Alaíde Costa é a homenageada da 10ª cerimônia do WME Awards
Aos 90 anos, a cantora ajudou a moldar a bossa nova. Cerimônia será em 15/12

Alaide Costa (Murilo Alvesso)
O WME Awards by Billboard anunciou sua homenageada de 2026: Alaíde Costa. A escolha marca uma edição especial, já que o prêmio, criado para reconhecer o trabalho das mulheres na música brasileira, chega à sua 10ª edição. A premiação acontece dia 15 de dezembro, em São Paulo. A Billboard Brasil é a mídia oficial do WME Awards e transmite a cerimônia em seu canal no YouTube.
Poucas trajetórias traduzem tão bem o propósito do prêmio quanto a de Alaíde. Estrela do começo da bossa nova, dona de uma das vozes mais refinadas que o país já ouviu, ela passou boa parte da vida à margem dos holofotes que iluminaram seus contemporâneos. Só nos últimos anos o Brasil começou a pagar essa dívida.
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Do subúrbio carioca à gênese da bossa nova
Alaíde Costa nasceu em 8 de dezembro de 1935, no Rio de Janeiro, e cresceu em Água Santa, bairro do subúrbio carioca. Filha de um padeiro e de uma lavadeira, começou a cantar ainda criança nos programas de calouros das rádios Tupi e Nacional. Em 1955, já era crooner profissional do dancing Avenida.
Foi apresentada por João Gilberto aos jovens compositores que, no fim dos anos 1950, estavam reinventando o samba. Em 1959, lançou pela RCA Victor seu primeiro LP, “Gosto de Você”, e se tornou uma das primeiras intérpretes do movimento que mudaria para sempre a música brasileira. Em 1964, sua apresentação no programa O Fino da Bossa a projetou para um público maior.
A delicadeza das interpretações, o fraseado preciso e o timbre suave se tornaram sua marca. Ainda assim, quando a bossa nova ganhou o mundo, ela ficou de fora. Alaíde não estava no elenco do célebre concerto no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962, que apresentou o gênero aos Estados Unidos com João Gilberto, Tom Jobim e outros nomes. Mulher negra num movimento associado à classe média branca da Zona Sul carioca, ela viu a porta se estreitar enquanto outros atravessavam.
“Paguei um preço bem caro por cantar do meu jeitinho, mas me considero uma mulher corajosa”, disse ela em entrevista ao Sesc São Paulo.
Alíde Costa, a única mulher do Clube da Esquina
A carreira de Alaíde nunca coube em um só rótulo. Em 1972, ela foi a única mulher a participar do álbum “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento e Lô Borges, um dos discos mais importantes da história da música brasileira, interpretando “Me Deixa em Paz” (Monsueto e Airton Amorim) em dueto com Milton. A parceria rendeu shows dos dois no Rio de Janeiro.
Ao longo das décadas seguintes, manteve uma produção constante e muitas vezes independente. Já em 1961 havia bancado do próprio bolso o disco “Alaíde, Joia Moderna”. Sem depender de modismos, construiu um repertório de canções de câmara, samba-canção e MPB que a crítica sempre respeitou, mesmo quando o mercado lhe deu pouco espaço. Em 2005, recebeu o Prêmio Rival Petrobras de Melhor Cantora.
Alaíde Costa: a consagração, enfim
A virada veio na última década, quando uma nova geração se voltou para a obra de Alaíde. Em 2020, ela estreou no cinema em “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, e levou o Kikito de melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado. Tornou-se a pessoa mais velha a receber o troféu.
Em 2022, lançou “O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim”, uma obra-prima, produzida por Emicida e Marcus Preto. O disco foi eleito o melhor lançamento do ano no 30º Prêmio da Música Brasileira, e Alaíde foi aplaudida de pé no Theatro Municipal do Rio. Em 2024, o mesmo time, agora com Pupillo, assinou “E o Tempo Agora Quer Voar”. No mesmo ano, ela gravou “Pérolas Negras Ao Vivo” ao lado de Zezé Motta e Eliana Pittman.
Aos 90 anos, completados em 2025, lançou “Uma Estrela para Dalva”, em homenagem a Dalva de Oliveira, e recebeu da Câmara Municipal do Rio a Medalha Pedro Ernesto. “Se eu morrer hoje, morro muito feliz e grata”, resumiu ela sobre esta fase da vida.
Dez cerimônias colocando as mulheres no centro
O WME, sigla para Women’s Music Event, nasceu em 2016 como plataforma de debate e visibilidade para as mulheres da indústria musical, criada por Monique Dardenne e Claudia Assef (esta que vos escreve). No ano seguinte, com a chegada de Fatima Pissarra como sócia, criaram o WME Awards, o primeiro prêmio da música brasileira dedicado exclusivamente a elas, reconhecendo artistas, compositoras, instrumentistas, produtoras e profissionais dos bastidores.

A homenagem é uma tradição do prêmio desde a primeira cerimônia. A lista de celebradas forma um retrato da música feita por mulheres no Brasil, sempre trazendo à luz uma grande artista em atividade e uma homenageada póstuma. Em 2017, no ano de estreia, as escolhidas foram Rita Lee e Helena Meirelles; Elza Soares e Dona Ivone Lara em 2018; Gal Costa e Beth Carvalho em 2019; Alcione e Elis Regina em 2020; Sandra de Sá e Cássia Eller em 2021; Elza Soares e Margareth Menezes em 2022; Dona Onete e Rita Lee em 2023; Lia de Itamaracá e Nara Leão em 2024; e Preta Gil em 2025.
Desde 2023, a Billboard Brasil é a mídia oficial do prêmio. Em 2025, a cerimônia aconteceu no BTG Pactual Hall, em São Paulo, com apresentação de Sarah Oliveira, Teresa Cristina e Karol Conká.
“Chegar à 10ª cerimônia com Alaíde Costa tem um significado especial. Se o WME Awards existe para corrigir a invisibilidade histórica das mulheres na música, poucas artistas encarnam tão bem essa história quanto ela, que esteve na origem da bossa nova, cantou no Clube da Esquina e precisou esperar mais de seis décadas para ser celebrada como merece”, diz Fatima Pissarra. “A artista que por tanto tempo cantou ‘do seu jeitinho’, sem pedir licença, agora recebe o tributo de um prêmio que nasceu justamente para abrir espaço”, completa Monique. Como diria a própria Alaíde, no final, “tudo valeu a pena”.
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