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Tinashe, ‘POPSTAR’: todas as 16 faixas classificadas

Veja avaliação do novo álbum da rapper e cantora

Tinashe posa com a capa do disco "Popstar" (Reprodução Instagram)

Tinashe posa com a capa do disco "Popstar" (Reprodução Instagram)

Uma guerra está se formando na música pop — e Tinashe está na linha de frente.

À medida que a década de 2020 avança para sua segunda metade, dois grandes arquétipos do estrelato pop feminino passaram a dominar a cena. De um lado, há cantoras e compositoras que escrevem letras confessionais e empunham violões, parecendo, em vários aspectos, perpetuamente estagnadas na época do ensino médio; do outro, temos as “garotas de festa” de comportamento libertino e ousado, que se entregam ao sexo e às drogas em busca de libertação e, no fim das contas, de compreensão.

No cenário atual, ambas as vertentes são esmagadoramente brancas, deixando pouco espaço no mainstream para estrelas pop negras que fazem da música negra um elemento fundamental de sua própria sonoridade, em vez de apenas extrair dela samples discretos.

Desde o episódio em que Al Sharpton chamou Whitney Houston de “Whitey Houston” — pouco antes de ela ser vaiada no Soul Train Music Awards de 1989 — até as recentes discussões nas redes sociais sobre Ravyn Lenae reivindicar o rótulo “pop” para sua nova era “Blue Island”, o debate sobre quem pode se autodenominar — ou ser amplamente reconhecida como — uma “estrela pop” perdura há décadas. Com oito álbuns na bagagem, Tinashe encara essa discussão de frente.

“Popstar”, a sequência oficial de “Quantum Baby” (lançado em 2024), chegou em 25 de setembro pelos selos Nice Life, Atlantic e Tinashe Music, marcando o mais recente capítulo de uma trajetória que, sem passar despercebida, moldou o pop global na última década.

O videoclipe de “Superlove” (2016) tornou-se uma referência fundamental para a estética visual do K-pop no final daquela década, e a identidade visual do álbum “Songs for You” (2019) estabeleceu um novo padrão estético para lançamentos pop do início dos anos 2020.

Durante a era “Quantum Baby”, Tinashe transformou esse impacto — muitas vezes subestimado — em dois sucessos que a levaram de volta à Billboard Hot 100 pela primeira vez em dez anos. “Nasty” surfou em uma tendência de dança viral para alcançar a 61ª posição, e “No Broke Boys” disparou para o 36º lugar graças a um remix de Disco Lines que dominou clubes e festivais de EDM no verão passado.

Tinashe
Tinashe (Instagram/Reprodução)

“Há muita atenção, muita discussão”, disse ela à “Rolling Stone” em uma matéria de perfil antes do lançamento de “POPSTAR”. “As pessoas estão prontas para isso, o que é uma sensação nova.”

Provavelmente há mais olhares voltados para Tinashe antes do lançamento do álbum do que nunca; é justamente por isso que ela entregou um projeto intensamente confrontador, que desafia noções limitadas sobre como a música pop pode soar, parecer e ser sentida. A capa — que traz um close de Tinashe com estrelas literalmente nos olhos, olhando para o horizonte e usando fones de ouvido — irritou alguns fãs pela abordagem decididamente desglamourizada da estética pop.

Mas essa é a intenção. Os fones de ouvido remetem às habilidades impressionantes de produção de Tinashe, as estrelas em seus olhos representam o fascínio vertiginoso do estrelato pop, e sua expressão facial transita entre o deslumbramento, a perplexidade, a determinação e o encantamento. É o retrato de uma estrela pop que trabalha duro há anos para desmantelar e redefinir o estrelato pop à sua própria imagem.

Musicalmente, o álbum de 16 faixas reflete a abordagem cheia de nuances da capa em relação ao estrelato pop, explorando uma coleção surpreendente de sonoridades, incluindo hyperpop, R&B, dance, jazz, new age, bedroom pop e até um toque de country.

Como prova de sua habilidade na organização do repertório, o álbum transita com fluidez por essa variedade de sons ao longo de 40 minutos (uma duração maior do que a de seus dois projetos anteriores somados), mas é a lírica desconcertante de faixas como a introspectiva “Empty Stadiums” ou a catártica “Heavy Weight” que ajuda a ancorar as ambições mais elevadas do disco. Sim, uma estrela pop pode buscar referências em Janet Jackson e Britney Spears com a mesma liberdade com que busca em Santigold, Ciara e Dawn Richard; se ela transforma o pessoal em universal por meio de refrões que não saem da cabeça, então por que não?

“Popstar” é sutilmente sarcástico e gloriosamente ousado, mas Tinashe — ao contrário de muitas de suas contemporâneas — realmente se entrega de corpo e alma e tem talento de sobra para sustentar a proposta.

Confira como a Billboard classifica todas as faixas de “Popstar”, o oitavo álbum de estúdio de Tinashe, da pior para a melhor.

16. “The Show Must Go On”
Um interlúdio inteligente e atrevido de 19 segundos, “The Show Must Go On” interrompe literalmente a autorreflexão de Tinashe com um coro de “popstar, popstar, popstar” que se intensifica progressivamente.

15. “Pillow Fight”
Assim como “Flashbacks”, “Pillow Fight” traz Tinashe de volta ao quarto, cantando de forma sedutora sobre como ela consegue ir “round após round” e “te levar ao chão antes que você peça arrego”. É, sem dúvida, uma das faixas mais leves e descontraídas do projeto, mas esses momentos de leveza sensual mantêm o equilíbrio.

14. “Cloud 9”
Remetendo à era das mixtapes de Charli xcx, a penúltima faixa de “POPSTAR” — ousada e com influências de hyperpop — é aquele momento raro em que o álbum privilegia a sensação em detrimento da substância. Tinashe está claramente nas nuvens (“Cloud 9”), e a produção eufórica reforça isso, mas ela nunca especifica o “algo” que está “finalmente” sentindo.

Presumivelmente, trata-se da conexão e do sexo bom aos quais ela alude no primeiro verso e na ponte, mas “Cloud 9” parece, acima de tudo, a última parada aleatória em um trajeto panorâmico antes da faixa de encerramento propriamente dita do álbum.

13. “Brainrot”
Já existem algumas vertentes do dance-pop sendo chamadas de “música brainrot” (algo como “derretimento cerebral”), então era apenas uma questão de tempo até que uma estrela pop consagrada criasse uma música literalmente intitulada “Brainrot”. Nesta faixa eletrônica e ousada, Tinashe conecta o conceito de “brainrot” das redes sociais dos anos 2020 (essencialmente, conteúdo estúpido que entorpece a mente) a temas clássicos e hedonistas do pop, como “curtir sem compromisso, nem ligar para nada / fumar, beber, festejar”.

Dois aspectos interessantes acontecem aqui. Primeiro, Tinashe sugere a evolução do Estado de vigilância e como ele interage com a vida noturna, cantando

“E espero que você tenha registrado isso na câmera”. A noitada de Tinashe não termina mais quando ela sai da boate; ela fica eternamente registrada naquela câmera — e é exatamente isso que ela quer.

As outras garotas não estão à altura dela, e ela quer provas concretas disso! Por outro lado, o verso de abertura — “I don’t wanna die no more” (Não quero mais morrer) — apresenta uma estrela pop consciente tanto de sua mortalidade quanto do poder transcendental de uma noitada sexy e sem inibições. Talvez não exista música mais intrigante em “POPSTAR”.

12. “Flashbacks”
Como uma prima mais “dura” e cheia de efeitos glitch de “Nasty” e “Bouncin’”, “Flashbacks” traz Tinashe entoando palavras doces e sussurros sedutores sobre uma batida relativamente minimalista, que combina teclados com uma sonoridade lounge e sintetizadores metálicos, tudo isso acompanhado por sua interpretação vocal levemente staccato. É uma faixa despretensiosa, que soa mais como um interlúdio, mas que faz uma transição fluida e agradável para “Overdramatic”.

11. “Overdramatic”
As nuances de jazz lounge presentes em “Flashbacks” surgem com força total logo no início de “Overdramatic”, um interlúdio de 44 segundos que começa com metais cheios de alma e rapidamente se transforma em uma declaração com influências de trap: “Eu quero algo, vou agarrar isso”. Alguém chame a Ariana para transformar isso em uma música completa!

10. “Nobody Wanna Dance Anymore”
Poucas semanas depois de Miley afirmar que “as crianças não querem mais dançar”, Tinashe amplia a discussão, dizendo que “ninguém”, na verdade, “quer mais dançar”. Embora a música dure pouco mais de dois minutos, a faixa mistura curiosamente a interpretação punk-pop (levemente perceptível) de Tinashe com uma produção influenciada pela new wave — algo que não chega exatamente a fazer as pessoas correrem para a pista de dança.

“Entre uma noite agitada e um doce romance / Não vou mentir, prefiro apenas dançar”, ela canta no refrão, posicionando-se como a salvadora oficial da pista de dança nesta faixa de andamento moderado surpreendente. Acrescente a isso o uso, no pré-refrão, de um trecho melódico  inspirado em “Chillin’”, de Lady Gaga, e você tem uma música peculiar que não sai da cabeça.

9. “Melatonin”
As melhores músicas pop prosperam na justaposição — como Tinashe combinando uma batida four-on-the-floor (ritmo constante de bumbo em todos os tempos do compasso), não muito distante da cena ballroom, com uma letra que compara aqueles que ainda não reconhecem seu talento à “Melatonina”.

“Em outro país, chego pela porta dos fundos / Não pode tirar férias comigo, você não tem passaporte”, ela canta com atitude agressiva no segundo verso, sobre uma produção sutilmente sombria que mistura hyperpop e techno. Com Ricky Reed, Zach Sekoff e Nightfeelings unindo forças na produção, “Melatonin” acerta em cheio aquele estilo ligeiramente fora do convencional, porém acessível, que se tornou a marca registrada de Tinashe.

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8. “Twentyfive Eight”
As pessoas não gostam de ouvir isso, as estrelas tendem a não expressar isso e alguns ouvintes ainda não conseguem assimilar a ideia — mas ser uma estrela pop é, legitimamente, um trabalho árduo. Sim, há brilho e glamour, mas também há uma intensidade muito específica na forma como a carreira vai desgastando aspectos como família, privacidade e a própria autoestima.

“All I want to do is what I was meant to do / Spendin’ the days and nights / Climbin’ the ladder to nowhere / Get so emotional thinking ’bout who I used to be” (“Tudo o que quero fazer é o que nasci para fazer / Passando os dias e as noites / Subindo uma escada que não leva a lugar nenhum / Fico tão emotiva ao pensar em quem eu costumava ser”), canta Tinashe no início da primeira estrofe, sintetizando com perfeição o paradoxo entre gratificação e sacrifício inerente à sua jornada pessoal como estrela pop

“Twentyfive Eight” é uma faixa introspectiva que remete levemente a Kelela pela sua honestidade e sonoridade minimalista pontuada por estalos de dedos, destacando-se como uma das melhores músicas da segunda metade de “POPSTAR”.

7. “Too Easy”
O restante da indústria global do pop parece estar sempre correndo para tentar copiar a fórmula de Nashe — mas, para ela, tudo isso é, na verdade, “Too Easy” (fácil demais). Uma música curta e direta que trata com leveza a naturalidade com que Tinashe produz e compõe um hit inquestionável. “Too Easy” chegou como a primeira amostra de “POPSTAR” e continua sendo uma das melhores faixas do álbum.

Dos vocais de apoio estilo K-pop (“la la la”) à sua interpretação despojada nas estrofes, “Too Easy” transborda atitude e confiança, estabelecendo imediatamente Tinashe como alguém capaz de desconstruir as noções convencionais de “pop” justamente por compreendê-las tão intimamente. Aqui, já superamos há muito a fase da mera aspiração.

6. “Crash Out”
Quando se trata do estrelato pop, tudo gira em torno do momento — de certa forma inevitável — de “Crash Out” (perder o controle/explodir). Ou você explode e retorna mais forte, ou definha completamente até cair no anonimato de baixo escalão, ou consegue evitar isso totalmente, apesar de a mídia e o público se esforçarem ao máximo para forçar um colapso em você. A faixa “Crash Out”, de Tinashe, não trata apenas de permitir-se perder o controle; esse sucesso explosivo que mistura trap e R&B é uma exaltação da liberdade que surge quando você desafia as expectativas e se dedica plenamente ao seu próprio caminho.

E, no que diz respeito ao estrelato pop americano, algumas dessas expectativas jamais serão atendidas por uma mulher negra — e é por isso que Tinashe as joga pela janela. “Não quero ser humilde / Não quero mais ser doce”, ela declara. “Não quero ser a boa moça / Não quero ser boazinha; dane-se a educação.” Embora “Crash Out” tenha sido lançada em julho como o segundo single de “POPSTAR”, ela continua sendo uma das faixas mais fortes e importantes do álbum.

5. “Sunglasses”
Naturalmente, “POPSTAR” começa com um gancho — um que também serve como mantra de ancoragem para toda a obra. “Olhar fixo à frente, vejo tudo em foco estreito / Som no talo, música é minha religião”, ela canta enquanto começa a fantasia eletrônica mutável e cheia de efeitos glitch de Arca. Ser uma estrela pop exige trabalho duro e dedicação; daí o foco inabalável de Nashe e seu compromisso quase religioso com a música.

Mas ser uma estrela pop não significa reprimir sua verdade para agradar aos outros; “Tenho opiniões fortes, mas nunca serei uma hater”, ela canta suavemente. “Há um bilhão de outras pessoas, mas só existe uma como eu / Garota independente, e eles se sentem intimidados por você.”

“Sunglasses” é uma porta de entrada impactante; uma faixa que confronta o ouvinte com a imagem clássica de estrela pop (óculos escuros na balada), mas impregnada daquela autoconfiança ostensiva típica do hip-hop e de verdades que, aos poucos, vão revelando a realidade por trás da fachada.

4. “Empty Stadium”
Depois de passar as três primeiras faixas de “POPSTAR” mergulhada na fantasia do estrelato pop, Tinashe aterrissa de volta à realidade, cantando para um “estádio vazio”.

Quando ela canta: “Em um estádio vazio, olhando para as paredes, sem ver saídas / Quando percebo que estou sozinha, cantando há tanto tempo e ninguém ouve / E estou nos palcos esperando por aplausos que nunca virão”, esses versos ganham um peso ainda maior vindo de alguém que navegou pelo sistema das grandes gravadoras e o superou sob os olhos do público, mas que ainda é rotulada como “subestimada” e “ignorada”.

A produção agitada — com referências ao drum and bass — e os arranjos de cordas arrebatadores ecoam a turbulência em sua mente e coração; ainda assim, ela encontra um estado de graça no silêncio daquele estádio — afinal, o primeiro fã de toda estrela pop é ela mesma.

3. “I’d Rather Be Alone”
Os fãs de “Aquarius” vão adorar “I’d Rather Be Alone”, uma balada R&B mais tradicional e com forte presença de guitarra elétrica, na qual Nashe decide deixar para trás um homem que já não lhe serve — e talvez nunca tenha servido. Em um álbum em que ela opta por uma interpretação vocal mais suave e leve, é um verdadeiro deleite ouvir Tinashe soltar a voz com potência total nesta faixa.

A letra é surpreendentemente direta: “Prefiro arrancar o curativo de uma vez a ficar cutucando até sangrar / Chega um ponto em que acreditar que você vai mudar é uma ilusão tola”.

Suas composições não estão repletas de easter eggs ou alusões ultraespecíficas à sua vida pessoal, mas ainda assim capturam aquela “autenticidade” sempre esquiva — algo que obceca e, ao mesmo tempo, aprisiona grande parte do pop contemporâneo. Uma boa estrela pop deve ser capaz de simplificar uma combinação complexa de emoções em uma música de três minutos; felizmente, Tinashe sempre encara esse desafio.

2. “Popstar”
É uma atitude ousada batizar o álbum de “POPSTAR” — e ainda mais corajoso lançar uma faixa-título com esse nome. Mas, novamente, estamos falando de Tinashe, então prepare-se. Em “Popstar”, ela vive a versão hollywoodiana de sua vida enquanto expõe os sacrifícios, as concessões, as renúncias e os males que acompanham a conquista do estrelato pop que ela buscou a vida toda.

A segunda estrofe traz alguns dos melhores versos de sua carreira: “Alpinistas sociais não fazem meu tipo / Mas sei muito bem fingir que faço parte”, ela dispara. “Consigo entrar no jogo para garantir meu lugar à mesa / Ainda assim, dou uma maquiada na situação, mas não passa de uma miragem / Vou deixar minhas preocupações estacionadas na garagem dos meus pais”.

Em uma era de identificação forçada e artificial que permeia praticamente todos os cantos da música pop, é um verdadeiro prazer ouvir uma estrela pop reconhecer tão abertamente o artifício inerente à indústria. Sendo, ao mesmo tempo, um alerta e uma aspiração, a faixa “Popstar” reflete essa dualidade lírica por meio de uma melodia que, propositalmente, não chega a ser um hino grandioso.

Ela não quer tanto que você compre a ideia desse conceito de “popstar”, mas sim que questione o que você acha que sabe sobre o potencial e as possibilidades do estrelato pop em geral.

1. “Heavy Weight”
Mesmo nossos artistas pop mais ousados ​​sabem quando é hora de simplificar e reduzir tudo ao essencial. Acompanhada apenas pelo violão, Tinashe encerra “POPSTAR” com uma reflexão sincera sobre a exaustão extrema — e que tema final apropriado. “Sei que todos contam comigo para manter tudo sob controle / E estou me matando para tentar melhorar as coisas”, ela revela na segunda estrofe. “Então, eu apenas trabalho mais / Sou a filha mais velha / E nada vai mudar.”

Em algum momento, músicas como essas passaram a ser o foco principal dos álbuns pop, em vez de servirem como complementos inteligentes para um conceito ou narrativa maior e mais nuançada. A honestidade delicada de “Heavy Weight” é tão eficaz justamente por coexistir com faixas mais irônicas e atrevidas, como “Too Easy” e “Popstar”.

É essa variedade e dimensão que tornam o pop um espaço eternamente dinâmico, e Tinashe acerta em cheio com essa belíssima faixa de encerramento.

Ouça Tinashe