Como ‘Discovery’, do Daft Punk, previu o futuro da música pop
Billboard analisa 10 formas pelas quais o álbum de 2001 antecipou tendências

Daft Punk (Grosby Group)
Se dermos crédito às 15 temporadas de “Alienígenas do Passado” — a série de cunho pseudocientífico que é um pilar da programação do History Channel —, formas de vida extraterrestres visitaram, em tempos remotos, as civilizações primitivas da Terra. Utilizando tecnologia muito superior à da Idade do Bronze, eles ergueram monumentos impressionantes, paisagens urbanas, estruturas megalíticas e geoglifos.
Muitas dessas relíquias, como as Linhas de Nazca, no Peru, tinham propósitos tanto espirituais quanto científicos, sendo construídas para observar corpos celestes ou marcar a mudança das estações. Após presentearem a humanidade com essas estruturas e os conhecimentos a elas associados, os alienígenas partiram abruptamente, deixando os terráqueos encarregados de desenvolver ciência e cultura a partir de suas dádivas galácticas.
Em fevereiro de 2012, a dupla francesa de música eletrônica Daft Punk anunciou repentinamente o fim de suas atividades, deixando para trás um legado de três décadas repleto de marcos culturais de enorme relevância. A trajetória pouco convencional não foi marcada pelos altos e baixos, pela produção frenética ou pelos dramas típicos de programas como “Behind the Music” — elementos que geralmente acompanham artistas de fama internacional.
(Mesmo que houvesse tais dramas, provavelmente não saberíamos, já que Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter jamais abriram mão de sua imagem pública anônima, com máscaras de robô, e de uma vida pessoal extremamente reservada.)

Em vez disso, eles lançavam esporadicamente músicas revolucionárias e passavam o restante do tempo nas sombras. Cada um de seus quatro álbuns de estúdio funcionou como uma Pedra de Roseta lançada em uma sopa primordial, gerando ondas de impacto que se propagaram e provocaram sucessivas transformações na música e na cultura pop.
Assim como ocorre com as antigas Maravilhas do Mundo, é possível identificar elementos preexistentes às visitas dos alienígenas (ou, no caso do Daft Punk, dos robôs) — técnicas de corte de tijolos, um sample de disco music, sistemas rudimentares de polias, a influência clara da house music de Chicago (EUA) —, mas até mesmo especialistas têm dificuldade em explicar como qualquer ser terreno conseguiu conceber e executar o produto final.
Apesar de terem passado por quatro eras distintas e inovadoras, nenhum lançamento do Daft Punk revolucionou o cenário como “Discovery”, de 2001. Em seu segundo álbum, a dupla deixou para trás suas raízes mais tradicionais de house e techno para criar algo que era, ao mesmo tempo, pop e reverente à música dance, retrô e futurista.
Vários de seus singles tornaram-se sucessos globais, especialmente a faixa de abertura “One More Time”; no entanto, as críticas iniciais foram divididas, com alguns críticos torcendo o nariz para a sinceridade desinibida do álbum. Após duas décadas em que a música eletrônica conquistou o mainstream, seria difícil encontrar outro álbum de dance music do século XXI tão bem-sucedido, amado e influente em escala global. “Discovery” estabeleceu uma sonoridade única e definitiva do Daft Punk — algo que inspirou uma geração, mas que não se repetiu exatamente nos lançamentos seguintes da dupla, os quais continuaram a expandir horizontes e a incorporar novos universos musicais.
Mesmo antes do anúncio da separação, não era preciso procurar muito para encontrar elogios à “Discovery” vindos de músicos cujas obras definiram o século XXI. Mas, para compreender melhor como o álbum antecipou tendências modernas, a Billboard decidiu investigar essas opiniões mais a fundo. Com a colaboração de 16 artistas e profissionais do setor, apresentamos 10 maneiras pelas quais essa obra-prima extraordinária do Daft Punk previu o futuro da música pop.
1. Desmistificou o caráter “brega” na música dance e pop de vanguarda
Se você lesse as primeiras críticas — especialmente nos EUA —, jamais imaginaria que “Discovery” estava destinado a se tornar um pilar do cânone da música eletrônica. Entre reclamações sobre ironia e artifícios superficiais, os críticos atacaram o caráter “brega” do álbum, especialmente suas incursões pela sonoridade do soft rock dos anos 70 e 80 — alcançadas tanto pelo uso de instrumentos antigos, como o teclado Wurlitzer e a bateria eletrônica LinnDrum, quanto pelo sampling de artistas declaradamente fora de moda, como Barry Manilow e George Duke.
“A especialidade do Daft Punk é resgatar ideias há muito relegadas à lata de lixo da história”, escreveu Alexis Petridis, do “The Guardian”. Joshua Klein, do “A.V. Club”, achava que muitas das músicas do álbum soavam “tão deliberadamente retrô que frequentemente caíam nas mesmas armadilhas que derrubaram a disco music: o hedonismo banal em detrimento da ressonância emocional”.
O fundador da “Pitchfork”, Ryan Schreiber, em uma crítica que ficou famosa pela nota 6,4, classificou a música como um indesejado “Frankenbaby” (filho de Frankenstein) do rock progressivo e da disco, escrevendo: “Essa besta, por mais grotesca que seja, é relativamente inofensiva”.
Os artistas de música eletrônica Porter Robinson e Madeon eram pré-adolescentes na época do lançamento de ‘Discovery’ e, embora fossem jovens demais para vivenciar a repercussão negativa da imprensa, hoje olham para trás com um misto de diversão e escárnio. “As críticas negativas a ‘Discovery’ são o melhor exemplo prático que tenho de por que não vale a pena se estressar com a crítica musical”, diz Robinson. “Vou colocar desta forma: cada crítica negativa à ‘Discovery’ envelheceu cerca de um milhão de vezes pior do que o próprio álbum.”
“Discovery” foi concebido, em parte, como uma homenagem à “ingenuidade e à falta de pretensão da infância”, diz Madeon — o que ele acredita ser a razão para a natureza “anti-esnobismo” do álbum. “Não é uma desculpa para ser cafona; é apenas uma desculpa para ser autêntico e fiel à emoção.”
2. Combateu estereótipos de que a música eletrônica seria estéril ou asséptica
A música eletrônica ocupa um lugar nas pistas de dança desde que começou a se infiltrar e transformar a disco music em meados dos anos 70. Ao longo da década de 90, a cena big beat do Reino Unido deu continuidade ao legado de animar festas que havia se expandido com as cenas de house e techno de Nova York, Chicago e Detroit nos anos 80.
Apesar disso, o universo mais amplo da música eletrônica ainda podia parecer inacessível às vezes, fosse pela ascensão da cerebral IDM (“intelligent dance music”) ou pela percepção, nos EUA, de que a “música de rave” era repetitiva e vazia. Apesar da aparência androide de seus criadores, “Discovery” ofereceu uma abordagem reconfortantemente humana da música dance, introduzindo um toque mais suave, certa ludicidade e uma ausência quase total de pretensão.
Os videoclipes inovadores e o marketing inteligente do grupo também ajudaram. O álbum serviu tanto como uma porta de entrada para os não iniciados na música eletrônica quanto como um modelo para a próxima grande explosão do gênero: a EDM.
“Eu não ouvia muita música eletrônica na época e acho que, antes disso, a maioria dos álbuns eletrônicos era bastante fechada em si mesma e nas regras de seu gênero”, diz o DJ e cofundador da gravadora Fool’s Gold Records, A-Trak. “Fiquei impressionado… O álbum era explosivo, eufórico e cheio de imaginação.”
“‘Discovery’ foi uma ótima introdução [ao Daft Punk] porque era muito acessível”, diz o músico eletrônico Baauer sobre o primeiro CD que comprou — e que continua sendo seu álbum favorito até hoje.
“É engraçado pensar que as pessoas os criticavam por terem se tornado muito ‘pop’, mas, para gente como eu — e tenho certeza de que para muitos outros —, foi justamente isso que me atraiu. Era legal poder descobrir depois o ‘Homework’ [álbum de estreia do Daft Punk, de 1997] e pensar: ‘Certo, aqui está o som mais pesado’.”
Por outro lado, “Discovery” também atraiu ouvintes de nichos mais específicos, como Evan Mast, da banda de electro-rock Ratatat. “Eu ouvia muita música eletrônica mais abstrata e tendia a evitar a dance music antes do [Discovery]. Mas o Daft Punk foi a prova, para mim, de que a dance music podia ir além, ser experimental e também realmente interessante”, diz ele.
O fato de o Daft Punk conseguir ser, ao mesmo tempo, experimental e acessível não é pouca coisa; o “Discovery” alcança isso, em parte, graças à sua simplicidade arrebatadora. “A questão da música eletrônica é que é muito fácil torná-la infinitamente complexa e carregada de elementos”, diz Kevin Parker. “Sempre acho que o Daft Punk tem aquela abordagem ousada de simplesmente deixar a música ser o que é: supersimples e supereficaz.”
O Daft Punk herdou grande parte dessa abordagem ousada e minimalista da house music de Chicago, um subgênero que eles reverenciavam e ao qual prestavam homenagem — de forma bastante explícita em “Homework”, mas também em vários momentos de “Discovery”. O álbum de estreia trazia a faixa “Teachers”, cuja letra consistia apenas em uma lista das maiores influências da dupla — muitas delas DJs de Chicago. DJ Rush, um veterano na ativa desde o início dos anos 90, estava entre eles. Assim como muitos outros, ele também demonstra profunda admiração pela falta de pretensão do Daft Punk.
“Percebo que alguns produtores levam as coisas muito a sério e não colocam diversão ou ousadia em sua música”, diz ele. “O Daft Punk sempre ousou, foi criativo e se divertiu com cada lançamento… Eles não tinham medo de misturar as coisas.”
3. Trouxe a composição pop para a música eletrônica
Um dos principais motivos pelos quais “Discovery” se destaca por sua acessibilidade em comparação a outras obras de música eletrônica — ou até mesmo ao álbum anterior da dupla, “Homework” — é a inclusão de ganchos melódicos e estruturas de canção típicos do pop tradicional.
Com o passar dos anos 2000, essa característica tornou-se muito mais comum na música eletrônica; na época do auge da EDM, no início da década de 2010, as colaborações entre produtores de música dance e estrelas das paradas de sucesso funcionavam essencialmente como música pop pura, dispensando até mesmo o rótulo de gênero “eletrônico”. Embora não tenha sido o primeiro trabalho a fundir a composição pop das paradas com a produção de house, “Discovery” ainda é considerado uma referência fundamental de domínio da linguagem pop entre alguns dos maiores nomes da EDM.
“Para mim, ‘Discovery’ tem muito mais musicalidade, no sentido tradicional, do que os outros álbuns [do Daft Punk]”, diz Zedd — um dos megaprodutores que definiram o auge da EDM —, que considera “Discovery” “um dos álbuns mais influentes de todos os tempos”. “Não que eu não goste dos outros álbuns, mas, pessoalmente, encontrei muito mais elementos neste disco com os quais me identificar.”
Assim como Zedd, Baauer foi atraído inicialmente por “Discovery” por meio do primeiro single, “One More Time”, que se tornou o maior sucesso mundial do Daft Punk até hoje. “‘One More Time’ ser música eletrônica, mas também uma canção pop… foi definitivamente uma das primeiras a unir essas duas coisas”, diz ele.
“A música segue a lógica da composição pop — tem um gancho marcante e memorável —, obedece a todas as regras do pop e traz vocais divertidos e com uma pegada pop, ao mesmo tempo em que é uma faixa de música eletrônica baseada em samples. E acho que já vivemos em um mundo em que qualquer música pop é, na verdade, música eletrônica. Isso se tornou o padrão.”
A importância de “Discovery” como alicerce para a música eletrônica com forte influência pop das últimas duas décadas é imensurável; no entanto, muitas vezes é preciso um músico mais jovem, influenciado pelo Daft Punk, para apresentar a música da dupla a uma nova geração.
“Jovens fãs de música eletrônica que ainda não o fizeram”, tuitou Porter Robinson em 2013, “por favor, ouçam agora o álbum ‘Discovery’, do Daft Punk. Não tenham vergonha; apenas corram atrás do prejuízo.” Ao ser questionado sobre isso hoje, ele explica: “Tenho a sensação de que o ‘Discovery’ pareceria algo profundamente criativo e puro para os fãs de música eletrônica atual. Acho que o Daft Punk abordou as estruturas das músicas do ‘Discovery’ de uma forma muito pop, com aquela dinâmica de verso e refrão, mas a música é tão autêntica e fiel ao seu próprio estilo.”
É claro que, para uma dupla tão comprometida com a curadoria própria e a evolução artística, a incursão do *Discovery* na música pop foi mais do que uma tentativa de apelo comercial. Jason Bentley, ex-diretor musical da renomada estação de rádio pública KCRW, de Los Angeles, também atuou como supervisor musical do filme “Tron: O Legado” (2010), cuja trilha sonora foi composta pelo Daft Punk. Ele oferece uma explicação mais teórica sobre o uso mais frequente de vocais e sonoridades familiares pela dupla no “Discovery”: “A trajetória mais ampla do que o Daft Punk representa consiste em traçar um círculo que conecta a tecnologia à sensibilidade humana — e o “Discovery” explorava ainda mais esse ‘espírito na máquina’.”
Ouça ‘Discover’, do Daft Punk
4. Popularizou a reinvenção radical de um álbum para outro na música eletrônica
Todo álbum do Daft Punk que não seja “Homework” recebeu sua cota de críticas por não soar como o álbum anterior do Daft Punk. “Random Access Memories” não era eletrônico o suficiente, “Human After All” não era cativante o suficiente, “Discovery” era pop demais.
Como um marco mais profundo, mais áspero e mais voltado ao groove do techno funkeado, a estreia da dupla em 1997 projetou uma sombra imponente. “Homework” era mais descolado, no sentido tradicional da palavra, de jaqueta de couro e cigarro na boca. E, embora estivesse mais empenhado em misturar todos os gêneros dançantes existentes do que os artistas intensamente ortodoxos de house/trance/techno da época, continua sendo o álbum do Daft Punk mais aceitável para os puristas.
“A gente tende a esquecer, mas a quantidade de fama, hype e pressão que eles enfrentavam [depois de “Homework”] deve ter sido realmente absurda”, diz Madeon. “E agora está muito claro, no panorama, por que esse foi um passo tão significativo, para a carreira deles e para a música eletrônica como um todo.”
A artista eletrônica Alison Wonderland concorda. “Acho que, para um grupo eletrônico, experimentar e evoluir como o Daft Punk fez ao longo da carreira é superinspirador, e vê-los fazer isso de álbum para álbum é incrível, especialmente de ‘Homework’ para ‘Discovery'”, ela diz. “Ultrapassar limites e abraçar outros gêneros dentro da música eletrônica ajuda o gênero a avançar e sempre vai criar um som novo e interessante.”
Outros músicos eletrônicos certamente já haviam mudado de forma ao longo de suas carreiras antes de o Daft Punk entrar em cena — veja o Aphex Twin aumentando gradualmente a intensidade entre “Selected Ambient Works” e “Richard D. James Album”, ou o The KLF alternando entre o ambient e o stadium house em suas eras “Chill Out” e “The White Room” —, mas, de modo geral, os artistas do gênero na época não priorizavam álbuns completos com propostas radicais, muitas vezes deixando que singles e EPs falassem por eles. O Daft Punk transformou a reinvenção radical em um objetivo atraente (e, para alguns artistas, primordial).
“”Discovery”, esse passo, foi o que transformou o Daft Punk de um grande grupo de house em O Daft Punk”, diz Madeon.
“Ele plantou todas essas sementes, e isso não teria acontecido se eles tivessem feito o movimento fácil. A cada álbum, eu e muitos colegas que sei que também reverenciam o Daft Punk nos perguntamos: ‘Esta é uma era distinta o suficiente para acrescentar ao repertório de universos que construímos?’ Essa é a lição que ‘Discovery’ ensinou.”
5. Deu ênfase igualmente forte aos componentes visuais do álbum
Embora disfarçassem os rostos com várias máscaras baratas de loja de fantasias desde que começaram a aparecer em público como Daft Punk, Bangalter e de Homem-Christo, só revelaram seu hoje icônico visual de robôs em 2001. Como demonstração de compromisso servil com a apresentação visual, isso foi um prenúncio da estética cuidadosamente elaborada de “Discovery”. Também despertou o interesse das crianças.
“Eles serem robôs, só por si só, já era legal”, diz Baauer, que tinha 11 anos quando “Discovery” foi lançado. “Tipo, ‘Esses caras se vestem de robô, que legal’, num nível bem superficial, sabe? Acho que não entender muita coisa [no começo] me deixou realmente fascinado. Porque depois eu descobri ‘Interstella 5555’, e não entendia muito bem do que se tratava, mas achava muito legal.”
“Interstella 5555” é o anime que o Daft Punk lançou como companheiro visual de “Discovery”, uma espécie de videoclipe estendido que também funciona, por si só, como uma narrativa sem diálogos.
Ele só foi lançado na íntegra em 2003, mas, alguns meses depois do lançamento do álbum, três trechos de “Interstella” (com singles de “Discovery”) foram exibidos em maratonas de videoclipes no bloco Toonami do Cartoon Network — notavelmente ao lado dos primeiros clipes animados do Gorillaz, que levariam a estética de banda de desenho animado a novos patamares nas décadas seguintes, começando com seu próprio álbum de estreia homônimo, “Gorillaz”, de 2001 — e, mais tarde, em outros canais de vídeo.
“Eu estava no meu quarto com alguns amigos quando era adolescente, e o clipe de “One More Time” começou a passar e eu me apaixonei pela música — fiquei obcecado”, diz Skrillex. “Eu adorava a festinha alienígena e a animação… a coisa toda me atingiu com muita força.”
Assim como “A Hard Day’s Night”, “Purple Rain” e “The Wall” antes dele, “Interstella” é um marco na linhagem dos “álbuns visuais”, um formato que continuou popular no novo milênio, com artistas tão diversos quanto Beyoncé, Sturgill Simpson e Animal Collective entrando na brincadeira. Em tese, o filme está ali para acrescentar contexto, ou ao menos um acompanhamento adequado, aos temas do álbum, o que é uma proposta complicada para um álbum tão pouco narrativo quanto “Discovery”.
Bangalter e Homem-Christo convocaram Leiji Matsumoto, criador de alguns de seus desenhos animados favoritos da infância, como supervisor do filme, o que combina com a sensação geral de nostalgia do álbum. Mesmo que o enredo tenha muito pouco a ver com os já frágeis temas das letras, o formato faz sentido.
Madeon conheceu “Discovery” por completo através de “Interstella”, ainda muito novo, e hoje entende que o filme, junto com materiais promocionais como bonecos e cards colecionáveis, estava “mirando adultos, mas usando uma estética infantil”, em vez de tentar conquistar ativamente o público pré-adolescente.
“Mas eu era uma criança consumindo aquilo totalmente ao pé da letra — sem ironia, sem nostalgia, só uma criança assistindo a um desenho, ganhando cards numa revista”, ele diz. “Tenho certeza de que eles tinham pensado nisso de alguma forma, mas duvido que esse público infantil estivesse no centro das preocupações deles.”
Ao contrário da maior parte das coisas pelas quais nos apaixonamos na infância, “Discovery” parece ter permanecido na vida de quem foi atraído, ainda jovem, por seus adereços chamativos. O músico eletrônico Gryffin diz que, apesar de curtir os singles na época, era jovem demais para apreciar plenamente o álbum quando ele foi lançado. “Mas, à medida que fui crescendo e aprendendo a fazer música eletrônica”, ele diz, “comecei a valorizar totalmente a profundidade e a amplitude que esse álbum tem, muito além de simplesmente criar hits para a pista.”
6. Ganhou proporções gigantescas quando tocado ao vivo
“O engraçado da influência de “Discovery” é que ela também foi sentida bem mais tarde na década”, diz A-Trak. “Quando o Daft Punk finalmente saiu em turnê em 2006-2007, eles tocaram muitas músicas de “Discovery” e apresentaram o álbum a toda uma nova geração.”
O Daft Punk lançou “Human After All”, o sucessor de “Discovery”, em 2005. O álbum teve uma recepção crítica ainda mais dura, beirando a indiferença em alguns casos. Se eles tivessem se concentrado principalmente em material novo em seus primeiros shows em quase uma década, quem sabe como a turnê teria se saído. Em vez disso, a dupla apostou na boa vontade acumulada com seus dois primeiros álbuns e entregou uma apresentação no estilo megamix que se tornou lendária.
No Coachella de 2006, o Daft Punk revelou seu show ao vivo completamente reformulado, com uma cabine de DJ em formato de pirâmide e telões de LED revolucionários. Até o fim de 2007, eles haviam feito 43 shows ao redor do mundo na turnê “Alive” 2006/2007, todos com a mesma estrutura elaborada.
“Eles fizeram um trabalho incrível com a produção”, diz Evan Mast, do Ratatat, que abriu para a dupla em uma série de datas nos EUA. “É um grande risco para um artista investir num show desses. Você precisa colocar muita coisa logo de início e simplesmente torcer para que tudo valha a pena no final.”
Resumindo: valeu. Para garantir que a apresentação pudesse ser apreciada por mais do que apenas quem estava nos shows, o Daft Punk a eternizou no álbum ao vivo “Alive 2007”, cujo single principal era uma nova versão de “Harder, Better, Faster, Stronger”, de “Discovery”. Para quem não teve a sorte de vivenciá-lo pessoalmente, como Kevin Parker, o álbum é uma grande fonte de FOMO.
“É uma apresentação lendária da música eletrônica”, ele diz. “Se você me perguntasse em qualquer dia — não só numa entrevista temática sobre o Daft Punk — qual é o maior arrependimento da minha vida, é não ter visto o Daft Punk ao vivo em 2007.”
Tanto Skrillex quanto Baauer tiveram a sorte de assistir a shows da turnê e citam a experiência como uma influência formadora em suas carreiras, assim como muitos outros produtores eletrônicos de peso da mesma geração.
“‘Alive 2007’ deu início à febre dos festivais de EDM” virou a versão moderna de “a era hippie acabou em Altamont” ou “”Nevermind” matou o hair metal” — uma explicação simples e fácil para uma tendência que envolve muito mais fatores —, mas há alguma verdade nisso. A música eletrônica ao vivo explodiu nos EUA no início dos anos 2010 e, com ela, os orçamentos para equipamentos de palco.
Talvez a prova mais surpreendente do interesse contínuo no Daft Punk como artistas ao vivo (tirando três aparições no Grammy, o último show deles foi em 2007) seja o surgimento de vários grupos de tributo, algo antes impensável no mundo da música eletrônica, feito de botões e controladores. O de maior sucesso é o “One More Time”, uma dupla formada para tocar numa festa de Halloween universitária em 2010 e que, desde então, levou seu show reverente a turnês mundiais.
“Achei que [a turnê ‘Alive’ 2007] foi um enorme ponto de virada nas apresentações eletrônicas ao vivo”, diz Ben Linsenmeyer, do One More Time. “Foi a primeira vez que eu, como muita gente, vi um grupo eletrônico se apresentar com um palco e uma produção grandiosos. Parece que uma luz se acendeu, e a produção dos artistas eletrônicos disparou depois daquele show, todos tentando capturar a mesma energia e emoção.”
Acima do resto da discografia do Daft Punk, diz Linsenmeyer, “Discovery” é a chave para o sucesso ao vivo dele (e do Daft Punk). “”Discovery” é um álbum dançante, [no sentido de que] não é para ser julgado ou analisado, e sim para ser divertido”, ele diz.
“Embora as vozes tenham vocoder e muitos dos instrumentos tenham muitas camadas, a música de “Discovery” parece mais uma história. Tem um começo e um fim fortes, com interlúdios emocionantes e até uma canção de amor. Todos esses elementos realmente criam o modelo para um show ao vivo que leva o público numa viagem que ele nunca esperava.”
7. Influenciou diretamente o boom do french house de meados ao fim dos anos 2000
Num nível mais imediato e em menor escala, o Daft Punk costuma ser apontado como pai da onda de french house e electro que começou entre meados e o fim dos anos 1990 e atingiu o auge em meados dos anos 2000. Também conhecida como “French Touch 2.0” (uma referência à primeira onda da disco francesa nos anos 1970 e 1980), essa cena foi influenciada não só pelo Daft Punk como dupla, mas também pelas atividades solo de Homem-Christo e Bangalter na época.
Cada um comandava separadamente uma gravadora influente (Crydamoure e Roulé, respectivamente), e, com seu projeto de um só lançamento, o Stardust, Bangalter lançou em 1998 o megahit “Music Sounds Better With You”, que entrou nas paradas de 20 países e teve papel importante na popularização global do som nu-disco. Mas, apesar de uma cena lotada de produtores e DJs com ideias parecidas, a música amplamente distribuída do Daft Punk ainda parece levar a maior parte do crédito por ter sido pioneira no estilo.
“[O Daft Punk] era visto como o pai do electro francês por uma nova safra de produtores”, diz A-Trak, que, apesar de não fazer parte dessa cena, lançou uma mixtape pela gravadora francesa de electro/hip hop Disque Primeur em 2006 (por coincidência, a mix inclui um trecho de “Da Funk”, do Daft Punk). Ron Diep, do One More Time, concorda, destacando a importância específica de “Discovery” e o quanto o Daft Punk era inseparável do restante da cena francesa: “[“Discovery”] realmente consolidou o ‘som’ do Daft Punk para mim, tanto em relação aos álbuns futuros quanto à emergente cena de house/electro francês.”
Além da Crydamoure e da Roulé, o Daft Punk tinha outra ligação mais direta com a cena: seu empresário de longa data, Pedro Winter, fundou em 2003 aquela que se tornaria, possivelmente, a gravadora eletrônica francesa mais importante dos anos 2000.
A Ed Banger Records lançou músicas de artistas franceses como Breakbot, Sebastian, Cassius, Mr. Oizo, o próprio Winter sob o nome “Busy P” e, talvez o mais importante, Justice, cujas apresentações ao vivo opulentas e uso frequente de samples de disco fizeram deles os herdeiros mais evidentes do Daft Punk.
Embora não possa reivindicar totalmente a “invenção” do french house, o som característico e devedor da disco de faixas de “Discovery” como “Aerodynamic”, “Crescendolls” e “High Life” deixou uma marca indelével numa cena de música eletrônica vibrante. “O Daft Punk sempre esteve à frente do seu tempo”, diz Jason Bentley, “e acho que “Discovery” marcou a ascensão de um som disco francês baseado em samples a novos patamares.”

8. Apoiou-se em samples de outras épocas
“Com o passar dos anos, passei a valorizar muito mais o uso de samples em [“Discovery”] e a diversidade de lugares de onde eles tiraram esses samples”, diz Robby Hauldren, da dupla eletrônica Louis the Child. “Acho que essa é uma parte do Daft Punk que as pessoas às vezes deixam passar: eles são mestres do sample.”
O sampling é inseparável da música eletrônica desde o nascimento do gênero; portanto, embora “Discovery” seja um álbum com bastante sample, está longe de ser o primeiro. O Daft Punk escolheu materiais de origem que combinavam com seus equipamentos retrô e os manipulou — em muitos casos, nem tão drasticamente assim — para se adequarem à sua visão.
A espinha dorsal de “Harder, Better, Faster, Stronger” é uma reutilização sem alterações do groove conduzido pelo baixo sintetizado e pelo prato de condução de “Cola Bottle Baby”, de Edwin Birdsong; o romance espacial de “Digital Love” é alimentado pelas melodias ascendentes de “I Love You More”, de George Duke; o loop persistente que impulsiona “Superheroes” vem de “Who’s Been Sleeping in My Bed”, de Barry Manilow. Algo na forma como o Daft Punk escolheu usar todo esse material dos anos 1970 e 1980 marcou os artistas que eles influenciaram.
“[A faixa de ‘Discovery’] ‘Aerodynamic’ tem uma estrutura muito inventiva, que eu chamo de A-B-AB”, diz Madeon, entrando nos detalhes técnicos da composição do álbum. “Ela apresenta um conceito, o sample de disco picotado [de “Il Macquillage Lady”, do Sister Sledge], e depois outro, o riff maluco no estilo AC/DC. Então você tem um A incrível e um B incrível, e aí toca os dois juntos e eles se re-harmonizam. O incrível nessa estrutura é que, se a música começasse com os dois juntos, ia soar uma bagunça. Mas, por causa da ordem em que os elementos são apresentados, tudo faz sentido e dá arrepio.”
“‘Discovery’ definiu muito da forma como eu faço música, especialmente o jeito como eles sampleiam discos”, diz Baauer. “Ainda acho que essa é a minha parte favorita de fazer música: pegar algo antigo e recontextualizar em algo novo. Foi absolutamente o Daft Punk que me mostrou as possibilidades disso. Tipo, acabei de ver aquele vídeo no YouTube que mostra todos os samples [usados em ‘Discovery’], e é de explodir a cabeça — não só quase todas as músicas têm um sample, como muitos deles nem são muito manipulados. Tipo, eles simplesmente pegaram, na cara dura, e acho muito legal que tenham conseguido transformar isso em algo novo.”
9. Destruiu as barreiras entre eletrônica, rock e hip-hop
Entre outras bravatas deliberadamente absurdas no single de estreia do LCD Soundsystem, “Losing My Edge”, de 2002, o vocalista James Murphy afirma ter sido o primeiro cara a tocar Daft Punk para a molecada do rock. Quem quer que tenha feito isso de verdade merece muitos elogios, porque não existe um artista eletrônico que tenha cruzado fronteiras tanto quanto o Daft Punk, especialmente entre os ouvintes de rock da época.
“Lembro de ouvir ‘One More Time’ numa época em que eu só ouvia rock, e aquilo me desnorteou completamente”, diz Zedd. “Eu não gostava de música eletrônica e, de alguma forma, ‘One More Time’ me conquistou imediatamente.”
“Daft Punk nem sempre era algo que eu ouvia ativamente, porque eu curtia rock”, diz Kevin Parker, que reconhece que o riff de guitarra de “Let It Happen”, do Tame Impala, é “bem inspirado no Daft Punk”. “Eles eram só essa anomalia esquisita para mim, porque faziam parte de um mundo musical diferente daquele em que eu costumava estar, mas era tão… sei lá, bom. Sei que soa brega dizer ‘transcende gêneros’ — mas transcende mundos, de certa forma.”
Parker ilustra isso de forma mais concreta: “Vi um meme outro dia, depois que eles se separaram, com vários cavaleiros apoiando suas espadas numa pedra, e a pedra é o Daft Punk, e os cavaleiros são tipo galera da banda, fãs de música eletrônica, fãs de rock, fãs de animação, todo mundo. Todo mundo gosta do Daft Punk.”
Esse meme pode não ter incluído um cavaleiro fã de hip-hop, mas certamente poderia. “Acho que o Daft Punk influenciou muitos artistas, não só os eletrônicos”, diz Alison Wonderland. “Pense no Kanye sampleando eles. Isso é muito importante, porque não havia muitas músicas de rap naquela época que reconhecessem a música eletrônica. Eles falarem com tantos artistas diferentes é algo único.”
O fato de Kanye ter sampleado “Harder, Better, Faster, Stronger”, de “Discovery” (seu DJ de turnê na época, A-Trak, foi quem primeiro mostrou a ele a música do Daft Punk), no single principal de seu álbum “Graduation”, de 2007, foi um momento crucial tanto para os fãs de música eletrônica quanto para os recém-chegados ao gênero. Da mesma forma que “Discovery” apresentou Supertramp e Electric Light Orchestra a uma nova geração, “Stronger”, de Kanye, fez a molecada correr para saber mais sobre os robôs.
“Eu tinha 10 anos, estava voltando de Nova York para Chicago com a minha mãe e, no aeroporto, vi uma capa de revista com os rostos do Kanye e do Daft Punk”, diz Frederic J. Kennett, do Louis the Child.
“Minha tia tinha acabado de me dar o CD “Graduation”, do Kanye, e era meu álbum favorito, então eu precisava ler sobre ‘Stronger’. Eu tinha reconhecido o sample e precisava daquela revista para saber mais sobre o Daft Punk. Ouvi a original ‘Harder, Better, Faster, Stronger’ e o álbum ‘Discovery’, e me apaixonei na hora… Aquela foi realmente a primeira vez na vida que ouvi música eletrônica de pista, e foi a faísca inicial do amor e da curiosidade que tenho pelo que se tornou minha paixão e, depois, minha carreira.”
Kennett não é o único cuja primeira experiência com o Daft Punk, e com a música eletrônica como um todo, inspirou sua própria versão híbrida de rock. “A gente estava ouvindo muito Daft Punk no período que antecedeu o primeiro álbum do Ratatat”, diz Evan Mast. “Nossa banda talvez nem existisse se não fosse por eles.”
10. Estabeleceu o padrão de excelência de liberdade e controle artístico entre músicos pop
A série dramática da HBO “I May Destroy You”, de 2020, tem uma trilha sonora fantástica, centrada no hip-hop e no R&B britânicos contemporâneos, mas que também inclui afrobeat, jazz e música eletrônica. De todas as músicas usadas, porém, a mais crucial talvez seja a balada lenta de “Discovery” “Something About Us”, do Daft Punk, que primeiro embala um encontro romântico espontâneo e terno e reaparece várias vezes ao longo da série. É uma inclusão um tanto surpreendente, não tanto por destoar do resto da trilha, mas porque o Daft Punk é notoriamente avarento na hora de licenciar suas músicas para uso externo.
“Essa era uma das músicas que estavam no roteiro de [Michaela Coel, criadora e protagonista da série] desde o primeiro dia, então nosso trabalho era apenas convencer os detentores dos direitos e o próprio Daft Punk a aceitarem o uso”, diz a supervisora musical da série, Ciara Elwis. “Como grande fã da banda, essa liberação é uma das conquistas de que mais me orgulho até hoje — já que eles são muito seletivos com as séries para as quais liberam músicas, e com toda razão.”
No documentário francês “Daft Punk Unchained”, de 2015, Pedro Winter explica como era importante para a dupla garantir um contrato de gravação que lhes desse controle artístico total sobre sua música e sua arte visual.
Você ouve esse tipo de coisa de artistas o tempo todo — especialmente nos últimos tempos, com artistas mundialmente famosos como Taylor Swift e Kanye West lutando pela posse de suas gravações originais —, mas, olhando para quase 30 anos de Daft Punk, seria difícil encontrar casos em que a dupla tenha se afastado de sua visão obsessivamente curada (tirando um ou outro comercial).
“A disciplina artística que eles tiveram ao longo dos anos é algo que, por algum motivo, eu cito para as pessoas o tempo todo”, diz Kevin Parker. “Quer dizer, eles davam entrevistas, obviamente, mas nunca abriram mão do conceito. Nunca fizeram um especial ‘Daft Punk: Sem Capacetes’, ou algo assim. A quantidade de propostas de shows que eles devem ter recebido desde a turnê Alive deve ter sido absurda. Eles poderiam ter tocado em qualquer lugar por milhões de dólares toda noite. A tentação de fazer isso deve ter sido bem forte, e eles obviamente simplesmente não quiseram.”
Por esse motivo, a estética do Daft Punk continua sendo exaltada por artistas de todos os tipos, até mesmo de fora da música. “Já ouvi alguns produtores de TV franceses dizerem coisas como ‘Queríamos que nossa campanha parecesse uma campanha do Daft Punk'”, diz Madeon. “Tem algo que transcende a musicalidade, que tem a ver com a atitude, a confiança, o quanto aquela era [de “Discovery”] foi completa, curada e comprometida com sua visão.”
Boa parte dessa curadoria da imagem visual vem da admiração da dupla pela cultura pop de forma ampla, diz Jason Bentley. “Tivemos conversas [durante a produção da trilha de Tron] em que eles descreviam coisas como filmes do Spielberg ou videoclipes clássicos em detalhes, com grande reverência. Acho que eles também valorizavam a mitologia do que haviam criado com o Daft Punk, algo tão raro e precioso quanto os filmes cult e a pop art que admiravam.”
(Essa “certeza visionária”, como Bentley a chama, também é o que, segundo ele, permitiu que eles “dissessem ‘não’ para muita coisa e mantivessem uma aura de mistério”.)
O último ato de autocuradoria do Daft Punk foi a separação, anunciada em seu estilo característico por meio de um vídeo de oito minutos intitulado “Epilogue,” que traz trechos de seu filme de 2006, “Electroma”. “É mais simbólico, como o fim de uma era”, diz Bentley sobre a separação. “Confio que foi uma decisão muito pensada da parte deles e, voltando ao quanto eles se importam com a mitologia da música e da cultura, só posso especular que sentiram que não tinham mais nada a contribuir.”
Sempre hiperconscientes de seu lugar na cultura, o Daft Punk nos deixou uma trajetória de carreira organizada e deliberada, cujo alcance chega ao cerne dos objetivos artísticos da dupla.
“Sinto que o enorme sucesso de ‘Random Access Memories’ foi um belo fechamento para uma história de tecnologia de sampling evoluindo para a expressão e a nuance humanas”, diz Bentley. “‘Discovery’ provavelmente representa o ponto ideal da discografia deles para mim — já que eu mesmo ainda estou, na maior parte do tempo, ouvindo e aprendendo com uma linguagem de máquina. Mas a separação deles mostra que, afinal, somos todos humanos.”
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui].
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