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Coluna: Ter talento não basta para construir e administrar uma carreira

A indústria ensina o artista a sonhar com o hit e nunca a ler um contrato

Kamilla Fialho e Dani Pepper para a coluna "Ter talento não basta para construir e administrar uma carreira".

Kamilla Fialho e Dani Pepper

Uma frase clichê, lúdica e defendida por pessoas que realmente acreditam apenas na sorte, é também uma das frases mais caras da indústria: “se o artista tiver talento, o resto acontece”.

Ela é confortável porque isenta todo mundo.

Isenta o artista de entender o próprio negócio, isenta a empresa de explicar, isenta o mercado de formar quem ele mesmo emprega. E ela é falsa.

Depois de mais de duas décadas trabalhando nos bastidores de trajetórias muito diferentes entre si, a gente aprendeu que o resto não acontece.

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O resto é feito por alguém, com informação, e quase nunca por quem canta. Uma de nós fundou a K2L em 2002.

A outra entrou como estagiária e hoje é CEO. Em comum, temos a mesma cena vista de perto centenas de vezes: o momento em que uma carreira decola e o momento em que ela estagna.

O segundo raramente tem a ver com talento. Talento é indispensável, afinal, uma das únicas coisas que um empresário, um escritório e um time podem fazer pelo artista é cantar por ele, subir no palco por ele.

Anitta e Nidia Aranha nos bastidores da produção do disco "EQUILIBRIVM", de Anitta (Arquivo pessoal/Divulgação/Instagram @nidia_aranha)
Anitta e Nidia Aranha nos bastidores da produção do disco “EQUILIBRIVM”, de Anitta (Arquivo pessoal/Divulgação/Instagram @nidia_aranha)

Só que talento não administra carreira sozinho

O artista aprende a criar, cantar, compor e se apresentar.

Não aprende quanto custa manter a própria operação, como precificar um show, como ler os próprios dados, o que é um adiantamento recuperável, o que está sendo cedido quando ele assina um contrato de três páginas com pressa, como gerir uma equipe.

E não estamos falando de transformar artista em planilha. Estamos falando do contrário: informação é o que permite que ele decida com a própria cabeça, inclusive quando a decisão contraria quem está do lado dele. Nós, inclusive.

É fácil demais o artista ser apenas o artista e pensar, por exemplo, em um clipe gravado nas ilhas Maldivas, com milhares de figurantes, com figurinos impecáveis e jet skis; difícil é ele parar para ver que essa ideia não cabe no orçamento, ter uma ideia extremamente criativa com um budget de R$5.000.

Carreira independente exige mais do que talento

A independência resolveu um problema real e criou outro. Hoje um artista grava, distribui e encontra público sem depender de uma grande estrutura.

Distribuir ficou fácil. Decidir, não. Ter mais ferramentas na mão não significa, automaticamente, saber qual usar, nem quando parar de usar. E é aí que está uma das maiores dores do mercado hoje.

Existe conteúdo infinito ensinando a “estourar”: fórmulas, promessas, atalhos, cursos sobre como transformar uma música em hit, empresas oferecendo serviços mentirosos, ilegais, irreais, imediatos.

Não tem nada que te conte sobre o dia seguinte, nem o próximo, nem como fazer você seguir divulgando a sua música o resto do mês e muito menos pensando no próximo lançamento.

E mais, o que será feito após a música estar disponível? Existirá uma turnê? Divulgação em rádio? Ação com fãs? Porque o dia seguinte é o trabalho de verdade.

É negociar a oportunidade que apareceu. É entender os números antes de comemorar. É organizar finanças, proteger imagem, escolher parceiros, montar equipe e sustentar decisões quando o algoritmo muda ou quando o próximo lançamento não performa — e uma hora ele não performa. É extremamente normal não performar.

Ser artista é lidar com frustrações e quebras de expectativa o tempo inteiro.

Existe ainda um custo que nunca entra na planilha: o de viver de música, lidando com comparação, com ansiedade por resultado e com a sensação de estar trabalhando muito sem conseguir identificar o que exatamente está travando.

Esse custo é real e merece ser tratado com a mesma seriedade que a gente trata contrato.

Conhecimento de mercado não deveria ser privilégio de quem já está dentro. Essa talvez seja a mudança mais necessária da nossa indústria.

A informação que decide uma carreira ainda circula em conversa de bastidor, em grupo fechado, em jantar. Quem está dentro sabe.

Quem está de fora tenta adivinhar, paga caro por mentorias de profissionais que só querem o seu dinheiro ou erram, erram e erram mil vezes até descobrir.

Foi olhando para isso que a gente entendeu que o que acumulamos em vinte e poucos anos não podia continuar restrito aos artistas que passam pela nossa porta. Artista independente não precisa de mais uma promessa de que vai dar certo.

Precisa de acesso a conhecimento, à rede, a profissionais confiáveis e a critérios para saber quando o negócio que está na mesa é bom.

Depois de tantos anos acompanhando carreiras, a conclusão é menos glamourosa do que se espera de uma coluna: não existe fórmula para viver de música.

Existem escolhas melhores e piores, acertos e erros, estratégias que funcionam para uns e destroem outros.

O que dá para mudar não é a sorte. É o nível de informação com que a escolha é feita.

Independência não deveria significar fazer tudo sozinho. Deveria significar ter conhecimento suficiente para decidir quem você quer ao seu lado — e qual carreira você quer construir.