. Mas o pulso, a programação e a ideia de que o estúdio é um instrumento têm a ver com a cidade e com Suba. Por isso, para mim, ele pertence tanto à história da bossa quanto à da eletrônica brasileira.
Velha guarda e novíssima guarda na mesma sala
Outra coisa que faz deste um disco grande é o elenco. João Donato tocou piano na releitura do seu próprio clássico, “Bananeira”. João Parahyba, do Trio Mocotó, comandou a percussão, e Luís do Monte e Celso Fonseca trouxeram os violões cariocas. Do lado eletrônico, entraram Thievery Corporation, Amon Tobin, que é o autor da base de “Samba da Bênção”, e Mario Caldato Jr., o produtor dos Beastie Boys. Ainda tem “Samba e Amor”, do tio de Bebel, Chico Buarque.
Pouquíssimos discos conseguem colocar Trio Mocotó e Amon Tobin no mesmo encarte sem soar como colagem. “Tanto Tempo” consegue porque tudo passa pela voz de Bebel, que nunca levanta o tom. Filha de João Gilberto e Miúcha, ela sabe desde pequena que não precisa.
Da novela ao ‘Sex and the City’
O alcance do disco foi muito além das pistas. A faixa-título embalou uma cena da quarta temporada de “Sex and the City”. Outras canções foram parar em séries como “Six Feet Under” e “CSI: Miami”, além de filmes como “Closer”, “Comer, Rezar, Amar” e “Rio”. No Brasil, “So Nice (Summer Samba)” fez parte da trilha internacional da novela “Laços de Família”, da TV Globo, e entrou em milhões de casas no horário nobre.
A história também teve um capítulo amargo. Bebel e Béco já estavam em Los Angeles para a cerimônia do Grammy Latino de 2001, marcada para o dia seguinte, quando ela foi cancelada por causa dos atentados de 11 de setembro.
Um disco tão marcado por graves, ambiências e camadas pedia o formato do vinil, e o Brasil estava devendo isso a ele. Faz todo sentido que a reparação venha pela Três Selos Rocinante, um clube que vem tratando o catálogo brasileiro com cuidado de colecionador.
Confira a ficha completa de Tanto Tempo, com faixas e créditos.
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