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Leila Pinheiro, Fernanda Takai e Joyce Moreno

Leila Pinheiro, Fernanda Takai e Joyce Moreno

Leila Pinheiro, Fernanda Takai e Joyce Moreno tocam juntas no Rock in Rio

Cantoras e compositoras celebram encontro no Global Village dia 7 de setembro

No Dia da Independência do Brasil, três mulheres importantíssimas para a música brasileira se encontram no Rock in Rio 2026. Não poderia ser mais simbólico e emblemático num festival que mira em aumentar sua equidade de gênero. Na ocasião, Joyce Moreno, Leila Pinheiro e Fernanda Takai se unem para celebrar o sagrado feminino no palco Global Village, num encontro que promete emocionar fãs de MPB e jazz.

Vamos começar pela escalação acertada dessas três grandes vozes que representam gerações distintas da música brasileira. Joyce Moreno, carioca nascida em 1948, é uma das figuras mais relevantes e pioneiras da música popular brasileira. Aos 19 anos, chocou o país ao se apresentar no Festival Internacional da Canção de 1967 com a canção “Me Disseram”, tornando-se a primeira compositora brasileira a se expressar no gênero feminino na história da MPB. Compositora, arranjadora, instrumentista e bandleader, Joyce construiu uma carreira internacional com 42 discos lançados e cerca de 400 composições gravadas por nomes como Elis Regina e Milton Nascimento. Nos anos 1990, sua obra foi descoberta por DJs do Japão à Inglaterra e ganhou novo gás no formato de remixes e edits, passeando entre o samba, a bossa nova e o jazz.

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Leila Pinheiro, paraense de 1960, começou no piano aos dez anos e abandonou a faculdade de medicina em 1980 para se dedicar à música. Sua estreia nos palcos foi no Theatro da Paz, em Belém. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde gravou seu primeiro LP independente, com participações de nomes como Tom Jobim e João Donato. O sucesso nacional veio em 1985, ao vencer o prêmio de cantora-revelação no Festival dos Festivais da TV Globo com a canção “Verde”. Em 1989, lançou “Bênção Bossa Nova”, produzido por Roberto Menescal, que vendeu 200 mil cópias no Japão, um marco para a MPB.

Fernanda Takai, amapaense radicada em Belo Horizonte, é a voz do Pato Fu há mais de três décadas. Em 2001, foi eleita pela revista “Time” uma das dez melhores cantoras do mundo com sua banda. Sua carreira solo começou em 2007, com o álbum “Onde Brilhem os Olhos Teus”, um mergulho no repertório de Nara Leão, que lhe rendeu o prêmio de melhor disco de MPB do ano pela APCA. A cantora já gravou com Andy Summers (The Police) e tem uma trajetória que inclui prêmios Grammy Latino, livros e atuação como colunista em grandes jornais.

“NÃO QUERIA NAMORAR UM DOS CARAS, QUERIA SER UM DELES”

Com esse time, vai ser difícil o público não se emocionar. Vamos à entrevista concedida à Billboard Brasil via Zoom, enquanto as três estavam na fase embrionária do feat no Rock in Rio.

Billboard Basil – Vocês já me cantaram a bola que está rolando um grupo no WhatsApp para formatar o show. Eu queria entender como está sendo, como tem sido e como vai ser até o dia em que vocês subirem no Global Village, essa troca de mensagens, como é que vocês vão preparar esse show, qual é a ideia, quem fala mais, quem traz mais ideias, se tem um roteiro…

Joyce Moreno – A gente tem um diretor de roteiro, que é o Marcos Fernando, que é o diretor dos shows da Leila desde algum tempo, e ela sugeriu trazê-lo para esse grupo para, mais ou menos, organizar o negócio. E, no grupo, a gente troca ideia sobre repertório, tom, quem vai fazer o quê, e assim vai.

Leila Pinheiro – Na verdade, começou com o convite. O Zé Ricardo entrou em contato. Eu gosto muito de dizer que eu que dei a ideia das duas. Porque são meninas queridas, tem a ver a nossa relação, nos cruzamos na bossa nova, nos cruzamos na música brasileira, nos cruzamos no Brasil. Então, ia ser uma postura bonita de fazer. Não sei se a Joyce já participou do Rock in Rio. Joyce, já fez?

Joyce Moreno – Eu participei do Rock in Lisboa. Aqui no Brasil, é a primeira vez.

Leila Pinheiro – E foi, de fato, através do Marcos Fernando, que tem essa habilidade porque conhece muito a Joyce, apaixonado por ela e pela obra. E a Fernanda trabalha comigo há muitos anos. É um cara que faz essa costura muito bem, porque conhece música para cacete. Então conhece bem o que a Fernanda gravou, o que eu gravei, o que a Joyce gravou, e propõe o que pudesse iluminar mais a noite com nós três. Só para lhe dar uma ideia, a gente abre a noite com “Águas de Março”, só as três. Isso é superconfidencial.

Fernanda Takai no Rio2C 2026
Fernanda Takai no Rio2C 2026 (Divulgação)

Fernanda Takai – Mas foi bom, tá sendo ótimo. Eu e a Leila já cantamos juntas algumas vezes. Eu e a Joyce, o encontro em que a gente passou mais tempo junto foi no Palácio das Artes, na homenagem ao Clube da Esquina. E, embora a gente se visse de longe, se gostasse de longe, acho que vai ser a primeira vez que nós três estaremos juntas cantando. Acho que todo mundo aqui já esteve separado uma com a outra, e agora finalmente juntas.

Leila Pinheiro – E teve também os 50 anos da Bossa Nova na Praia de Ipanema, que nós três estivemos lá.

Fernanda Takai – Ah, verdade, mas não cantando juntas.

Billboard Brasil – Queria que vocês falassem um pouco desse sentimento de representatividade que vocês estão levando para um festival que ainda tem um caminho pela frente quando se fala de equidade de gênero.

Leila Pinheiro – Com a presença, sabe? Eu nem pensei nisso, porque nós três mulheres nos reunirmos, em princípio, para nós é uma coisa natural. Mas dentro de um festival é forte mesmo pra caralho. Somos três grandes artistas, sem nenhuma modéstia, numa noite linda, com uma banda foda, cantando a música brasileira com várias nuances. Eu acho que, quando abrirem as cortinas e estivermos nós três, a nossa presença por si só já vai imprimir essa coisa nas pessoas de pensar talvez nisso.

Fernanda Takai – Eu posso até falar, porque eu estive tocando no Rock in Rio em palcos de datas bem diferentes e, com exceção da estreia da primeira edição, eu era a única mulher nos palcos. E não só no Rock in Rio, todos os festivais que eu vou, geralmente eu sou a única mulher. Ainda mais se for pegar para o lado de banda de rock, pop rock. É uma solidão. Eu acho bom que o Rock in Rio faça esse exercício e que seja cobrado por isso, Claudia.

O Mar é Mulher - Joyce Moreno

Joyce Moreno – Bom, eu vou ter que falar aqui da minha pequena experiência com esse negócio de ser a única mulher. Isso é a história da minha vida. Para começar, quando comecei, vocês não eram nascidas, nenhuma de vocês. Foi no ano de 1968 que saiu o meu primeiro disco, e não tinha mulher compositora gravando, não existia. Foi uma coisa completamente chocante para muita gente, eu tomei vaia, fui mal falada nos jornais, as pessoas achavam aquilo um absurdo. E nesse primeiro festival que eu participei, que foi em 67, que era um festival competitivo, o Festival Internacional da Canção, o Lan, aquele grande desenhista, caricaturista, ele fez uma caricatura que tinha eu no centro e em volta de mim tinha Chico, Milton, Edu, Dori, Nelson Motta, os rapazes que estavam concorrendo. E só tinha eu de menina ali. Minha mãe guardou esse desenho, que saiu no Jornal do Brasil, e depois eu fiz um quadro, botei aqui em casa. Aí um dia veio uma jornalista aqui me entrevistar, e ela olhou esse quadrinho e falou: “Poxa, que legal, você nunca pensou em namorar um desses caras?” Pergunta tão óbvia, né? Aí eu falei: “Não, eu não queria namorar um dos caras, eu queria ser um dos caras.” É um pouco diferente. Então, eu tenho sido um dos caras ao longo da minha vida toda, como compositora, depois como arranjadora, como instrumentista, como todas essas coisas que eu faço. Bandleader, que é um negócio que você liderar uma banda de homens, os homens têm que ser legais, têm que ter uma cabeça bacana para aceitar uma liderança de uma mulher. Então, quer dizer, isso é o nosso dia a dia. É sempre a gente estar tendo que botar o pau na mesa, aquele pau que a gente não tem, mas a gente tem que pôr. Então, a vida inteira é muito isso.

Leila Pinheiro foi descoberta pela grande massa participando de festivais. Divulgação

Leila Pinheiro – É, mas tem uma coisa… Como você toca, eu toco, Fernanda toca, a gente chega com uma bagagem de trocas, de igual pra igual. Você é bandleader, eu sou, Fernanda é, junto com o John e tudo. Eu nunca senti isso, porque eu acho que a gente tem que tocar um instrumento para poder se comunicar com eles.

Billboard Brasil – Esse depoimento da Joyce foi incrível. É um assunto que é um elefante no meio da sala, fica ali. Falar sobre isso tem surtido algum efeito, mas ainda estamos longe de estar no lugar ideal. Agora eu queria voltar para a música. Cada uma de vocês marcando um processo. Joyce, você completamente sozinha. Eu já vi essa caricatura, eu imaginava a sua solidão, de estar rodeada por homens tão incríveis, mas sozinha. Depois vieram outras, mas também em menor número. E vocês três, tendo que provar essa excelência de uma forma mais assertiva, mais propositiva e mais firme. Eu queria que vocês colocassem: além da arte, é preciso um esforço maior para serem escutadas?

Joyce Moreno – Sempre. Tudo em dobro. A gente sabe disso, vocês sabem disso, todos nós sabemos. No jornalismo também, não é? Já estive aí, já estive nesse lugar, eu conheço.

Leila Pinheiro – Mesmo com todo esse chão da gente, a gente segue tendo que cavar esse espaço, seja de uma forma ou de outra. Nada é fácil. Está um pouquinho menos, talvez, e a gente celebra cada Rock in Rio que reúne e mostra essa cara, mas ainda segue sendo uma luta.

“O TRABALHO DESDEPRIME A MULHER”

Fernanda Takai – Eu acho até que a gente seja mais exigente com a gente mesma. A gente não se perdoa, a gente perdoa as falhas de todo mundo, mas a gente tem que ser impecável. Então, é uma cobrança, uma autocobrança muito grande. E, por parte dos outros, as pessoas que respeitam o nosso trabalho, sejam outras mulheres ou homens que têm sensibilidade, mas quem quer nos derrubar fica esperando qualquer coisinha para falar. E acho que a gente fica nesse lugar de tentar fazer as coisas tão certinho que, com o tempo, a gente encontra um lugar de se orgulhar. A gente é tão ocupada que ainda bem que a gente não teve mais tempo para ficar encucando, porque se a gente tivesse, acho que a gente ia ficar deprimida. Acho que o trabalho desdeprime a mulher, porque a gente vai fazendo tanta coisa, a gente fez tanto junto, olha quanta coisa a gente fez em áreas diferentes, com pessoas diferentes, e sempre provando que a gente tem excelência. A maturidade vai nos ajudando. Hoje eu sou muito mais tranquila com o que eu posso fazer, o que eu sei fazer, do que quando comecei. Eu era muito mais cruel comigo mesma, se não bastasse as outras pessoas já serem.

Billboard Brasil – Você falou uma frase que eu queria imprimir numa camiseta: “O trabalho desdeprime a mulher.”

Joyce Moreno – Eu diria que o trabalho desdeprime todo mundo. Porque a gente vê as pessoas mais velhas, eu já sou uma senhora idosa, atualmente no papel de velha maluca, mas a gente sabe que os nossos contemporâneos, da minha geração, o pessoal que aposentou, que desistiu dessa cobrança do trabalho… Eu vi isso acontecer até com o meu irmão mais velho. A pessoa lembra que pode ficar doente, e deprime mesmo, você perde aquilo. É muito importante, ainda mais a gente que trabalha com arte, com música, que é uma coisa que vivifica, que nos faz viver. A gente precisa desse calor, dessa queimação que a gente passa. A gente precisa disso para manter a chama acesa e estar lá. Estamos lá.

Billboard Brasil – Queria entrar um pouquinho no repertório de vocês, sem queimar fichas. Vocês vão revisitar mais a bossa nova, MPB, vão misturar gêneros? Como foi chegar nesse setlist final?

Leila Pinheiro – Em princípio, o convite do Zé Ricardo era que fosse bossa nova. Pensou até porque a Fernanda tem o mergulho na Nara, a Joyce é a bossa nova viva, mas não necessariamente as canções da bossa. Depois, quando a gente foi misturando, soubemos que a sequência do nosso show ia ser o João Bosco, que é o homenageado da noite, e aí deu mais sentido ainda para o repertório ser bem variado. Não estou cantando só bossa, Fernanda tampouco, nem Joyce. Estamos passeando pelos repertórios de uma forma bonita, uma passa o bastão para a outra, nos reunimos, nos soltamos e fechamos juntas o show.

Fernanda Takai – Algumas canções vão entrar como uma luva, e as pessoas nem imaginariam que elas poderiam estar nesse show. A gente tem esses clássicos, a gente não pode escapar deles, e é importante que eles sejam colocados no palco mais uma vez, porque o público do Rock in Rio é muito amplo, uma mistura de gente que vai assistir palcos diferentes, gente de todos os países. E eu acho que a gente fez um repertório que dá orgulho, tá bem gostoso.

Joyce Moreno – Da minha parte, estou adorando também, curtindo muito. Acho que o Marcos Fernando está fazendo uma costura muito interessante dentro desse repertório. Vai ter surpresas, como a Fernanda falou, surpresas ótimas. E eu estou flex. Total flex [risos]. Vou me divertir, o negócio é esse. Eu quero me divertir, acho que vai ser divertido pra caramba.

A BOSSA NOVA É FODA

Leila Pinheiro – Sabe o que teve de legal, que é bom citar? Não teve nenhuma das músicas que a gente propôs entre nós, ou que o Marcos propôs, que a gente falasse “não dá”. Todas eram grandes músicas. A gente tem essa afinidade do que cantar, da qualidade da canção. O nosso grupo não tem polêmica, nosso grupo é tão gostoso. Podia ser o grupo da família esse aqui.

Fernanda Takai – Ia ser uma paz ali, perto das eleições, conversar com a família se fosse assim.

Joyce Moreno – Sabe por que isso, Fernanda? Porque a bossa nova é foda. Isso explica tudo. A bossa nova é foda, e a música brasileira, de um modo geral, é foda em todas as suas vertentes. Nós somos o grande soft power do Brasil no mundo.

Billboard Brasil – Por último, queria que vocês falassem um pouco do prazer desse processo, de estarem mais próximas. O legal da arte, muitas vezes, é o processo, né?

Joyce Moreno – É a arte do encontro. Eu tenho que agradecer à Lelê por ter convidado a mim e à Fernanda. Eu acho que a gente vai se divertir um bocado lá.

Fernanda Takai – Eu também. Agradeço demais à Lelê. E, nossa, esse é o tipo de show para botar no currículo. Sabe o que você põe? Minibio: “Cantou no Rock in Rio ao lado de Joyce Moreno e Leila Pinheiro”. Olha que maravilha.

Leila Pinheiro – É muito lindo. Exatamente essa junção. Aí a gente fica trocando tons. Tem essa coisa que é deliciosa, que é exatamente a minúcia dessa costura. Somos musicistas, as três. Eu tô louca pra chegar o dia. Pra mim ainda tem uma alegria grande: minha mãe faz 90 anos no dia 7.